Animais envenenados ou desnutridos são os maus-tratos mais comuns, diz diretora

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Rodinei Crescêncio

Abril Laranja é o mês de conscientização contra os maus-tratos aos animais domésticos, campanha criada pela Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais (ASPCA). A diretora de Bem-Estar Animal, Nivea Rocha, afirma que o órgão recebe de 15 a 20 denúncias por dia. Em entrevista ao , a Nívea fala sobre a facilidade que as pessoas tem para abandonar os gatos, devido ao curto espaço de tempo para procriar; o costume de soltar os pets nas vias públicas com muita movimentação, que acarreta em atropelamento; além da importância do trabalho desenvolvido pelo órgão de castração para baixa renda e da feira para adoção de animais que muitas vezes são abandonados ou violentados. 

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista.

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Qual é importância do Abril Laranja e por quê existe esse mês?

Abril Laranja foi criado e surgiu nos Estados Unidos, em 2006, por uma associação americana de proteção à crueldade animal. Desde quando foi fundada, o Brasil aderiu a essa causa, porque no país tem muitas pessoas que são adeptas, que fazem essa campanha de proteção à crueldade animal. Na verdade, discutir sobre crueldade animal é importante, pois isso ocorre o ano inteiro. Mas esse mês é fundamental, porque tem um foco maior na conscientização, tanto do governo, como das instituições.

Rodinei Crescêncio

O quê a Diretoria Bem-Estar Animal tem feito? Quais são as ações neste mês em especial?

Nós tentamos fazer uma divulgação maior e falar muito sobre, principalmente na rede social, sobre os maus-tratos. Mas realizamos a nossa campanha basicamente pelo WhatsApp. Recebemos as denúncias e conversamos, explicamos como é e o porque. Até para as pessoas poderem denunciar mais. Temos recebido ultimamente um número enorme de denúncias. Esse mês de abril, praticamente, o nosso número de denúncias dobrou.

Quando recebem uma denúncia de maus-tratos, como é feito? Vocês só ficam na conversa ou vão até o local ver o que está acontecendo?

Hoje em dia recebemos a denúncia pelo WhatsApp. O denunciante manda pra nós, é tudo no anonimato, pode confiar, realmente não divulgamos quem denunciou, nem nada. Porque há muito medo das pessoas denunciarem. Às vezes, é um vizinho, é alguém que mora próximo, alguém que passa ali, e o denunciante não sabe a reação de quem foi denunciado. Então, é anônimo, ninguém vai expor o nome ou o telefone na pauta da denúncia. É gerada aqui, pegamos a foto, o local, e é indicada para a ordem pública. Eles fazem a vistoria e vão com os fiscais. 

Quando tem sinais de maus-tratos, uma de nós veterinárias ou nosso coordenador vai junto, para poder fazer a observação, se realmente tem maus-tratos ou não. Nós vamos e verificamos se realmente é maus-tratos, porque, às vezes, não é. Pode ser uma falta de orientação, as pessoas acham que estão fazendo bem e não estão. Isso acontece com correntinha curta. Às vezes, a pessoa não tem um muro na casa, mas não quer deixar o animal ir para rua, com o risco de alguém pegar, ser atropelado, alguém bater, então os donos deixam em casa.

Nesse caso, as pessoas muitas vezes não sabem que a corrente curta gera maus-tratos?

Na cabeça deles, não é. Vamos até o local orientamos e conversamos, pra que daqui uns 20 dias, já estar com uma corrente grande ou colocaram um cercadinho para o animal não ir para rua. Porque entendemos que, hoje em dia, a situação financeira das pessoas é muito curta também. Então, não tem como fazer algo de imediato, mas pode fazer algo que possa melhorar a condição do animal. É simplesmente orientação.

Rodinei Crescêncio

Qual é a realidade do trabalho aqui em Cuiabá? Tem muitas denúncias de maus-tratos?

