Abilio cita bombas herdadas, diz que burocracia tira o sono, mas vê avanços

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Passados mais de seis meses como prefeito de Cuiabá, o ex-vereador e ex-deputado federal, Abilio Brunini (PL), expôs ao as dificuldades encontradas ao herdar o município que era comandado por seu adversário político, Emanuel Pinheiro (MDB), nos últimos 8 anos. Estreante no Poder Executivo, Abilio têm lutado pelo equilíbrio fiscal, pela política de austeridade e contra a burocracia que existe no Poder Público. Mesmo em meio aos entraves que surgem no dia-a-dia da administração, o liberal ressalta avanços na Saúde, um dos principais gargalos da Capital mato-grossense, como o “esvaziamento” das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs); e a aplicação de investimentos na Educação. Durante a entrevista, o prefeito também reconhece que não deve criar a Guarda Municipal, devido o alto custo. Além disso, durante visita à sede do , Abilio falou sobre as dificuldades enfrentadas para repactuar contratos, que segundo ele, teriam sido amarrados na gestão anterior, provocando “prejuízos” ao município. Por fim, destacou a relação harmoniosa que têm tentado construir com a Câmara de Cuiabá, visitando o Parlamento durantes as sessões ordinárias, onde vê a atuação da base e os ataques da oposição, que segundo ele, acabam sendo naturais, ainda mais por saber como é ser pedra e agora, na posição de vidraça, mas de vidro temperado – resistente às investidas.

Confira, abaixo , os  principais trechos da entrevista:

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Prefeito, passado pouco mais de seis meses de gestão, se o senhor tivesse que escolher um avanço, qual o senhor acredita que seja o principal? 

Se eu tivesse que escolher uma área que a gente avançou, e eu tô muito satisfeito de a gente ter avançado, foi a qualidade do material escolar que a gente está entregando para as crianças. Entregar o café da manhã pra todas as crianças na escola, principalmente porque a gente entende que o café da manhã, assim que a criança chega na escola, melhora o desempenho dela nas duas primeiras horas, porque antes ela não tinha esse café da manhã e o desempenho dela ficou comprometido, porque a maioria dessas crianças não tinha uma alimentação no dia anterior, na noite anterior, e ficava até o horário das 09h sem merenda escolar, sem uma alimentação, sem um nutriente que pudesse dar o desempenho melhor pras duas primeiras horas do dia. Então isso me alegra bastante. A gente ter conseguido colocar o transporte público gratuito aos domingos, isso também me alegra muito. A gente ter conseguido reduzir a fila na UPA e ter conseguido colocar um atendimento com demanda espontânea na unidade básica de saúde e algumas mudanças de comportamento na área da saúde me alegram bastante e eu fico feliz com alguns resultados que a gente teve em seis meses de gestão. Talvez o resultado que eu mais vou gostar é o Centro Médico Infantil, que a gente deve entregar agora nos próximos dias. Esse deve ser o resultado que vai mais me alegrar, porque eu consigo ver um atendimento voltado e especializado para a criança, que é uma coisa que mexe muito comigo, então eu tenho uma atenção diferenciada a isso. 

Rodinei Crescêncio/Rdnews

O que mais angustia hoje o prefeito Abilio? Aquilo que mais tira o sono, que o senhor deita e pensa: Eu preciso melhorar. São muitos problemas, mas qual incomoda mais? “ A lentidão do processo na máquina pública, isso é o que mais me tira o sono” Abilio Brunini

A lentidão do processo na máquina pública, isso é o que mais me tira o sono. Porque a gente toma decisões, acelera para essas decisões ser tomadas e elas não saem. Entenda bem, eu alterei a legislação que facilita a aprovação de projetos de arquitetura e engenharia na construção civil na prefeitura. Só que ela ainda não está numa velocidade que seria o mínimo considerável bom. E, por mais que a gente simplifique a legislação, existe um rito, uma burocracia, de que as coisas têm que passar num conselho, tem que passar numa outra coisa, tem que fazer uma audiência pública sobre o tema. Que seis meses, por exemplo, você não consegue resolver. A saúde também é uma coisa que me incomoda muito, porque é a minha principal bandeira. E você percebe que ela não avançou tanto no sentido geral. Nós conseguimos esvaziar a recepção da UPA, mas a parte interna da UPA está cheia. Nós temos a sala de enfermaria cheia, a sala de internação cheia e isso se dá porque não tem leitos o suficiente na rede hospitalar. A gente tem muita dificuldade financeira dentro da saúde e muita dívida, muita coisa para resolver. Isso tira muito o sono. São muitas pessoas técnicas trabalhando, só que muita burocracia junto a essas pessoas técnicas, elas ainda não conseguem destravar um processo. E, às vezes, eu tenho que ficar fazendo inúmeras e inúmeras reuniões para tentar solucionar coisas que eu enxergo de forma fácil de solucionar. 

