
Rodinei Crescêncio/Rdnews
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, tenente-coronel Flávio Gledson Bezerra, destaca que o governo realizará um processo seletivo para Bombeiros Temporários no estado. A nova categoria seria como funciona no exército. Os selecionados ficam na corporação por 5 anos, onde recebem todo o treinamento necessário e, em seguida, seguem a vida civil. De início, serão cerca de 500 vagas para cadastro reserva. O edital, com as regras, foi publicado nesta quinta (14). Em entrevista ao na sede do portal, o tenente-coronel também falou sobre o combate a incêndios florestais no estado, principalmente sobre as ações de prevenção. Ele acredita que a situação seria muito pior se não houvesse a atuação diária dos bombeiros. Por fim, militar também falou que não acredita em corporativismo no Corpo de Bombeiros, principalmente no julgamento das mortes dos alunos Rodrigo Claro e Lucas Peres, durante treinamentos de recrutas.
Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista
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Há algumas críticas sobre baixo efetivo de bombeiros aqui em Mato Grosso. Na sua avaliação, o número de bombeiros é suficiente?
O Corpo de Bombeiros tem recebido do Governo do Estado um grande incremento, não só de investimento, como também de pessoal, no sentido de planejamento, de inclusão de mais gente, mais pessoas. Tivemos uma inclusão recente de 100 bombeiros, mais 15 oficiais, totalizando 115 profissionais. O nosso efetivo é de cerca de 1450 bombeiros. Esse número acaba variando, porque tem algumas pessoas indo embora. O governo tem pensado em soluções. É um estado muito grande. São 142 municípios. Não é tão simples ter bombeiros em todos. Mas, o que a gente faz é multiplicar nossas ações quando há maior demanda. A exemplo dos incêndios florestais, em que a gente põe “instrumentos de resposta”, que são equipes descentralizadas em vários municípios para poder abranger mais regiões, especialmente quando há maior demanda. Quando há pouca demanda, a gente atende de uma unidade mais próxima. Então, a gente tem 25 unidades espalhadas pelo estado, essas unidades buscam atender essa região sob demanda. Quando a aumenta muito, a gente multiplica os instrumentos de resposta para dar mais resposta nesses municípios, onde há maior demanda. Temos discutido com o governo, para que nos próximos anos, possamos ganhar um incremento. A gente aprovou uma lei na Assembleia Legislativa para Bombeiro Temporário e temos um planejamento de fazer um processo seletivo para esse cargo, assim como funciona no Exército. Boa parte dos militares do Exército Brasileiro e das Forças Armadas como um todo, é de militares temporários, que permanecem na instituição por um tempo, desenvolvem seu serviço e depois seguem a vida civil. E assim a gente quer fazer com o bombeiro também. A lei já foi aprovada e num futuro bem próximo deve ter um processo seletivo para suprir essa necessidade em alguns municípios.
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E como que vai funcionar esses Bombeiros Temporários?
Eles ficariam por 5 anos dentro da instituição. Recebem uma capacitação, trabalham com militares mais antigos, militares de carreira, exatamente como é no exército. Depois dos 5 anos, eles seguem a vida de civis. A nossa ideia é absorver aqueles que estão em busca do primeiro emprego, principalmente, aqueles jovens que vem do ensino médio. Ele paga a sua faculdade e, depois, segue carreira que ele escolher no mundo civil.
Serão turmas? Quantos alunos?
Inicialmente a nossa intenção é promover um processo seletivo de 500 Bombeiros Temporários, mas isso para um cadastro reserva. E, conforme a necessidade, a gente vai chamando.
E tem alguma chance de eles terminarem permanente?
O Bombeiro Temporário é para passar um tempo dentro da instituição. No máximo de 5 anos. É assim que a legislação permite. Nós temos concursos públicos para quem quiser ser efetivado.
Pessoas de quais idades vocês esperam receber?
Estamos em análise. Nossa ideia é absorver o pessoal saindo do ensino médio, entre 18 e 25 anos. Principalmente o pessoal que faz curso específicos na área da saúde. Enfermeiros, técnicos em enfermagem. A gente tem um problema com condutores de viatura. Então, algumas capacidades específicas a gente tem intenção de absorver com o projeto do Bombeiro Temporário.
