
Maria de Lourdes Fanaia
Este texto abarca os olhares do cuiabano artista plástico João Sebastião Francisco dos Santos (in memoriam, 2016) e da poetisa Marilia Beatriz Figueiredo (in memorian-2020) sobre a protagonista Maria Taquara, que viveu no universo cuiabano na primeira metade do século XX. Devido ao seu modo de ser e de vestir, a protagonista foi estigmatizada, considerada na época uma transgressora da moral e dos bons costumes. Como mérito, por sua coexistência na memória do povo cuiabano, a pedido de Hélio Palma de Arruda (na época secretário de Educação e Cultura) ganhou do escultor, em 1982, Haroldo Tenuta, uma estátua modelada “em bronze, ou aço, não sei ao certo”, assim disse o artista plástico João Sebastião (in memoriam, 2016).
Segundo Davies (2023, p.121), João Sebastião, pincelou suas telas por mais de quarenta anos, representando a cultura popular cuiabana e sua religiosidade, figuras populares, a onça pintada, a canoa sobre as águas, o rio e seus mitos, o caju, o pilão, a viola de cocho, os instrumentos musicais, os potes de cerâmica. Para Davies (2023), João Sebastião conhecido como o artista das onças, da cultura e da iconografia mato-grossense, crítico das questões sociais e pela defesa das mulheres, fez uma homenagem especial a Maria Taquara.
O Geógrafo cuiabano Anibal Alencastro conheceu Maria na década de 1960 e para ele o morador Joao Balão deu a ideia de criar a estátua assentada na praça Maria Taquara, apesar de restaurada por Fred Fogaça em 2009, dez anos depois (2019) foi realizado um novo restauro. Para o artista plástico Sebastião, o tipo de material da estátua, é o mais difícil para ser modelado, porque deixa a figura endurecida, retesada. Mesmo assim, segundo o artista plástico J.S. com o passar do tempo, adquiriu beleza própria, suplantou o gosto estético, explícito na obra. De acordo com a pesquisadora Davies (2023), João Sebastião dizia o seguinte: “Eu quero chamar a atenção para esta personagem, que hoje está em um pedestal muito baixo e numa região suja, horrível. Tudo que morre em Cuiabá, morre para sempre”.
“ Segundo as “boca-miúdas”, Maria gostava do “babado”, era transgressora. Maria era negra e assumida. Usurpava o poder social, ao usar calça masculina. Soube servir aos soldados de sua época. Não vejo nisso uma prostituição. Eram trocas, finesas, pois a sua natureza era obsequiosa”
Para João Sebastião Maria “ganha uma Praça com o seu nome. Essa praça é considerada “bafon”, pela boemia cuiabana, pois depois da meia noite, a “cobra pia”. E como pia. Ganhou status de mito muito importante, apesar de ser mulher e negra. Hoje, quem “quara” ao sol quente de Cuiabá, é a Maria. Continua carente de afeto, de compreensão, de cuidados sociais e culturais sérios. Canharam o pedestal à Maria Taquara. Pelo seu porte físico, enquanto mulher alta, deveria ser bem mais elevado, tanto quanto o tamanho de sua estátua. São as linhas de correspondências em desencontros. Hoje, sua base, tem servido de encosto à lixarada acumulada”.
Para o artista J. S: O pedestal onde está assentada a estátua é: miúdo, que aí está, não condiz com a grandeza dessa persona ou mito cuiabano. Hoje, ela é parte da cultura Mato-grossense e Brasileira. Já está referenciada no “google”. Venho, agora, encarecidamente prestar este obséquio para cogitar o respeito e a consideração, a quem possa mudar essa situação, para melhorar a sua imagem de mito cuiabano (João Sebastião, 2015).
Uma forma de dar maior visibilidade à personagem foi quando João Sebastião criou o movimento transmitologia, transvestiu-se de Maria Taquara, colocou meias pretas, pintou seu corpo de preto, vestiu uma roupa branca, colocou uma trouxa de roupas na cabeça (estilo lavadeira), fez a performance caminhando pelas ruas da cidade (Davies, 2023, p 150).
Através da performance, foi fotografado, deu entrevistas, utilizou as mídias e, principalmente, a sua rede social para divulgar e organizar o movimento, para isso convocou artistas de todas as áreas, (Davies, 2023, p 153).
