Cursando doutorado na Espanha, cuiabana defende criar “refúgios climáticos”

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Arte: Rodinei Crescêncio/Rdnews

Cuiabana e pesquisadora sobre mudanças climáticas, a geógrafa Nayara Spohr está realizando um estudo sobre o impacto das mudanças climáticas no Brasil e a necessidade da adaptação urbana, com refúgios climáticos, a ser defendido como sua tese de doutorado na Universidade de Barcelona, na Espanha. Spohr tem como foco, sua experiência morando em Cuiabá, onde enfrentou o calor e que tem se agravado, devido às mudanças climáticas, batendo recordes de temperatura chegando a 43º C. Em entrevista ao a doutoranda destacou sobre a importância em levar o assunto a sério e garantiu que o Brasil possui recursos para realizar adaptações nos municípios e o que falta é a “boa vontade dos nossos dirigentes e políticos”. A geógrafa acredita que a criação de refúgios climáticos, espalhados pelos municípios, é extremamente necessária e trará condições melhores de vida a toda população – sem que os mais pobres fiquem em detrimento dos mais ricos. A pesquisadora também espera que seu estudo traga bons retornos à população mato-grossense e a todo país.

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista:

 

Primeiramente, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua pesquisa de doutorado. Qual é a temática dela?

Eu estou me dedicando a pesquisar nesse doutorado a adaptação climática urbana. Cresci em Cuiabá, então sei como é a vida na capital mato-grossense, com o calor intenso. Vi várias vezes as queimadas no Pantanal e em Chapada dos Guimarães, além de várias outras situações que aconteceram em nosso estado, em seus três biomas: Cerrado, Pantanal e a Amazônia. Então, eu sempre quis estudar alguma coisa relacionada a isso, eu sempre tive essa vontade de entender um pouco mais sobre mudanças climáticas, sempre quis contribuir nesse sentido. Então, comecei a estudar direcionada nesse sentido. 

Arquivo Pessoal/Nayara Spohr

Seu orientador é o professor Javier Martín Vide, vencedor do prêmio Nobel da Paz. Como foi esse convite? Você foi até ele para apresentar o projeto de pesquisa ou ele soube, interessou e te procurou?  Arquivo Pessoal/Nayara Spohr

 

Durante o mestrado, na Universidade de Barcelona, eu tive aulas com ele sobre mudanças climáticas. Eu gostei muito da aula dele, achei incrível, ele é muito dinâmico, humilde, é um professor, que realmente agrega muito. Então eu comecei a desenhar o meu plano, no caderno mesmo, e pensei: “Por que não?”. A gente tem o hábito de se diminuir, pensar que não vai conseguir, ou que o professor não aceitaria orientar… Mas aí meu marido me incentivou, disse pra eu ao menos conversar com ele. Um dia depois eu perguntei se poderia conversar com ele,  apresentei o meu plano, mostrei meus rabiscos no meu caderno, explicando o que eu estava planejando fazer e por que eu queria fazer aquilo e ele se interessou muito, ele falou bem assim: “Nossa, Nayara, sim, é um tema muito interessante, a gente pode sim pesquisar e trabalhar isso e eu aceito te orientar. E aí eu não acreditei, fiquei assim, chocada, muito feliz e empolgada. Foi aí que ele me passou o email dele, nós entramos em contato, eu melhorei meu projeto, escrevi melhor, enviei e assim mantivemos um contato durante esse ano, praticamente o ano inteiro.

Você é bacharela e mestra pela UFMT, em Cuiabá, e sua pesquisa está voltada à adaptação climática urbana no Brasil. O que te levou a escolher uma universidade na Espanha?

Eu escolhi a Universidade de Barcelona, que é a melhor da Espanha, pois aqui é muito calor, exatamente como fica em Cuiabá no verão, com as temperaturas lá em cima. A diferença é que aqui eles estão mais preparados. O que eles fazem? Eles criaram refúgios climáticos em toda a cidade, justamente por conta das pessoas mais carentes, essa população mais a margem, que realmente sofre, ela é a mais afetada com as mudanças climáticas, porque não vai ter condições de comprar um ar-condicionado, um ventilador mais potente, ou talvez porque a fatura da luz vai vir mais cara, então a pessoa vai acabar não usando. Então, assim, é uma questão muito delicada, porque realmente afeta a população mais pobre, afeta os adultos, idosos, de uma forma, assim, bem triste, e as crianças também, porque, por causa da saúde mais frágil. Aqui, tive o prazer de conhecer o professor Javier, comecei a conversar com ele, falei as minhas ideias e planos sobre o que eu queria estudar, pesquisar um pouco mais sobre a questão da adaptação climática urbana, indicando ao fato de que as cidades estão ficando cada vez mais quentes no Brasil e em outros países, além das enchentes, que todos nós vimos no sul do Brasil e também aqui na Espanha estão acontecendo enchentes. É um tema que está bem em voga, um tema necessário e importante de ser abordado. Então, tenho certeza que a minha pesquisa vai colaborar para a minha cidade natal e para o meu povo brasileiro.