Quem se inscrever tem a garantia de que vai ser chamado?
Não, é o cadastro reserva, sob demanda e fazendo o chamamento.
Mas, o efetivo que tem hoje é suficiente? Principalmente quando temos essa época de incêndios florestais.
Eu sempre cito o exemplo dos Estados Unidos. Tem a Califórnia, que sofre com problemas de incêndio todos os anos, assim como Mato Grosso. Todos os anos eles pedem apoio. Os bombeiros de lá não conseguem suportar, mesmo sendo um estado de um país que tem o maior poderio bélico do mundo, que tem um poderio econômico muito forte e, mesmo assim, não consegue suprir. Por quê? Porque na verdade é uma questão meteorológica, uma questão natural. Você dizer que é suficiente. Nem a Califórnia, que tem problemas todos os anos é suficiente. Não é no Brasil, não é em Mato Grosso que a gente vai dizer que é suficiente. O que acontece é que a gente tem usado de muita tecnologia. Nunca foi colocado tanto dinheiro no Corpo de Bombeiros igual no governo Mauro Mendes. Foram mais de R$ 360 milhões aplicados em enfrentamento de incêndios florestais. Só esse ano R$ 74 milhões. A gente tem um grande esforço do governo para dar resposta. Usando tecnologia, usando inteligência, usando multiplicação dos recursos de maneira geral. A exemplo na temporada de incêndio quando a gente tem maior demanda, há a contratação de brigadistas. São feitas parcerias com prefeituras também para contratação de brigadistas. Tem o envolvimento da sociedade civil organizada, das entidades privadas. Tem empresas colocando seus brigadistas à disposição para também dar resposta. O que a gente faz é coordenar, organizar isso. Há um grande esforço do governo para multiplicar. A gente tem uma demanda que varia a cada ano. Então o governo tem sido inteligente, porque também não há como você contratar para sempre uma coisa que acontece eventualmente. Há que haver inteligência pra fazer esse tipo de contratação. E é isso que é que o governo tem tido.
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O senhor citou a Califórnia, que tem incêndio todos os anos e aqui também é difícil combater. O senhor tem a impressão de que vocês acabam enxugando gelo? “ Não é enxugar gelo. O que a gente faz é o que faz com que a problemática de incêndios não seja pior do que já é” Flávio Gledson
Não acho. Aqui se tem uma condição atmosférica extremamente favorável para ocorrer incêndios. É assim aqui, e é assim no mundo inteiro. Todos os países têm dificuldades para fazer enfrentamento de um problema que é natural. Claro que existe a causa humana, ou por negligência ou por imprudência, ou ação criminosa intencional. Mas, tem que estar ciente de que os incêndios ocorrem num período de estiagem muito severo, num estado que tem três biomas diferentes, num estado muito grande. Às vezes também há dificuldade para chegar. Tem vídeos que mostram o incêndio começando no meio do local onde as pessoas não chegam. Provavelmente por raio. No Pantanal Mato-Grossense, a depender do local onde o incêndio começa, não se tem nem local de pouso para lançar uma pessoa de helicóptero lá. É para você ter noção da dificuldade que é enfrentar o incêndio. Isso não é enxugar gelo. Se a gente não fizesse o trabalho que é feito aqui, eu tenho certeza que seria muito pior do que está acontecendo. Não é enxugar gelo. O que a gente faz é o que faz com que a problemática de incêndios não seja pior do que já é.
