
Parecer técnico psiquiátrico e psicológico apontou que Nataly Helena Martins Pereira, presa por matar Emelly Azevedo Sena, 16, e remover o bebê de seu ventre, apresentava sintomas psicóticos graves, incluindo alucinações auditivas, ideação suicida e perda de contato com a realidade, no período relacionado ao crime. O laudo é de dezembro passado, mas só foi divulgado na íntegra nesta quinta-feira (26). O documento foi juntado ao processo, que tramita na Justiça.
O documento, assinado por Hewdy Lobo Ribeiro, psiquiatra forense, Elise Karam Trindade, psicóloga jurídica e neuropsicóloga, e pela psicóloga Gabriela Cristina Favero, tem como objetivo avaliar a capacidade mental da acusada no momento do fato e a possibilidade de instauração de incidente de insanidade mental. A equipe que emitiu o laudo foi contratada pela defesa.
Nataly é acusada de homicídio qualificado, parto suposto e ocultação de cadáver. A defesa é patrocinada pelos advogados André Luís Melo Fort e Ícaro Vione de Paulo. Ao , Melo afirmou que o documento já foi apresentado à Justiça. “Foi juntado e reafirmado a insanidade da cliente. Reforça a necessidade de instauração do incidente de insanidade mental e a necessidade de uma perícia médica oficial pelo judiciário”, disse.
Segundo o laudo, a mulher relatou ter sofrido um aborto espontâneo por volta de 32 semanas de gestação, ocorrido em fevereiro de 2025, episódio que teria desencadeado intenso sofrimento emocional e agravamento do estado mental. Ela afirmou ter visto o feto formado e relatou que ele teria sido descartado no vaso sanitário, situação que, conforme o parecer, provocou forte sentimento de culpa e autoacusação.
Após o episódio, a acusada passou a apresentar sintomas compatíveis com quadro depressivo grave e possível estado puerperal complicado, incluindo ideação suicida recorrente e alucinações auditivas. Segundo o relatório, a mulher afirmou ouvir vozes que diziam que ela precisava morrer para encontrar a filha.
O documento também aponta que a investigada relatou episódios de automutilação, além de persistência de produção láctea mesmo após a perda gestacional, situação que intensificava o sofrimento emocional ligado à maternidade.
Psicose e perda de contato com a realidade
Os peritos destacaram que os elementos psicóticos identificados incluem delírios, alucinações auditivas, desorganização do pensamento e ideias de cunho religioso e messiânico. O laudo afirma que tais sintomas indicam perda parcial ou total do contato com a realidade.
Ainda de acordo com o parecer, há incoerência entre a trajetória de vida da acusada e o perfil do crime imputado, o que, segundo os especialistas, reforça a necessidade de investigação aprofundada sobre sua capacidade mental no momento dos fatos.
Histórico de tratamento e uso de medicamentos
Documentos médicos analisados apontam que, durante o período em que esteve presa, a mulher apresentou comportamento confuso, ansiedade, dificuldade para dormir e medo de represálias contra familiares.
Relatórios também indicam que a acusada relatou uso de maconha, cocaína, cigarro e bebidas alcoólicas antes da prisão, além de sintomas como tremores, sudorese e necessidade de acompanhamento psicológico.
Em consultas médicas, foi registrado que a paciente chorava com frequência, relatava dores intensas, dizia ouvir vozes e manifestava vontade de se matar, sendo diagnosticada com psicose não orgânica não especificada, conforme classificação médica CID-10.
Histórico familiar e traumas
Durante entrevistas com familiares, o pai da acusada relatou que ela apresentava comportamento considerado difícil desde a infância e que, na adolescência, teria sido vítima de abuso sexual cometido por um tio, situação que teria impactado profundamente sua saúde mental.
Segundo o relato, a mulher também enfrentou relacionamentos conturbados e episódios anteriores de aborto, com agravamento progressivo do quadro psicológico ao longo dos anos.
Risco elevado de suicídio
O parecer técnico concluiu ainda que o encarceramento potencializa o risco de suicídio, classificando a acusada como altamente vulnerável, diante do histórico de transtornos mentais, ideação suicida e sofrimento psíquico intenso.
Diante dos elementos apresentados, a equipe multidisciplinar recomendou avaliação aprofundada da saúde mental da acusada, com possibilidade de instauração de incidente de insanidade mental para análise da imputabilidade penal.
O caso
Emelly saiu de casa no final da manhã de quarta-feira, 12 de março de 2025, no bairro Eldorado, em Várzea Grande, e avisou a família que estava indo para Cuiabá buscar doações de roupas na residência de um casal.
Durante a noite, uma mulher apareceu em um hospital com um bebê recém-nascido, alegando que era seu filho e que havia dado à luz em casa.
Após exames, a médica de plantão confirmou que a mulher sequer esteve grávida. Os profissionais observaram que a criança estava limpa e sem sangramento. Além disso, exames ginecológicos e de sangue demonstraram que ela não havia passado por um parto recentemente. A mulher também não tinha leite para amamentar a bebê.
A trama começou a ser desvendada já na manhã seguinte, 13 de março. Com o corpo encontrado, a perícia foi acionada e quatro pessoas foram detidas, entre elas o casal que chegou ao hospital.
No decorrer do dia, a DHPP prendeu em flagrante Nataly Helen Martins Pereira, 25, que atacou Emelly, retirou a filha dela da barriga e enterrou a adolescente no quintal. Os demais foram liberados após entendimento de que não participaram do crime.

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