
Rodinei Crescêncio
Nos últimos meses, os Estados Unidos têm atravessado um momento crítico, marcado pela repressão a protestos estudantis pró-Palestina, ataques governamentais às universidades, ações arbitrárias contra estudantes estrangeiros e, mais recentemente, pela saída de Elon Musk do governo. Esses episódios não apenas revelam uma escalada autoritária, mas também colocam em xeque a tradição democrática e pluralista do país.
A repressão violenta aos protestos em defesa da Palestina, com milhares de estudantes presos por agentes muitas vezes não identificados, é um dos sinais mais graves desse processo. Mais de 3 mil manifestantes foram detidos em dezenas de universidades, incluindo instituições centenárias como Harvard, Yale e Columbia. Para além das prisões, há relatos de perda de vistos por estudantes estrangeiros sem qualquer justificativa formal, o que amplia o clima de medo e insegurança. “ Historicamente, governos autoritários buscaram enfraquecer as universidades e movimentos estudantis como estratégia para sufocar a crítica e impor uma visão única de mundo. A universidade é, por excelência, um dos pilares da democracia”
Harvard, símbolo global do pensamento crítico e da excelência acadêmica, tornou-se alvo direto do governo, que ameaçou revogar sua autorização para receber estudantes internacionais. Essa medida, associada a acusações infundadas de apoio a movimentos extremistas ou a governos estrangeiros, revela uma tentativa de deslegitimar a universidade como espaço de contestação e debate público.
Historicamente, governos autoritários buscaram enfraquecer as universidades e movimentos estudantis como estratégia para sufocar a crítica e impor uma visão única de mundo. A universidade é, por excelência, um dos pilares da democracia: espaço de liberdade de pensamento, produção de conhecimento e formação de cidadãos críticos. Atacar as universidades significa, portanto, atacar a própria democracia. Foi assim na ditadura militar brasileira, na repressão soviética aos dissidentes intelectuais ou nas perseguições do regime de Pinochet no Chile.
Nesse contexto, a saída de Elon Musk do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) é mais do que um episódio isolado. Musk, até então considerado um dos principais aliados do governo, rompeu após críticas ao “big beautiful bill”, que uniu cortes de impostos a uma política migratória ainda mais restritiva. Sua saída representa não apenas o afastamento de um dos empresários mais influentes do país, mas um sinal claro de que até aliados estratégicos consideram as medidas do governo excessivas e prejudiciais.
Esse rompimento evidencia um processo de isolamento e radicalização do governo, que se fecha em torno de uma visão política cada vez mais extremada, intolerante às divergências e avessa ao diálogo. Tal isolamento aprofunda a crise institucional e política, e alimenta uma insegurança que ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos, afetando a estabilidade internacional e o equilíbrio geopolítico global.
Como nos ensina Michel Foucault em Vigiar e Punir, as instituições de poder se mantêm não apenas pelo uso da força, mas pelo controle dos corpos, dos saberes e dos discursos. A ofensiva contra as universidades e estudantes revela justamente esse movimento: controlar o pensamento, as narrativas e as ações sociais que possam ameaçar a ordem estabelecida.
Diante desse cenário, a defesa das universidades como espaço de resistência, crítica e liberdade torna-se não apenas uma bandeira acadêmica, mas uma causa democrática fundamental. O que está em jogo é o próprio futuro da democracia nos Estados Unidos e, por extensão, a garantia de que o saber e a liberdade não sejam sufocados pelo autoritarismo e pelo medo.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

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