De córrego à avenida: Prainha moldou a transformação urbana no centro da Capital

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Completando 306 anos, nesta terça-feira (08), Cuiabá é marcada por transformações significativas que moldaram a cidade. Um dos exemplos mais representativos foi a transformação do córrego da Prainha, dando lugar à atual Avenida Tenente Coronel Duarte, conhecida popularmente como Avenida da Prainha.

Durante a época da província, por volta do século 18, o córrego da Prainha fluía por Cuiabá, sendo utilizado por pescadores e pelas escravas lavadeiras. Seu curso não era grande, de modo que apenas canoas e embarcações pequenas podiam navegar por ele, percorrendo da região do porto até a atual Praça Ipiranga, à época chamada de Praça Aracaty. 

Na década de 1960, a administração municipal iniciou a canalização do córrego, buscando conter problemas como enchentes e melhorar as condições sanitárias da região. Entretanto, foi em 1975, durante a gestão do então prefeito, Rodrigues Palma, que se deu início ao projeto de cobertura do córrego, transformando-o em uma via urbana. As obras finalizaram no ano de 1979. Cuiabá das Antigas

Publicação do jornal O Estado de Mato Grosso, sobre a etapa final das obras de cobertura do canal da Prainha, em 1979.

“Mais casas do que comércio”

Em entrevista ao , Telma Fedato Rocha, de 68 anos, relatou que nasceu em Presidente Prudente (SP) e se mudou para Cuiabá na década de 1970, quando tinha 16 anos. A mudança foi devido ao pai dela, que abriu um comércio de borrachas automotivas, na Capital.

“A gente alugou uma casa ali, que a parte da frente ficava na Rua Antônio João e os fundos, olhando por uma janela grande de madeira, dava para ver o córrego da Prainha, que ficava na rua de trás da casa”, lembrou Telma.  “ Ali caía muito carro pra dentro dele [córrego]. Era só o córrego aberto, não tinha proteção… Caía carro um dia sim e outro também” Telma Fedato Rocha

Segundo ela, à época, o córrego ainda estava aberto, mas exemplificou que era como o córrego do Barbado atualmente – canalizado – e que a avenida era menor, mas já existia, onde os veículos podiam transitar nos dois sentidos. O maior problema da região, relembra, eram os carros que caíam no córrego frequentemente.  

“Ali caía muito carro pra dentro dele [córrego]. Era só o córrego aberto, não tinha proteção… Caía carro um dia sim e outro também haha. Não, não era bem assim, mas de vez em quando caía carro lá dentro. Era meio perigoso”, disse Telma.

Outro fato que marcou Telma, no período em que morava na região, foi ter aprendido a dirigir na Avenida da Prainha. Segundo ela, naquela época o local não era movimentado como atualmente e havia mais casas do que comércios. Cecília Nobre/Rdnews

Telma Fedato Rocha durante relato sobre o período que morou na região da Prainha

“Era uma avenida, assim, tranquila. Eu aprendi a dirigir no centro de Cuiabá – o que hoje seria praticamente impossível. A cidade era tranquila, não era como hoje em dia, até sobre a segurança. Eu ia e voltava a pé para o Colégio São Gonçalo, onde eu estudava à noite, e nunca aconteceu nada”, relembrou. 

Escolhas pelo meio “mais fácil”

Atualmente, a Avenida Coronel Tenente Duarte é palco de constantes debates sobre preservação ambiental e infraestrutura urbana e tem sido pauta na maioria dos meios de comunicação devido às enchentes na região, durante as chuvas.

Ao , a arquiteta, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Doriane Azevedo, explicou que o núcleo urbano de Cuiabá começou a ser estruturado ao longo da região da Prainha “tanto de um lado, quanto do outro”.  “ As opções técnicas que nós escolhemos naquele momento foram as piores possíveis, se a gente considerar a médio e longo prazo, reduzindo toda essa área do canal do córrego e também reduzindo as áreas permeáveis para a infiltração da água” Doriane Azevedo

“De um lado, a gente vai ter a colina, com a Igreja do Rosário. Do outro lado do córrego, sentido Rio Cuiabá, tivemos as primeiras ruas sendo implantadas, como a gente conhece atualmente”, explicou.

Segundo a pesquisadora, entre as décadas de 1960 e 1970, as autoridades políticas tiveram um conjunto de discussões, chegando à conclusão de que a cidade deveria ser modernizada, sendo que, à época, a modernização estava no sentido de “coisas novas” como construção de edifícios e o transporte de veículos automotores. Para isso, optaram pelo “caminho mais fácil”. Cuiabá das Antigas

Avenida Tenente Coronel Duarte, a Prainha, em 1971.

“Então, num primeiro momento canalizada, essa era a ideia da época e essas eram as tecnologias que entendiam que os córregos, de repente, não tinham tanta importância. E, mais tarde, tamponamento do córrego. Lembrando que muito desse tamponamento vem aí meio que para esconder os problemas de saneamento, com o lançamento quase que in natura dos resíduos, como o esgoto e tudo mais”, destacou.