E como que é esse dia a dia de combate a incêndio? Principalmente em áreas isoladas. “ Como é um estado muito grande, nós não estamos em todos os municípios. O que a gente faz é colocar equipes espalhadas” Flávio Gledson
A gente tem uma sistemática de operação todos os anos, que o Corpo de Bombeiros divide em quatro fases. As pessoas só olham os incêndios florestais no período de estiagem. Na verdade, a gente começa a trabalhar contra o incêndio florestal quando uma temporada acaba. Agora, a gente já está nos trabalhados para combater os incêndios do ano que vem, fazendo todo a avaliação do que aconteceu esse ano, onde a gente pode melhorar, qual que é o planejamento. E a gente faz isso em quatro fases: a Prevenção, Preparação, Resposta e Responsabilização. Temos ações nessas quatro fases, que acontecem, muitas vezes, não numa sequência cronológica, mas as vezes simultaneamente. Tem ações de prevenção que ocorrem junto com a fase de resposta, que é especialmente entre julho e outubro de cada ano. Temos várias ações. São feitos termos de cooperação com prefeituras, é feita a capacitação de brigadistas. São feitas palestras de conscientização, são visitadas escolas, comunidades, vamos em assentamentos. É feito um trabalho forte na fase de prevenção. A gente se prepara fazendo todos os contratos necessários, de maquinário, locação de viatura, compra de equipamentos, treinamento de equipes, requalificação de equipes. Tudo isso é montado, para chegar na fase de resposta e multiplicar o número de recursos de resposta a incêndio em Mato Grosso. Como é um estado muito grande, nós não estamos em todos os municípios. O que a gente faz é colocar equipes espalhadas. Esse ano chegamos a ter 93 equipes espalhadas no estado inteiro. A gente está em 25 municípios e nos multiplicamos para atender mais. Multiplicamos esses instrumentos de resposta justamente para a gente poder estar capilarizado. Ou seja, acontece um princípio de incêndio e uma equipe vai estar mais próxima daquele local e consegue chegar o mais rápido possível. Esse trabalho é feito a partir de salas de Estação Central, onde é usada muita tecnologia para monitorar, georreferenciar, definir estratégias, disparar os recursos de resposta, auxiliar aquele que está na linha de frente com a estratégia, fazendo o mapeamento, mostrando para onde o fogo está indo, a dinâmica do incêndio. Essa Estação Central também interage com as salas de situação descentralizadas – que são as salas regionais, são 7. Essas salas controlam uma porção desses números de instrumentos de resposta. Cada uma tem suas equipes e cada uma interage entre elas e com as equipes. Também são instituídos postos de comando descentralizados, que é basicamente quando o incêndio atinge um nível maior, há necessidade de mais recurso. Então, esse posto de comando também recebe informações de estratégias e dinâmica de incêndio da nossa Estação Central, que provê os recursos adicionais necessários para os incêndios que demandam de recursos diferentes.
É uma forma de atuação que tem sido referenciada. Vários estados vêm ao nosso estado para ver como a gente atua, usar da nossa plataforma, entender como pode implementar em seu estado a mesma estratégia que a gente atua aqui, que tem uma grande interação com Secretaria de Meio Ambiente, Secretaria de Infraestrutura, Defesa Civil, órgãos de segurança pública como um todo, Secretaria de Segurança Pública. É uma integração de esforços e que tem sido replicada, tem sido usada como exemplo em outros estados.
Como um incêndio começa em Mato Grosso? É natural, é ação humana?
A maior parte dos incêndios tem alguma interação humana. Às vezes de forma intencional, infelizmente a gente ainda vê isso acontecer. É importante salientar que essa pessoa está cometendo um crime, até porque no período de seca é proibido o uso de fogo. Também tem aquela pessoa de área rural, que quer fazer uma limpeza de terreno. Ele varre as folhas que caem e usa o fogo pra limpar aquela área. Infelizmente, as questões atmosféricas muito severas, condição hídrica da vegetação muito baixa, umidade muito baixa na vegetação e do ar, fazem com que as folhas que estão queimando sejam levadas para uma área onde o fogo pode se propagar.
A gente tem muito disso. Também há incêndio de raio, mas em uma proporção menor. Isso acontece principalmente no Pantanal. Para evitar isso, a gente tem usado de tecnologia, geotecnologia, informação via satélite, câmeras espalhadas no estado inteiro pelo Programa Vigia Mais da Secretaria de Segurança Pública. O Estado tem investido em muitas ações pra fortalecer essas ações de fiscalização pra minimizar a ocorrência desses incêndios criminosos.
