
A direção da Escola Estadual Liceu Cuiabano, uma das instituições de ensino mais tradicionais de Mato Grosso, foi surpreendida nesta quarta-feira (26) com a notícia de que a unidade deverá ser fechada em 60 dias para passar por uma reforma. A decisão, comunicada via e-mail pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc), causou revolta entre professores, alunos e demais servidores.
O principal motivo da indignação foi a forma como a Seduc se referiu ao destino dos alunos e profissionais da escola. No comunicado, a secretaria afirmou que todos seriam “pulverizados”, termo que gerou críticas e interpretações negativas entre a comunidade escolar.
O professor de Física Waldir Montenegro expressou sua insatisfação com a comunicação da Seduc, ressaltando que a palavra usada foi desrespeitosa. “Foi essa frase que eles usaram: ‘pulverizados’. Você pulveriza inseto. A classe de professores, não. Nós começamos o ano letivo agora, iríamos apresentar os resultados do Enem, que foram super satisfatórios, e de repente o governo chega e fala em redimensionamento. Na verdade, foram até pejorosos ao falar em pulverização”, criticou o professor.
A decisão também preocupa os alunos. Com mais de 1.500 estudantes matriculados e cerca de 600 na fila de espera, muitos temem que a reforma seja um pretexto para o fechamento definitivo da unidade, como ocorreu com a Escola Estadual Nilo Póvoas.
“A gente sabe que eles querem transformar o prédio em outra coisa, provavelmente alguma secretaria ou algo da Diretoria Regional de Educação (DRE). Eu tenho medo porque essa é a escola mais perto da minha casa, tem transporte direto. Se eu for para outra escola, terei que pegar dois ônibus, e isso é complicado”, disse uma estudante que preferiu não se identificar.
Para os profissionais que trabalham no Liceu Cuiabano, a escola precisa de reformas, mas o fechamento total da unidade não seria necessário. O auxiliar de comunicação Phelipe Raphael destacou que a instituição tem problemas estruturais pontuais, que poderiam ser resolvidos sem interromper as atividades.
“Temos Olimpíadas, feira de ciências, feira gastronômica e formatura programadas. Com o fechamento, todos esses projetos serão cancelados. Isso impacta os alunos, professores e a comunidade escolar como um todo”, ressaltou Raphael.
O professor de Geografia Nusa Amorim, que atua na educação há mais de 30 anos, lembrou que já viveu situação semelhante quando lecionava no Colégio Presidente Médici. Na época, a escola passou por uma grande reforma sem interromper as aulas. “Durante praticamente três anos tivemos reformas acontecendo, mas as atividades continuaram. Houve dificuldades, claro, mas a escola não precisou fechar. O Liceu poderia passar pelo mesmo processo”, avaliou.
Patrimônio histórico ameaçado?
Fundada em 1944, a Escola Estadual Liceu Cuiabano “Maria de Arruda Muller” tem um papel fundamental na história educacional de Mato Grosso. Entre seus ex-alunos, estão figuras como os marechais Cândido Rondon e Eurico Gaspar Dutra, além dos ex-governadores Carlos Bezerra, Dante de Oliveira e Júlio Campos.
O prédio da escola foi tombado como patrimônio histórico estadual em 1985. No entanto, a comunidade escolar teme que a reforma seja apenas um pretexto para desativar a unidade e dar outro destino ao prédio, como ocorreu com outras escolas tradicionais.
“O Nilo Póvoas era uma das maiores escolas de Cuiabá e simplesmente desapareceu. O mesmo pode acontecer com o Liceu Cuiabano”, alertou o professor Nusa Amorim.
A equipe do procurou a Seduc para esclarecimentos sobre a reforma e o futuro da escola, mas ainda não obteve resposta.

Faça um comentário