Pensando em nossa realidade social, política e econômica, você acredita que o Brasil é capaz de colocar em prática essa adaptação climática nos municípios, de maneira realista?

Eu acredito que sim, o Brasil tem muito potencial e investimento. A despeito do que as pessoas pensam, o Brasil não é pobre, é um país muito rico. O que falta é boa vontade dos nossos dirigentes e políticos, das pessoas que estão realmente à frente disso, porque eu sei que não é todo mundo que está interessado nessa questão ambiental, não é todo mundo que acha que é importante, então tem essa barreira, essa questão de conflitos de interesses. Mas o Brasil é completamente capaz sim, de colocar em prática, de criar planos de adaptação, de adaptar as cidades, de ter cidades sustentáveis, cidades inteligentes, seja no interior do Mato Grosso, seja em São Paulo, eu sei que é completamente possível.

O Brasil possui uma grande desigualdade social, onde os mais pobres sofrem em detrimento dos ricos. Você acredita que essas pessoas, que estão à margem da sociedade, serão beneficiadas com esse tipo de adaptação climática ao mesmo tempo que a população mais favorecida?  “ Aqui é um refúgio climático, você pode vir para cá, é totalmente gratuito, é um espaço para a população vir se refrescar, fugir desse calor intenso”

Essa é uma questão que está um pouco mais além do que eu poderia te dizer tacitamente, mas assim, as ideias de projetos de leis, de políticas públicas são, teoricamente, para beneficiar a todos igualmente. Então, criar refúgios climáticos, lugares que as pessoas possam ir, que seja gratuito e que tenha água de graça, que tenha um lugar fresco, climatizado com ar-condicionado, espaço para estudar, com wi-fi, para a pessoa poder ir para lá e não ficar em casa, sofrendo com o calor. É extremamente necessário e eu acredito que vai atingir a todos horizontalmente, não é uma coisa que vai beneficiar apenas a população mais rica. Cuiabá tem shoppings e tal, mas, assim, não tem um ambiente, por exemplo, para um estudante. As bibliotecas não são tão equipadas para receber os estudantes. Às vezes as bibliotecas são tão quentes quanto em casa, não tem um espaço para quem faz home office e seria interessante ter esses espaços e que esses espaços sejam abertos para toda a população e que tenha esses avisos nas entradas: “Olha, aqui é um refúgio climático, você pode vir para cá, é totalmente gratuito, é um espaço para a população vir se refrescar, fugir desse calor intenso”, e que seja espalhado por toda a cidade, essa é uma das medidas que pode ser realizada, assim como os projetos de lei, as políticas públicas, que embora seja um nível um pouco mais demorado, e um pouco mais burocrático, visa beneficiar toda a população ao longo prazo, a ideia é nesse sentido e não apenas só quem pode pagar para ter esse benefício, para ter acesso a condições melhores de vida.

Com relação às mudanças climáticas, no Brasil e no mundo, temos um negacionismo muito grande sobre isso. Você poderia falar elencar quais são os principais agravantes que levaram às mudanças climáticas?

Os cientistas falam sobre isso há muito tempo, sobre as nossas ações, sobre a poluição, sobre vários fatores humanos que interferem na qualidade do ar, que interferem na camada de ozônio, que interferem, de forma geral, no nosso planeta que não está aguentando. Então isso, levou as mudanças climáticas que acontecem por irresponsabilidade humana, por não tomarmos ações e agirmos de uma forma diferente para mudar isso. Algo, cientificamente comprovado, que colaborou a chegar nesse ponto em que estamos, por exemplo, é o consumo de carne. Sei que é um tema delicado, mas assim, o tanto de água que eles utilizam para plantar soja, que vai alimentar o nosso mercado, é muito maior do que se eu e você deixarmos a torneira das nossas casas abertas a vida inteira. Além disso, o tanto de metano que o boi solta, né, o pum do boi, que vai para a atmosfera, é imenso, então assim, são assuntos delicados e também tem o fator da hipocrisia dos mais ricos, né, porque quando temos, por exemplo, a COP – Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – evento que discute as questões climáticas, os grandes líderes vão no seu jatinho particular que emite gases poluentes, além do desmatamento no Pantanal para ter pasto na criação de gado. Então assim, são vários fatores, não é apenas um, citei alguns mais básicos para mostrar o caminho que levou até a situação emergencial que estamos atualmente. “ Você tem que colocar os interesses das pessoas para elas queiram proteger o meio ambiente, mostrar para elas que terão um ganho financeiro, não só de vida”