Nós também temos vistos cada vez mais incêndios em comércios, em lojas, apartamentos, principalmente aqui em Cuiabá. O que está causando?
As causas de incêndio são variadas. Temos inúmeros casos de incêndios criminosos. Há indícios de crime em um que houve aqui em Cuiabá. Também tem a questão da rede elétrica, muitas vezes defasada, que é um grande causador de incêndios, especialmente em áreas residenciais, em áreas comerciais. Isso ocasiona o aquecimento de equipamentos, ou da fiação, e a depender do contato, inicia o incêndio. Em áreas residenciais também tem muitos incêndios na cozinha, causados por esquecimento de panelas ou algum tipo de objeto que inicia um incêndio maior. O Corpo de Bombeiros tem um trabalho preventivo, principalmente em edificações, que passam por vistoria e precisam de autorização. Rodinei Crescêncio/Rdnews
Comandante do corpo de bombeiros Flávio Gledson Bezerra concede entrevista ao jornalista João Aguiar na sede do Rdnews
Para terminar, vamos falar sobre um assunto delicado, que é sobre as mortes dos dois alunos durante treinamentos no Corpo de Bombeiros. O Rodrigo Claro e, mais recentemente, o Lucas Peres. O que as mortes ensinaram para a corporação? “ Claro que sempre que isso acontece, traz um alerta para a gente, que precisa melhorar os procedimentos de segurança. O Corpo de Bombeiros já tem muita coisa escrita nesse sentido e a gente não pode negligenciar isso” Flávio Gledson
Quando você tem o treinamento de forças de segurança pública, eventualmente tem a condição de risco e, muitas vezes, a pessoa não está em sua condição física ideal. Uma das mortes não aconteceu em treinamento, apesar de ter sido noticiado isso. A pessoa saiu do treinamento, pilotou uma moto, foi até o hospital, foi atendida dentro do hospital pelo médico, não se sentiu bem. A família tinha um histórico de problema de saúde e essa pessoa veio a falecer. A segunda morte infelizmente foi. Foi uma fatalidade. Claro que sempre que isso acontece, traz um alerta para a gente, que precisa melhorar os procedimentos de segurança. O Corpo de Bombeiros já tem muita coisa escrita nesse sentido e a gente não pode negligenciar isso. Por isso, que aqueles que acabam cometendo uma negligência sobre isso são responsabilizados. A Corregedoria do Corpo de Bombeiros está com um processo demissório de quem participou, ele vai ser avaliado, vai ser julgado e, se realmente for constatado que ele teve culpa, vai ser punido conforme a legislação traz. O que a gente pode fazer agora é melhorar os nossos procedimentos, buscar promover mais segurança e julgar essas pessoas que eventualmente tenha alguma responsabilidade nesse acontecimento.
O senhor acha que tem um certo corporativismo? É o que, muitas vezes, é visto de fora. Os bombeiros se fecham, conversam entre si. “ a nossa Corregedoria tem mão pesada por conta disso. Todos os procedimentos que chegam, a gente faz questão de apurar o mais o mais forte possível” Flavio Gledson
Eu tenho certeza que não. Não é corporativismo do Corpo de Bombeiros, pelo contrário. O Corpo de Bombeiros não busca aqueles que não seguem a filosofia da instituição. Temos uma missão tão importante, que é salvar vidas e patrimônio. Com certeza não admitiríamos pessoas que tenham uma filosofia diferente dentro da instituição. E a nossa Corregedoria tem mão pesada por conta disso. Todos os procedimentos que chegam, a gente faz questão de apurar o mais o mais forte possível. Não só por conta da pessoa causadora daquele problema em si, mas principalmente para que sirva de exemplo, para que aquele fato sirva de exemplo. Eu tenho certeza que não há corporativismo, pelo contrário. A nossa instituição usa de um peso muito maior que outras instituições, até mesmo o Judiciário.
Os treinamentos estão gravados hoje?
Sim, é uma lei recente, para os treinamentos que envolve maior risco. A gente tem obedecido a lei.

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