Muitas denúncias de maus-tratos e de abandono também. Tem gente que pega o animal, passa a semana inteira, o animal fica sem água e sem comida. Ainda bem que tem os vizinhos para darem comida e água. O animal fica morrendo por falta de alimento. Muitas pessoas não têm paciência, se o cachorro chora, batem nos animais. Tem gente que além de espancar o animal, ainda põe o animal na rua, em lugares que são de vias públicas de alta velocidade, onde sabe que o animal vai sofrer um acidente. Denúncias recebemos em torno, mais ou menos, de umas 15 a 20 por dia. De maus-tratos físicos temos recebido muito pouco. A não ser esses dias atrás, que teve um caso de envenenamento, onde os cachorros estavam num lugar, acredito que jogaram veneno, e ali morreu uns seis filhotes, e a mãe também, todos envenenados. O que é muito mais raro, geralmente, isso acontece muito com gato. As pessoas não têm muita paciência com gato. Existe a falta de orientação, acham que gato sempre transmite um monte de doença, e a população de gato multiplica muito mais rápido que a do cachorro, o cio é a cada três meses. Por isso tem muito envenenamento.

Como havia dito, muitas pessoas batem nos animais, porque não tem paciência, ou coloca uma coleira curta. Isso, na sua visão, é uma falta de conscientização da sociedade, ou é crueldade mesmo?

Isso chama-se falta de empatia. Hoje em dia, o mundo está muito sem empatia. Não tem senciência, que é a falta empatia ao próximo [esse é um conceito usado para avaliar e mensurar a qualidade de vida dos pets, incluindo a sua saúde e felicidade]. Esses maus-tratos que estão gerando, eu acho que é uma falta de orientação maior para a população, e um pouco de falta de empatia também. Você tem que saber que aquele cachorro não está naquela situação porque ele quer.

Rodinei Crescêncio

Ele está ali pedindo comida porque foi abandonado, porque achou um abrigo e está achando alimento. Hoje em dia existem os tutores comunitários ou os responsáveis comunitários. Só que se você, na sua casa, ou na frente da sua casa, aparece três, quatro cachorros de rua, e começa alimentá-los, você se torna responsável comunitário por ele. Você faz um abrigo para ele, ali você dá comidinha e água, então, o animal sabe que ali ele vai ter comida e vai ter água. Ele está conseguindo comida, e recebendo um pouquinho de conforto. As pessoas têm que entender isso, não é que ele está lá na frente da sua casa, ele quer sujar a sua casa, fazer um cocô, um xixi, ou então brigar com os cachorros. O animal não tem uma opção de espaço melhor para ficar.

O que a população pode fazer quando aparecer outros animais na própria casa, além dos que já tem?

O mais indicado é castrar. Porque os gatos procriam muito rápido. A cada três meses, o gato entra no cio, eles são 60 dias de gestação. Entrou no cio, dois meses de gestação, pariu, é mais um mês amamentando. Termina de amamentar está no cio de novo, cruza e já está em um novo ciclo. Vamos colocar uma média de cinco gatinhos, se tem uma gata cruzando na sua casa, depois com o gatinho do vizinho, daqui a três meses, está cinco gatinhos. Esses gatinhos, daqui seis, sete meses, já estão cruzando de novo, se tem três fêmeas, já vão ser para 15 gatinhos. Então daqui a pouquinho, a população que era de dois gatos, daqui um ano, já está com 20.

E quais as opções quando a pessoa não pode pagar pela castração, que não é barata?

O nosso projeto de castração aqui é para pessoas de baixa renda ou então para protetores cadastrados. As clínicas estão em processo de para licitação ainda, não começou, mas vai começar. Sempre houve esse projeto de castração no Bem-estar.

Rodinei Crescêncio

Como a pessoa pode procurar essa inciativa?

