
Reprodução/Facebook
Fundado em 2017, o coletivo de cinema negro Quariterê provoca seus espectadores para as questões de raça, gênero, sexualidade e políticas públicas há oito anos com a Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso, que entra em sua 8ª edição em 2025. A proposta do grupo é a realização de um “Aquilombamento Audiovisual”, tratando-se de uma luta em conjunto de pretos, pardos e indígenas. A estratégia se consolidou e, entre 2022 e 2024, foram 25 prêmios conquistados pelo coletivo. “ As nossas produções trazem um debate político permanente, sempre” Juliana Segóvia
Apesar do bom desempenho atual, o grupo nasceu por meio de uma “confusão” envolvendo a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel). À época, a pasta divulgava uma mostra de cinema negro, mas nenhum dos convidados eram adequados para falar sobre o tema e não havia representatividade entre os escolhidos para o evento. Diante disso, vários coletivos negros de Cuiabá, até mesmo de fora do eixo cinematográfico, se posicionaram contra a realização da mostra, que foi cancelada pela secretaria.
Desde então, a ideia dessa mostra de cinema foi repassada ao recém-formado Quariterê, o qual trouxe profissionais audiovisuais negros para o evento. Após a realização de sete mostras, sendo uma maior que a outra, o coletivo a mantém como o seu carro-chefe e possui projetos paralelos.
“A gente sempre pensa no protagonismo que a população negra, indígena deve ter dentro das nossas produções, ainda mais depois que definimos o aquilombamento. As nossas produções trazem um debate político permanente, sempre”, detalhou a cineasta Juliana Segóvia, membro do Quariterê.
Divulgação
As produções do coletivo são idealizadas pelos próprios membros, desde o roteiro e até a elaboração do projeto para pleitear concorrência em edital. Para os longas ou curtas, o grupo não deixa apenas a representatividade nas telonas, mas incorpora isso no backstage, com a formação de uma equipe racializada.
“Todo filme que gravamos, nós nos preocupamos muito com a equipe, para que seja uma equipe racializada, envolvendo o protagonismo de mulheres, indígenas e também alunos de cinema. Com isso, nós proporcionamos uma experiência mais aprimorada e uma outra dinâmica de produção, já que os nossos filmes possuem pautas etnopolíticas”, explicou Juliana.
Reprodução
Conquistas e futuro
Uma das produções mais recentes e premiadas foi o curta metragem “Mansos”, dirigido por Juliana Segóvia. A trama conta o apagamento da população negra da região de Manso, personificado na figura de uma líder comunitária, Teresa, e os impactos de uma usina hidrelétrica em sua comunidade. A produção já foi premiada em quatro mostras e festivais pelo Brasil.
Para este ano, a iniciativa possui projetos fora das telonas. Mantendo a organização da Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso – que ainda terá data, o Quariterê foi contemplado por editais de cultura e deve iniciar o Cineclube Encruzilhada, propondo ser uma janela de exibição de filmes com a temática negra e indígena em um processo de formação do público e ampliação do debate antirracista.
Além disso, o Quariterê foi contemplado pelo MOVE_MT, da Secel-MT, em parceria com o Instituto Ekloss e o Instituto Oi Futuro. O valor do financiamento serviu para a aquisição de equipamentos para que o coletivo não precisasse depender de produtoras. Divulgação
A cineasta Juliana Segóvia
Para Juliana, as conquistas são positivas, já que vieram “contra a corrente” de um mar de um mercado que não possui a visão racializada das produções.
“Mesmo tendo uma distribuidora, distribuindo nossos curtas, nós enfrentamos a barreira dos festivais que, em maioria e os maiores, tem suas curadorias formadas por pessoas que não tem um aspecto político crítico tão estabelecido na hora de pensar a questão racial dos filmes. Não estou falando de técnica ou qualidade de narrativa, mas de certos privilégios, contatos, relações e nomes que se repetem nos festivais”, completou.
Para acompanhar as produções do Quariterê, siga o coletivo no instagram: @quaritere
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