Maria sob os olhares de artistas
Escultura de Maria Taquara
Para o artista plástico J.S, Maria é uma persona sexual por excelência. Abriu caminhos, na formação de um tabuleiro social, por sua audácia. Uma a mais, a compor o nosso riquíssimo “rincão”. Segundo as “boca-miúdas”, Maria gostava do “babado”, era transgressora. Maria era negra e assumida. Usurpava o poder social, ao usar calça masculina. Soube servir aos soldados de sua época. Não vejo nisso uma prostituição. Eram trocas, finesas, pois a sua natureza era obsequiosa. Até demais.
O cuiabano Aníbal Alencastro disse que a protagonista morava num casebre no bairro goiabeiras, nas proximidades do quartel e não considera Maria prostituta. Se as histórias narradas versam verdades ou mentiras, devemos o respeito e a preservação pelo patrimônio. Para o artista plástico, a nossa cultura só é lembrada porque a gente faz ser lembrada é preciso manter viva a memória de Maria Taquara.
Maria Taquara foi uma mulher pobre, que trabalhava como lavadeira. Ela foi considerada uma transgressora da moral e dos bons costumes, e é conhecida como a primeira mulher a usar calças em Cuiabá, na década de 40. Ela era uma trabalhadora (Joao Sebastião, 2015).
Mediante a homenagem, João Sebastião também considerou um novo olhar para a personagem dizendo: “Maria Madalena, recebeu de Jesus, a consideração e o privilégio por ser ela, uma mulher, a primeira a ver o Mestre ressuscitado. A Maria da Penha, merece o nosso carinho e consideração, pela sua coragem em expor a condição humilhante, à qual as mulheres recebem de seus maridos cruéis, e a nossa Maria Taquara, merece a nossa consideração, para colocá-la num pedestal à sua altura, ocupando o espaço da Praça Maria Taquara, a qual trás o seu nome. Essas Marias, aqui relacionadas, são mulheres, como outras quaisquer, e por isso são dignas de usufruírem as nossas melhores considerações. Isto é mais inteligente. Peço a todos que transitem por esta linha de nível bem mais acima, escreva a sua consideração, através dos quadros que eu pintei, sobre esta personagem, chamada Maria Taquara” (João Sebastião, 2015. In: Davies 2023, p 154).
Uma outra análise importante sobre Maria Taquara é da professora Maria Beatriz Figueiredo Leite (in memoriam,2020), foi poetisa, escritora, Profª da Universidade Federal, membro da academia de Letras. Pela leitura semiótica a professora manifestou sobre a personagem em 2015 dizendo: “ Uma figura folclórica a caminhar por Cuiabá, mulher da vida e de calças, assim, foi Maria Taquara, ela descia a rua com uma trouxa na cabeça todos os dias uma eterna rotina de uma mulher pobre e humilde mas trabalhadora. o ano é de 1940. Hoje ela povoa o imaginário cuiabano, pode-se dizer que tornou-se uma lenda da transgressão da moral e dos bons costumes por ser a primeira usar calça em cuiabá. O que paira sobre ela são as nevoas das fábulas que se criaram e que a tornaram um ícone cuiabano”.
A Professora Marilia Beatriz (in memmorian),em 2015 ao fazer as suas observações questionou: Porque haveria interesse de ser inserida uma mulher enquanto monumento se o mesmo não tivesse uma relação com o signo? E Marilia prossegue respondendo ao seu questionameto: “Talvez ela represente o lúdico do cuiabano e ao mesmo tempo o conflito entre o sujeito e o circudante. Quanto ao local onde foi assentado o monumento é o que proporciona o sentido de que a face da mulher precisa ser vista como exótica dos pedaços diurnos e noturnos da categoria, Maria.
O símbolo e o signo estão fixados numa estátua de aço na Praça Maria Taquara, mesmo que milhares de pessoas passem por ela que segura uma trouxa de roupa na cabeça e que não conhecem sua hsitoria, destino, caminhos nem imaginam que desta figura folclórica que povou a mente dos soldados se fez até música. Mesmo que ninguém saiba quem era a mulher negra, magra que perambulava por Cuiabá, ela se fará presente com seu semblante frio e de aço, a olhar para o futuro, estando sempre no passado”.
Maria de lourdes Fanaia é Profª Drª. pelo Programa de Pós graduação do ECCO-UFMT-historiadora docente da Universidade de Cuiabá-UNIC, membro do PEN. Acesse texto anterior: https://www.rdnews.com.br/artigos/o-monumento-a-praca-e-a-personagem-maria-taquara/20662

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