
O risco de um conflito regional generalizado no Oriente Médio estará entre os principais assuntos da Assembleia Geral da ONU, que começa nesta terça-feira (24). Com Israel, Líbano, Irã e grupos extremistas no radar, os líderes mundiais devem ressaltar a importância da paz nos discursos.
O Debate Geral da Assembleia Geral da ONU é o principal evento do encontro anual das autoridades mundiais. Neste ano, o tema da reunião é “Não deixar ninguém para trás: Agindo juntos para o avanço da paz, do desenvolvimento sustentável e da dignidade humana para as gerações presentes e futuras”.
Mike Segar/REUTERS
Esse é o primeiro Debate Geral após o início da guerra no Oriente Médio. O conflito começou no dia 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu Israel e provocou mais de 1.200 mortes — além de ter sequestrado dezenas de civis.
Veja o contexto em alguns pontos:
Desde o começo da guerra, o mundo testemunhou o conflito deixar um rastro de destruição pela Faixa de Gaza, agravando a fome e a miséria de civis no território palestino.
A ONU tentou parar o conflito por várias vezes por meio do Conselho de Segurança. No entanto, somente uma trégua temporária foi acordada no fim de 2023, com mediação de Catar e Egito.
Ao longo dos últimos meses, o Conselho de Segurança da ONU recebeu uma série de críticas pela ineficácia em conseguir um acordo para paz e estabilidade no Oriente Médio. Os Estados Unidos, por exemplo, vetaram por mais de uma vez uma resolução sobre a guerra.
Em junho deste ano, o Conselho de Segurança aprovou uma resolução prevendo um cessar-fogo na região. Entretanto, o plano ainda não saiu do papel e continua sendo negociado por Israel e Hamas.
Agora, a preocupação é a abertura de uma segunda frente na guerra, que também envolve o Líbano. O país abriga o grupo extremista Hezbollah, que se opõe a Israel e demonstrou apoio aos terroristas do Hamas na ação de outubro de 2023.
Bombardeios israelenses no Líbano mataram quase 500 pessoas, na segunda-feira (23), fazendo com que o dia fosse o mais sangrento desde 2006.
É esperado que o conflito seja explorado nos discursos da Assembleia Geral, que contará com a presença de chefes de Estado de 193 países. No entanto, outros temas como fome e mudanças climáticas estarão no radar.
O presidente Lula será o primeiro a discursar, a partir das 10h desta terça-feira. Ele será seguido do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.
Ainda para esta terça-feira estão previstos discursos dos presidentes da Argentina, El Salvador e Irã. As falas da Palestina e de Israel estão previstas para o dia 26 de setembro. É esperada a presença do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Já a autoridade do Líbano deve discursar no dia 30.
Não devem comparecer à Assembleia os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, da China, Xi Jinping, e da Venezuela, Nicolás Maduro. Eles serão substituídos pelos respectivos ministros das Relações Exteriores.
Como funciona a Assembleia Geral da ONU?
A Assembleia Geral da ONU é um encontro anual que acontece entre os principais governantes e autoridades dos 193 Estados que fazem parte da organização. Vários eventos acontecem durante a reunião — que neste ano tem nove dias de trabalhos.
O principal encontro é chamado de “Debate Geral”, que começa nesta terça-feira. Apesar do nome, não existe de fato um debate entre as nações. Cada país tem o direito de fazer um discurso para apresentar seu ponto de vista sobre o tema do encontro e a situação global.
O primeiro Debate Geral aconteceu em 1946. A edição deste ano será de número 79 e irá até o dia 30 de setembro.
A Palestina e o Vaticano são considerados Estados observadores não membros e foram convidados a participar da reunião.
Cada chefe de Estado tem o direito de discursar por 15 minutos no Debate Geral. A fala não é obrigatória, e o tempo de duração é flexível.
Ou seja, o orador que estourar os 15 minutos não será interrompido e poderá concluir a fala. Na década de 1960, por exemplo, o líder cubano Fidel Castro falou por mais de 4 horas.
O Debate Geral começa com um discurso do presidente da Assembleia Geral. Depois, começam as rodadas com as falas de governantes mundiais.
Pela tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar. Isso acontece porque, nos primeiros encontros, nenhum país se colocava à disposição para ser o primeiro a falar. A exceção era o Brasil, que interveio em várias ocasiões e passou a encabeçar a lista.
Depois do Brasil, vêm os Estados Unidos. A escolha dos norte-americanos para o segundo lugar também é uma tradição, já que o país é a sede da Assembleia Geral. O encontro acontece na sede da ONU, em Nova York.
A ordem dos demais países é definida por equilíbrio geográfico, nível de representação e compatibilidade de agenda.
De acordo com o blog do Valdo Cruz, o presidente Lula deverá focar na agenda climática.
Na “Cúpula do Futuro”, no domingo (22), o presidente já havia falado sobre mudanças climáticas e chamado a atenção para reformas dentro da ONU.
A expectativa é que Lula suba o tom no discurso do Debate Geral e alerte sobre o risco de um fracasso coletivo mundial na agenda climática.
O presidente brasileiro também deve falar sobre o combate à fome no mundo e citar o agravamento da crise na Venezuela.
Esta é a primeira Assembleia Geral desde o começo da guerra no Oriente Médio, entre Israel e Hamas.
Atualmente, existe a preocupação que o conflito se agrave e passe a envolver outros países. Essa possibilidade ganhou ainda mais força após o Hezbollah sofrer um ataque coordenado com a explosão de pagers e walkie-talkies.
Apesar de não ter assumido a autoria do ataque, Israel foi responsabilizado pela operação. Como o Hezbollah é um grupo extremista do Líbano, o país passaria a estar diretamente envolvido no conflito.
Desde outubro de 2023, a fronteira entre Israel e Líbano vive tensões. Isso porque o Hezbollah fez ataques contra o território israelense em solidariedade do Hamas. As Forças de Defesa de Israel responderam com bombardeios contra estruturas do grupo extremista.
Essa tensão na fronteira fez com que moradores israelenses da região deixassem as próprias casas. No dia 18 de setembro, após a explosão dos pagers do Hezbollah, Israel moveu tropas para área e disse que estava iniciando uma nova fase na guerra.
O governo israelense também anunciou que o retorno dos moradores para casa na região de fronteira passou a ser um objetivo de guerra. Nos dias seguintes, bombardeios israelenses contra o Líbano foram registrados.
Além disso, existe o risco de que o Irã se envolva diretamente no conflito. Recentemente, o país prometeu punir Israel pela ação envolvendo os pagers, já que o embaixador iraniano no Líbano ficou ferido na operação.
O que acontece se um país for criticado por outro?
Críticas mútuas são comuns nos discursos do Debate Geral. Caso algum Estado se sinta ofendido por algum orador, ele pode solicitar um direito de resposta.
O protocolo determina que o Estado que quiser dar uma resposta precisa apresentar a solicitação formalmente por escrito, em uma carta. O texto é repassado entre todos os membros da Assembleia.
Até dois direitos de resposta podem ser concedidos. O primeiro, tem duração de até 10 minutos, enquanto o segundo tem 5 minutos. O discurso de resposta é feito sempre ao fim do dia.
Outra prática comum é a delegação criticada se retirar do local da Assembleia em protesto. Israel e Irã costumam adotar essa medida enquanto o outro está discursando.

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