Crescimento com juros altos

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Na última quarta feira, O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu elevar a taxa básica de juros (Selic) de 10,50% para 10,75%. A medida de restrição monetária promoveu debates entre empresários, economistas, analistas financeiros se o ritmo de crescimento do PIB para 2024 será afetado pela decisão.

Trabalho com o cenário que a alta de juros da semana passada não reduzirá o crescimento do PIB de 2024, estimado em 3,5%. Vai jogar um pouco de água fria na fervura da atividade econômica, mas não o suficiente para interromper o processo. “ A grande desafio do Banco Central é encontrar o ponto ideal de taxa de juros que estimule o emprego, o consumo e o investimento sem causar inflação. A chamada taxa neutra de juros”

As recentes reduções dos juros permitiram boa recuperação da indústria e proporcionou aumento do investimento privado. A taxa de desemprego está em 6,8%, seu menor nível histórico. Em alguns estados, como Mato Grosso, Santa Catarina e Rondônia o desemprego está em 3%, o que caracteriza pleno emprego. A renda do trabalho cresce 4% acima da inflação. A arrecadação do governo federal apresentou crescimento real de 9% de janeiro a agosto. A quebra da safra agrícola foi menor do que se estimou inicialmente e as enchentes no Rio Grande do Sul tiveram baixo impacto na atividade econômica do país. Esse movimento de crescimento verificado nos três primeiros trimestres não pode ser interrompido de um dia para outro.

O cenário externo também vai ajudar a mitigar os efeitos restritivos do aumento dos juros na economia doméstica.  Na semana passada o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, reduziu a taxa de juros para 5%.  Na semana anterior, o Banco Central Europeu (BCE) já havia reduzido a taxa de juros na zona do Euro. Os dois movimentos vão aumentar o fluxo de capitais para o Brasil, permitindo mais investimentos e pressionando para baixo a relação dólar/real, o que favorece importações e baixa custos operacionais de vários setores que guardam relação direta com a moeda americana.

Vejo a decisão da diretoria do Banco Central de aumentar a taxa básica de juros mais como um tipo de “mea culpa” por haver acelerado a queda da mesma Selic de 13,75% para 10,50% em tempo razoavelmente curto do que uma medida urgente e necessária para conter o aumento da inflação. A mensagem implícita sugere certo açodamento do Banco Central ao reduzir a taxa de juros nas reuniões anteriores e agora precisa fazer uma correção de rumo.

As principais argumentações da autoridade monetária foram que a economia está crescendo acima do esperado, opera próximo de sua capacidade e o mercado de trabalho está muito aquecido. Na visão dos nove diretores, todos esses fatores impulsionam os preços, ameaçando afastar a inflação da meta.

É gritantemente contraditório que num país como o Brasil, cujo crescimento médio dos últimos dez anos é considerado pífio, conviveu com altas taxas de desemprego e elevada ociosidade de sua capacidade produtiva, considerar-se ameaça ao controle da inflação o aumento do emprego, da renda, do investimento e a ampliação da capacidade produtiva. Ao contrário, tais indicadores deveriam ser considerados referenciais macroeconômicos positivos. Afinal, um dos maiores objetivos estratégicos de todo país é exatamente aumentar o emprego e empregabilidade do seu capital humano, ocupar plenamente seu parque produtivo e aumentar a produtividade da economia. São as condições mais essenciais para o progresso econômico.

Segundo a mediana dos analistas do mercado financeiro, divulgado pelo Boletim Focus, do Banco Central, a inflação deve ficar em 4,35% em 2024 e 3,95% em 2025, dentro do intervalo de variação da meta de 3%. Parece pouco razoável que o BC extrapole para o ano de 2026 os efeitos de variáveis macroeconômicas que ainda serão verificadas ao longo dos próximos oito trimestres.

A teoria monetária diz que aumento da renda e do emprego estimulam o consumo de bens e produtos e, no limite, podem pressionar preços e aumentar a inflação caso o país não aumente sua capacidade produtiva. Para conter a pressão sobre a inflação, a principal ferramenta da autoridade monetária é aumentar a taxa básica de juros. Como efeito colateral, o aumento da taxa de juros encarece o crédito, reduz o consumo e derruba o crescimento econômico. A grande desafio do Banco Central é encontrar o ponto ideal de taxa de juros que estimule o emprego, o consumo e o investimento sem causar inflação. A chamada taxa neutra de juros.

Resta acompanhar os movimentos da economia real para conferir se o Banco Central não está sendo mais realista que a realidade.

Vivaldo Lopes é economista e escreve neste espaço às segundas-feiras

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