O Abilio deputado federal ficou chocado com o tamanho da burocracia quando viu o Abilio prefeito?

Eu estou tentando derrubar essa burocracia, mas é uma questão que a gente [tem dificuldades]. A maior dificuldade que tem, às vezes, não é a lei. A lei não é o grande entrave. São as pessoas com dificuldade de interpretar a lei e isso acaba gerando um grande entrave. E, às vezes, os resultados não saem na hora que a gente quer. Eu acredito que a gente evoluiu 15% a 20% dentro da saúde, só que isso é insuficiente. A minha meta é que, no próximo semestre, a gente consiga ter os resultados melhores. Só que, realmente, é uma das pastas mais complexas.

A prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, quando esteve aqui no ,  disse que o orçamento é tão pequeno que ela nã tem “nem cobertor”. Em Cuiabá, como está essa situação hoje? Há queda muito abrupta de arrecadação do ISS?

A nossa receita não é nem um grande problema, porque nós temos uma receita compatível com a previsão orçamentária dessa receita. Às vezes, dá uma queda de arrecadação no ISS, pela dificuldade financeira que as pessoas estão tendo, principalmente por causa da situação que está o país hoje. A pessoa, por exemplo, ela deixa de ir no médico. Então, ela não vai pagar o ISS para aquele médico, que é a prestação de serviço. A pessoa deixa de pagar o plano de saúde e ela está usando mais o SUS, mais a UPA, porque o orçamento dela já não está conseguindo mais ser compatível. A pessoa deixa de ir num salão. Se ela ia uma vez a cada duas semanas, ou uma vez por semana, ela já não vai, ela vai mudando o ciclo, e isso vai diminuir na arrecadação do ISS. Há uma perda proporcional à economia do Brasil em relação ao ISS, mas o nosso maior problema é a despesa. Porque, ao tempo que a pessoa deixa de usar o plano de saúde, por exemplo, ela começa a usar mais a UPA. Então, além de eu perder a arrecadação do ISS da rede privada da saúde, eu começo a ter mais despesas na saúde pública, que às vezes não estavam previstas. E, além disso, se eu recebesse a cidade com um orçamento para usar no ano de 2025, compatível com as necessidades e despesas do ano de 2025, estava tudo certo. Só que eu recebi a prefeitura com R$ 2,5 bilhões de dívida e R$ 1,15 bilhão de dívida a curto prazo ainda, que são dívidas que eu tenho que resolver. E em seis meses a gente já pagou mais de R$ 300 milhões só de dívida. 

Dá para dizer que a arrecadação à casa ainda está longe disso?  “ Dá para dizer que a gente saiu do decreto de calamidade, mas não saiu do estado de atenção quanto à questão financeira” Abilio Brunini

Vai um ano, um ano e pouco. Dá para dizer que a gente saiu do decreto de calamidade, mas não saiu do estado de atenção quanto à questão financeira. A gente tem cortado muito, conseguimos cortar R$ 400 milhões em seis meses, mas R$ 300 milhões foi em pagamento de dívida. Se não, ia parar. Direto, vocês devem ter visto a matéria: ‘Ah, vai parar as ambulâncias, vai parar o fornecimento de medicamento’. Vai parar porque a pessoa que estava prestando esse serviço não recebia desde agosto de 2024. Então, direto tem essas surpresas. 

Ficou muita bomba armada? 

O pior não é só muita bomba armada. Sabe quando você espera que tenham algumas bombas, mas não tantas? Isso interfere muito. A gente está lá, tocando, a gente está tranquilo lá, e de repente, do nada, aparece um processo que resultou de vários anos na gestão do ex-prefeito [Emanuel] e o juiz determinou que a gente vai ter que pagar R$ 100 milhões para um cara que ganhou um processo contra a gestão passada. Aí você olha o processo e diz, parece que a prefeitura não queria ganhar o processo. E o cara ganhou um processo de R$ 100 milhões. Nós não temos orçamento para pagar R$ 100 milhões. Aí a gente lida com situações, por exemplo, essa de 1/3 de férias [da educação], sobre o recesso de 15 dias no meio do ano. E o Emanuel não pagou nenhuma vez. Não pagou em 2020, não pagou em 2021, não pagou em 2022, 2023, 2024. E agora nós temos que pagar o retroativo, que vai dar praticamente uns R$ 30 milhões, mais o [valor] do próprio ano.  São, assim, em R$ 30 milhões que dão para a gente comprar a Santa Casa, por exemplo. Nós estamos pedindo aí R$ 25 milhões, R$ 30 milhões pra alguém para conseguir salvar a Santa Casa e, além de não conseguir [o dinheiro], ainda vai se jogar R$ 30 milhões para pagar retroativo de um terço de férias, de 15 dias do servidor, que o Emanuel nunca pagou.  Rodinei Crescêncio/Rdnews

Jornalista Patrícia Sanches entrevista prefeito por Cuiabá Abilio Brunini

Durante a campanha o senhor bateu duro na questão do transporte público. É um tema que o senhor ainda pretende mexer ou, nas negociações com as empresas, isso avançou? Qual que é a sua percepção sobre esse cenário? 

