China, Rússia e Índia em cúpula: O desafio à hegemonia econômica dos EUA

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Rodinei Crescêncio

Nos últimos dias, chamou atenção a reunião de cúpula entre os presidentes da China, da Rússia e da Índia. O encontro não apenas reuniu três grandes potências asiáticas, mas também sinalizou uma movimentação estratégica dentro de um cenário global marcado por tensões geopolíticas e econômicas. Trata-se, em grande medida, de uma demonstração de força que envolve parte significativa do BRICS, bloco que, cada vez mais, busca se consolidar como alternativa ao domínio ocidental, em especial dos Estados Unidos.

A participação simultânea desses países não pode ser vista como um gesto isolado. Ela se insere num contexto mais amplo, em que o equilíbrio de poder mundial vem sendo questionado. Desde a criação do sistema de Bretton Woods, em 1944, os Estados Unidos assumiram a liderança da economia global. A conferência, realizada no final da Segunda Guerra Mundial, definiu arranjos institucionais e financeiros que colocaram Washington no centro das decisões econômicas. O dólar, inicialmente respaldado pelo ouro, foi consagrado como a principal moeda de referência do comércio internacional. “ A manipulação cambial, somada a políticas industriais robustas e a uma mão de obra abundante, permitiu ao país (China) crescer de forma impressionante, mesmo em face de crises globais”

Entretanto, a partir da década de 1970, com o fim da conversibilidade do dólar em ouro, a moeda americana passou a ter como “lastro” não mais o metal precioso, mas a própria força da economia dos Estados Unidos. Esse movimento reforçou a hegemonia americana: ao controlar a principal moeda global, os EUA puderam influenciar fluxos comerciais, definir custos de transações e manter um poder de barganha desproporcional em relação a outros países.

A China, contudo, seguiu um caminho distinto. Especialmente a partir dos anos 1980, o país iniciou uma trajetória de crescimento acelerado sem se submeter integralmente às regras ditadas por Washington. Uma das estratégias mais marcantes foi a manutenção da desvalorização de sua moeda frente ao dólar.

Enquanto países como o Brasil sempre se preocuparam com a alta da moeda americana, entendendo-a como sinônimo de fragilidade interna e de encarecimento de importações, Pequim seguiu uma lógica inversa. Ao manter o yuan artificialmente desvalorizado, a China garantiu enorme competitividade para suas exportações, expandindo sua presença no comércio internacional e transformando-se, em poucas décadas, na “fábrica do mundo”.

Esse modelo explica, em boa medida, o sucesso econômico chinês. A manipulação cambial, somada a políticas industriais robustas e a uma mão de obra abundante, permitiu ao país crescer de forma impressionante, mesmo em face de crises globais. Tal estratégia, muitas vezes criticada pelos Estados Unidos, acabou se tornando o motor da ascensão chinesa e um dos fatores que desafiam diretamente a hegemonia americana.

O encontro entre China, Rússia e Índia deve, portanto, ser interpretado nesse contexto. Trata-se de um recado claro de que a ordem internacional de Bretton Woods já não se sustenta sem questionamentos. As potências emergentes não apenas reivindicam espaço, mas também oferecem alternativas. O dólar segue como moeda central, mas já não é mais incontestável.

A reunião mostra que o mundo caminha para um cenário multipolar, no qual diferentes polos de poder disputam influência e espaço econômico. Para países como o Brasil, integrantes do BRICS, esse rearranjo global traz tanto riscos quanto oportunidades. O que está em jogo não é apenas a moeda que guia o comércio mundial, mas o próprio desenho do sistema econômico que organizará as próximas décadas.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

Link da Matéria – via RD News

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