Para a professora, esse foi o momento que o córrego passou a ser invisibilizado, devido as diretrizes que pregavam a configuração de um ambiente urbano mais “harmonizado”, de modo que, segundo Doriane, é o que explica o fato de muitas pessoas, atualmente, não saberem que há um córrego embaixo da Avenida Tenente Coronel Duarte. Além disso, a pesquisadora ressaltou que a obra também trouxe muitos impactos negativos na paisagem e na questão do meio ambiente. Reprodução

Doriane Azevedo, professora da UFMT.

Alagamentos frequentes

Questionada sobre os alagamentos na região durante o período de chuva , que acontecem há décadas, sendo amplamente divulgados nos meios de comunicação, Doriane explicou que, originalmente, Cuiabá era uma cidade pequena e com pouco desenvolvimento. Naquela época, haviam áreas não impermeabilizadas, ou seja, sem asfalto. Além de que os quintais dos lotes no centro do município eram repletos de árvores e plantas nativas.

Doriane apontou que, na medida que a cidade foi crescendo e a decisão de tamponar o córrego da Prainha – e diversos outros -, pressionaram e reduziram essas áreas de vegetação que eram mais permeáveis e escorriam a água das chuvas de forma mais natural, passando para o aumento no nível da água e o transbordamento da mesma devido a impermeabilização asfáltica.  

“As opções técnicas que nós escolhemos naquele momento foram as piores possíveis, se a gente considerar a médio e longo prazo, reduzindo toda essa área do canal do córrego e também reduzindo as áreas permeáveis para a infiltração da água”, explicou. “ Grosseiramente falando, o grande dificultador [para solucionar o problema] seria exatamente conseguir entender que para que isso saia do papel, de fato, a gente precisa ter ações estruturantes e conjuntas” Doriane Azevedo

Dá pra solucionar?

Quanto a possíveis medidas para solucionar o problema, a arquiteta afirmou que, tecnicamente, é possível solucionar o problema por meio da reabertura do córrego , inclusive, Doriane citou ser uma das defensoras disso, mas disse que, para que aconteça é necessário “vontade política e da sociedade”, além de um trabalho em conjunto.

“Não é simplesmente reabrir. A gente vai ter que pensar isso desde a questão ambiental, a estrutura urbana, da mobilidade, da questão de infraestrutura, de saneamento ambiental, ou seja, um conjunto de políticas que vão ter que ser pensadas de forma integrada, para que realmente alguma coisa aconteça. Então, grosseiramente falando, o grande dificultador seria exatamente conseguir entender que para que isso saia do papel, de fato, a gente precisa ter ações estruturantes e conjuntas”.

Um exemplo a ser citado é o projeto utópico do Parque Linear da Prainha, publicado em 2007, como dissertação de mestrado do geógrafo e pesquisador Geovany Jessé Alexandre da Silva, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). 

“Um projeto utópico de intervenção urbana para a cidade de Cuiabá romper paradigmas urbanos da contemporaneidade, e assim idealiza uma cidade que respeite as leis ambientais reinventando um espaço urbano para o cidadão e estabelecendo seu lazer, recreio e convívio social saudável com a natureza dentro de uma proposição sensível de sustentabilidade urbana”, diz trecho da dissertação.  Geovany Jessé Alexandre da Silva

Ilustração presente no projeto utópico, Parque Linear da Prainha.

BRT e obras polêmicas

Conforme publicado, as obras do BRT (Ônibus de Trânsito Rápido) na Capital tiveram um avanço de apenas 18%, até o presente momento, sendo que, atualmente, estão paralisadas devido à rescisão do contrato com o Consórcio Construtor BRT Cuiabá , no mês de fevereiro. 

Paralelo a isso, duas das regiões em que as obras do BRT possuem desafios são as Avenidas Tenente Coronel Duarte e XV de Novembro, em razão do canal da Prainha. Uma solução apresentada é a licitação com “fatiamento” em lotes entre várias empresas, onde cada uma será responsável por uma especialidade da obra, ao invés de concentrar toda a execução em uma empresa, como era feito com o Consórcio BRT. Além disso, discute-se a necessidade de desapropriação, para o alargamento da via. Entretanto, não há informações oficiais se haverá ou não desapropriação. 

Em dezembro de 2024, a concessionária Águas Cuiabá anunciou a primeira etapa das obras de limpeza e readequação da rede de esgoto na Avenida da Prainha, no intuito de tentar solucionar o problema dos alagamentos que acontecem na região sempre que chove. A segunda etapa da obra iniciou em março deste ano e a total finalização está prevista para dezembro. Mesmo com a paralisação das obras do BRT, a concessionária manterá o cronograma, cujo investimento está previsto em R$ 41 milhões.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

Link da Matéria – via RD News

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