Você comentou sobre as COPs e na semana passada tivemos a COP 29, que aconteceu em Baku, no Azerbaijão, e teve uma repercussão negativa, por parte de especialistas, afirmando que as propostas apresentadas são insuficientes. Enquanto pesquisadora na área, o que está faltando às nossas lideranças, para que o tema seja levado a sério e as propostas sejam realistas? 

Infelizmente, eu acho que a grande maioria das pessoas não estão preparadas para levar isso a sério de verdade neste momento, pois é uma questão muito mais financeira. Você tem que colocar os interesses das pessoas para elas queiram proteger o meio ambiente, mostrar para elas que terão um ganho financeiro, não só de vida, porque se você falar que é só para cuidar do meio ambiente, para elas viverem mais tempo, para que o mundo seja um lugar melhor, as pessoas simplesmente ignoram, fingem que não é com elas. É muito delicado eu falar que você precisa parar de comer carne hoje para você contribuir para acabar com isso, entendeu? Então, precisamos fazer uma transição energética, porque a queima de combustíveis fósseis é realmente muito prejudicial e eu não vejo as pessoas parando de usar carro, parando de andar de avião, parando de usar jatinho particular, parando de ter as comodidades e parando de comer carne. Eu bato nessa tecla da carne, não por nenhum militarismo vegano, nem por religião, é realmente porque é algo que faria a diferença e as pessoas não estão dispostas. Chega a ser até delicado conversar sobre isso com as pessoas, porque elas estão muito seguras do ponto de vista delas e não vão parar de comer carne, meus pais mesmo, se eu for conversar com eles sobre isso, eu tenho certeza que eu não vou conseguir convencê-los.

Arquivo Pessoal/Nayara Spohr

Você e seu marido, George Huxcley, estão iniciando uma empresa que, de certa forma, colocaria sua pesquisa em prática, poderia falar um pouco sobre ela?

A nossa empresa se chama EV-Y e começamos esse projeto, exatamente por conta do meu desejo de pesquisar sobre as mudanças climáticas e trazer essa mudança na vida real, não ficar só no campo das ideias. O objetivo da nossa empresa é apoiar iniciativas sustentáveis e negócios locais para não acontecer a exploração nesses lugares, como, por exemplo, o Pantanal. Os ribeirinhos não vão precisar vender peixe durante a Piracema, ou vender as terras deles para a pecuária, ou até mesmo de se deslocarem para cidades grandes e, assim, não dar continuidade à cultura local. Também como o projeto de Rede de Sementes do Xingu, em que eles reflorestam todo o Cerrado e a Amazônia e ajudam a manter viva a cultura de guardar as sementes, e vários outros tipos de projetos. Então, são investimentos, porque quando falamos sobre cuidar do meio ambiente e cuidar da natureza, fica uma coisa muito etérea. As pessoas pensam: “Ah, tá, mas e aí que eu posso fazer? Eu só vou tomar um banho menos demorado, separar o meu lixo, e aí, o que mais eu posso fazer?”. E a ideia da nossa empresa é que as pessoas possam investir o dinheiro delas em projetos ambientais, em projetos ligados com a adaptação climática, em projetos que possam melhorar a vida das pessoas e eles verem um retorno nisso. Nós estamos lançando a empresa agora, começando em 2025, que já vai começar a rodar, estamos com o projeto a todo vapor.

Enquanto pesquisadora, que pretende colocar seu estudo em prática, que recado que você deixa para a população brasileira, em especial a população mato-grossense, sobre a questão das mudanças climáticas e possíveis mudanças de comportamentos diários?

Que vocês invistam em pesquisadores, em pesquisas, em projetos que realmente têm um compromisso com a questão ambiental, que realmente têm um compromisso com o meio ambiente, com o nosso planeta, com a nossa cidade, até porque a gente vive isso no dia a dia, a gente sofre isso no dia a dia e que vocês cobrem mesmo as autoridades, que vocês peçam por mudanças e que a mudança comece por vocês, que, por exemplo, façam a segunda sem carne, que busquem outras formas de alcançar pessoas para que não entrem no negacionismo em relação às mudanças climáticas e às questões ambientais. 

Link da Matéria – via RD News

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