Do pré-sal ao lítio: O Brasil na encruzilhada da transição energética

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Rodinei Crescêncio

O Brasil já foi chamado de “celeiro do mundo”, quando a produção de alimentos parecia ser nossa maior contribuição ao planeta. Depois, passamos a ser o país do pré-sal, com reservas de petróleo que, na virada do século, prometeram independência energética e prosperidade. Agora, no alvorecer da transição energética, novas expressões começam a surgir: o “ouro branco” do lítio, essencial para baterias, e o hidrogênio verde, apontado como combustível limpo do futuro.

A pergunta que se impõe é inevitável: seremos protagonistas dessa revolução ou apenas exportadores de matéria-prima barata, mais uma vez assistindo a outros países enriquecerem com a tecnologia que não dominamos? “ Estamos, portanto, numa encruzilhada. De um lado, a tentação de seguir o caminho conhecido… De outro, a chance de romper o ciclo, investir em conhecimento e ocupar espaço como potência energética do século XXI”

O pré-sal ainda responde por boa parte da riqueza brasileira, mas o mundo já não olha para o petróleo com o mesmo entusiasmo. A pressão por reduzir combustíveis fósseis é crescente, e aquilo que foi promessa pode se tornar peso morto. Persistir na dependência do petróleo é como apostar em uma moeda que já começa a perder valor no mercado internacional.

Enquanto isso, o lítio desponta como peça-chave da economia verde. Nossas reservas, concentradas sobretudo no Vale do Jequitinhonha, colocam o Brasil no mapa dos países estratégicos. Mas há um dilema: vamos repetir o ciclo histórico de simplesmente exportar minério bruto ou teremos ousadia de investir em pesquisa, indústria e tecnologia para agregar valor? Basta lembrar o que ocorreu com o ouro, o café e até a soja. Sempre celebramos o boom inicial, mas raramente construímos soberania.

Outro vetor da transição energética é o hidrogênio verde. Poucos países reúnem condições naturais tão favoráveis quanto o Brasil: sol abundante, ventos constantes, acesso a recursos hídricos. Com energia renovável barata, poderíamos ser líderes globais nesse setor nascente. No entanto, enquanto nações menores já desenham suas cadeias de produção e exportação, o Brasil ainda parece hesitar. É como se estivéssemos diante de uma janela de oportunidade histórica e preferíssemos observar da calçada, em vez de entrar no jogo.

Estamos, portanto, numa encruzilhada. De um lado, a tentação de seguir o caminho conhecido, exportando commodities sem grandes transformações internas. De outro, a chance de romper o ciclo, investir em conhecimento e ocupar espaço como potência energética do século XXI. A escolha não é apenas econômica ou ambiental. É também política e social.

Dominar a transição energética significa definir se queremos um Brasil que produz tecnologia, empregos de qualidade e soberania estratégica, ou um Brasil que repete seu papel periférico, refém de interesses externos.

A transição energética já começou. O futuro não espera. Resta saber se, desta vez, teremos coragem de ser protagonistas ou se, mais uma vez, nos contentaremos em ser apenas fornecedores da matéria-prima que sustentará a riqueza de outros.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

Link da Matéria – via RD News

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