
Rodinei Crescêncio/Rdnews
A insana guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã está levando economistas, analistas macroeconômicos, agentes do mercado financeiro, governos, bancos centrais, consultorias e bancos de investimentos do mundo inteiro a revisarem os cenários econômicos projetados no início do ano.
Em longa reportagem de capa em sua edição da semana passada (20) a revista britânica The Economist, a mais influente publicação de economia e negócios do mundo, ironiza a guerra chamando-a de “Fúria Cega”, uma analogia jocosa ao termo “Fúria Épica”, nome dado pelo presidente americano Donald Trump à operação bélica contra o Irã.
A reportagem mostra que os EUA entraram na guerra a reboque de Israel, sem planejamento militar e sem objetivos definidos. O que parecia ser uma invasão que terminaria em uma semana, tornou-se uma guerra sangrenta que se alastrou por todos os países do Oriente Médio e afeta as economias do mundo todo com suas nocivas repercussões econômicas e geopolíticas. “ O mundo inteiro pagará a conta de uma guerra que atende exclusivamente interesses de Israel e EUA”
A drástica redução da oferta de petróleo e gás, com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam mais de 20% de todo o consumo mundial e a destruição ou paralização de boa parte da infraestrutura de produção e refino dessas commodities, explodiram os preços, aumentando custos logísticos, de energia, de alimentos, de fertilizantes agrícolas que pressionam a inflação em todos os países, elevando o nível das incertezas econômicas.
A pressão inflacionária derivada da guerra leva bancos centrais mundo afora a manter a taxa de juros elevada interrompendo ciclos de redução, fato que vai desacelerar a atividade econômica global.
Na última quarta feira (18), o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, optou por manter a taxa de juros no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano, contrariando a trajetória de redução iniciada em reuniões anteriores recentes.
Na mesma quarta feira, o Banco Central do Brasil, decidiu reduzir apenas 0,25% a taxa básica de juros, quando havia a expectativa que a queda seria de 0,50%. Ambas as autoridades, em seus comunicados, informam que é preciso mais tempo e cautela para observar os efeitos do aumento dos preços de petróleo e gás sobre a inflação nos respectivos países.
O Brasil iniciou 2026 com expectativas que indicavam crescimento moderado, próximo de 2%, inflação de 3,5% e taxa Selic caindo de 15% para 11,75% até o final do ano. Esses indicadores estão sendo revisados diante do novo e inóspito cenário geoeconômico global.
As correias de transmissão da guerra para os preços domésticos são o câmbio apreciado e combustíveis mais caros. A forte elevação do preço do barril de petróleo impacta as cadeias mundiais de suprimentos, afetando todas as outras cadeias produtivas de logística, fertilizantes, indústria química, plásticos, plantio da próxima safra de grãos, alimentos, transporte rodoviário, passagens aéreas e transporte coletivo urbano.
O prolongamento da guerra aumenta as incertezas no cenário econômico mundial, altera o comportamento de investidores e pressiona o câmbio. O câmbio instável afeta vários arranjos produtivos cujos custos são atrelados ao dólar.
Em poucas semanas formou-se uma tempestade perfeita. O mundo viu-se diante de uma possibilidade que não aparecia no radar nem dos mais pessimistas analistas de geopolítica e economia: o possível desabastecimento mundial de petróleo, gás natural e fertilizantes agrícolas. A ponto de o presidente Donald Trump, em verdadeiro atestado de insensatez, suspender as sanções à compra de petróleo da Rússia e do próprio Irã. Algumas semanas atrás o próprio Trump ameaçou aumentar as tarifas comerciais sobre qualquer país que adquirisse petróleo da Rússia e do Irã, particularmente China, Índia e Brasil.
O governo brasileiro tem se esforçado para mitigar os danos do aumento de preços do petróleo, gás e diesel. Zerou temporariamente a cobrança dos tributos federais incidentes sobre diesel (PIS e COFINS), criou uma subvenção diretamente aos produtores e importadores de diesel e negocia com os governadores a isenção temporária de ICMS sobre importação de diesel.
As medidas demonstram rápida ação da administração federal para reduzir os impactos sobre a inflação. Mas é muito difícil garantir que a redução tributária e subvenções irão efetivamente reduzir os preços finais nas bombas. A cadeia de combustíveis é longa e muito complexa. Da refinaria ou importador até o consumidor final passa pelo distribuidor, transportador, adição de etanol, biodiesel e a etapa final que é o varejista.
Além de possíveis ações especulativas, pode haver movimentos de recomposição de margens de lucro e proteção contra as incertezas da duração dos subsídios com o prolongamento do conflito e longo tempo para reconstruir a infraestrutura de petróleo e gás do Oriente Médio.
Resumo do samba enredo: o mundo inteiro pagará a conta de uma guerra que atende exclusivamente interesses de Israel e EUA.
Vivaldo Lopes é economista e escreve neste espaço às segundas-feiras.

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