Entrando em contato pelo WhatsApp e via e-mail. A pessoa vai mandar um vídeo do animalzinho, todos os documentos do proprietário, e verificar se encaixa no projeto. Encaixando no projeto, mandamos a guia por e-mail. Se não der assim, tem que vir buscar a guia, mas normalmente nós mandamos de forma remota. Porque facilita, às vezes a pessoa mora no bairro Pedra 90, tem uma clínica nossa que é cadastrada lá, então fica mais fácil pra pessoa do que vir aqui, pegar uma guia e voltar lá. Enviando a guia por e-mail para a clínica, o nome, documento, comprovando que é ela, vai fazer a cirurgia do seu animalzinho. É de graça para a população baixa renda.

O abandono de pets é muito recorrente? A atual gestão tem feito várias campanhas de doação de animais?

O nosso canil está com lotação máxima. Estamos conseguindo receber muitos animais. Porque fazemos várias campanhas de doação, passamos de cinco feiras de adoção, tinha muitos filhotes aqui, porém já foram. Mas acontece o seguinte: os filhotes estavam com suas mães, mesmo que adotados, as mães ficaram, então precisamos agora fazer uma doação dos animais de grande porte. Estamos com 94 cachorros e 11 gatos, é bastante animal.  

Rodinei Crescêncio

De que forma a Diretoria de Bem-Estar Animal tem o controle de saber se a pessoa não vai abandonar o animal e vai cuidar bem?

Nós fazemos uma entrevista na hora da adoção, rápida, mas é feita, com alguns questionamentos. Quando fazemos a feira de adoção, já divulgamos no site da Prefeitura, então, muita gente já vai com o propósito de adotar. Tem gente que diz assim: olha, meu cachorrinho morreu, tem três meses. Questionamos novamente: Morreu do quê? Se responde que foi do nada, alegando que não tinha diarreia ou vômito. já sabemos que esse animal contaminou o ambiente. Explicamos para o tutor que primeiro tem que descontaminar o ambiente, pois se colocar outro, pode ser que ele morra do mesmo jeitinho. Ou então, pega um animalzinho que esteja todas as vacinas em dias, para poder levar no seu ambiente, mas tem que descontaminar o local. Fazemos uma orientação e acompanhamento o pós também. Pegamos o animal, doamos o animal, e durante um ano mandamos mensagem. Pedimos para mandar um vídeo do animalzinho, como que está, para saber. Geralmente cuidam bem.

Já teve caso de algum tipo de maus-tratos, que tiveram que pegar o animal de volta?

Não, mas teve um caso de um senhor que devolveu. Porque o cachorro comeu a casa dele inteira. Ele era um filhote. Era um senhor muito tranquilo e educado. Mas como o cachorro era filhote, destruiu a roda do carro, comeu o para-choque, os sapatos, tudo que via pela frente, parecia ser uma “dragazinha”. O senhor falou assim: eu quero ficar, mas eu não tenho condições. Ele ficou traumatizado, mandou uma mensagem, orientamos e pedimos para trazer de volta, porque vimos que ele não iria dar conta. Quando tivermos um maior, que seja mais calmo, mais tranquilo, ele poderia adotar, mas ele queria muito um filhote. Então ficou sem.

 Aqui no Brasil temos a lei contra os maus-tratos, quando a pessoa é punida, podendo pegar de 2 a 5 anos de reclusão. O que você acha sobre essa lei? Essa reclusão é pouca?

Eu acho que tinha que ter uma multa maior em valores, porque tem gente que só sente quando dói no bolso. As penas, dependendo do caso, tinham que ser aumentadas. E dependendo do caso, a crueldade do animal tinha que ser maior. Porque tem casos que são muitos graves. Então, eu acho que talvez esses 2 anos seriam muito pouco, poderia ser muito mais.

O contato para fazer denúncias de maus-tratos e abandono de animais na Diretoria de Bem-Estar é o (65) 99207-4318 (WhatsApp) e o disque denuncia, que é o 0800-647-7755.

Link da Matéria – via RD News

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