Outra bomba armada também. Foi feita uma decisão judicial, junto com o Tribunal de Contas, que fez a gente reconhecer R$ 35 milhões de dívidas das empresas de transporte público. Isso não tá na LOA, não tava na previsão orçamentária e a gente vai ter que pagar, nesse ano, R$ 35 milhões de dívida com o transporte público. Na LOA, prevê R$ 120 milhões para as gratuidades e o subsídio do transporte público. Mas, o valor total é R$ 210  milhões,o tem R$ 100 milhões aí que também não está previsto para a situação do transporte público. E entenda o seguinte, o orçamento é como se fosse gavetinhas. De tal recurso vai para essa gaveta, tal recurso para essa, tal recurso para essa aqui. O orçamento não tem uma lacuna em aberto falando assim: essa gaveta tá vazia, põe esses R$ 100 milhões lá dentro dessa gaveta. Não tem. Eu vou ter que arrancar de outra área. Qual é a área que a gente vai arrancar? A gente vai arrancar da Saúde? Da educação? Da infraestrutura urbana? Vai arrancar das obras? E isso acaba impactando muito porque nós temos 80% do orçamento da prefeitura em 5 pastas essenciais que não dá para você mexer (Saúde, Educação, Assistência Social, Gestão e Infrastrutura).

Mas, a concessão é algo que o senhor pretende atacar ou, no diálogo com as empresas, o senhor acredita que é possível resolver?  “ As cláusulas do transporte público chegaram a ser tão favoráveis às empresas que hoje o custo da passagem, de uma passagem, uma única passagem, é R$ 11,60” Abilio Brunini

São duas situações delicadas. Foram contratos muito bem amarrados na gestão anterior, a do transporte público e a da CS Mobi, por exemplo, que é uma outra que eu estou tendo um grande problema com ela. Mas, eles elaboraram de tal forma o contrato, que parecia que a prefeitura estava advogando para a empresa e as cláusulas são muito mais favoráveis à empresa do que para a própria prefeitura. E para o rompimento, os custos são muito elevados. Para romper o contrato da CS Mobi, vai custar R$ 140 milhões. A gente tem esse valor? Não. E qual é a contrapartida da empresa? Não vale. Eu chego a pensar que vale a pena pagar os R$ 140 milhões do que ficar uma divida ad aeternum R$ 2 milhões, por mês, durante 30 anos. Só que agora a gente está tão endividado que eu não consigo recusar esse contrato agora, com essa dívida, com tudo isso. Não dá para chegar do nada e fazer isso. Estou guardando a CPI, que está na Câmara para mostrar mais situações, como, por exemplo, o procurador que tinha dado parecer contrário, depois apareceu um parecer favorável. O fiscal de contrato que não sabia que era fiscal e uma série de circunstâncias que vão acontecer. E a do transporte público é semelhante. Por exemplo, as cláusulas do transporte público chegaram a ser tão favoráveis às empresas que hoje o custo da passagem, de uma passagem, uma única passagem, é R$ 11,60. Aquele valor que a pessoa recebe de R$ 4,95 que ela paga lá, ela é subsidiada. Na verdade, o usuário paga R$ 4,95 e a prefeitura paga a diferença naquele cartão que está pagando. O vale do transporte, que o empregador paga, ele só paga a parte dos R$ 4,95 e a prefeitura subsidia ainda a outra parte do transporte público. Numa conta muito difícil, muito ruim. E a gente precisa melhorar o sistema do transporte público.

Qual o impacto?

Em um ano dá R$ 210 milhões. O estudante ir para a escola e voltar da escola, ele vai gastar mais ou menos R$ 23. Ás vezes estámais barato ir de uber né!  Uber passa lá, pega duas, três crianças e leva para a escola e ia ratear o custo. ia ser mais barato do que pagar R$ 23 por criança. Mas, é o que acontece na gestão pública.

Prefeito, em relação à criação da Guarda Municipal, é algo que não vai sair do papel? 

A Guarda Municipal, eu acredito que ficou muito inviabilizada. Mas a vigilância patrimonial do município já passa a ter mais vantagem. Qual a diferença dessas duas coisas? O Supremo Tribunal Federal interpretou que a guarda municipal pode ser reconhecida como polícia municipal. Aí depois veio uma segunda decisão que ele só falou que não precisa ser o nome polícia. Que pode ser mantido o nome Guarda Municipal, mas a carreira é equivalente à carreira da polícia. Permitindo porte-arma, permitindo a instrução, permitindo tudo. Quando você cria uma situação de equivalência, tipo a guarda e a polícia serem a mesma coisa, você passa algumas responsabilidades. Como, por exemplo, se eu for montar uma guarda municipal, eu vou ter que fazer toda a instrução da Polícia Militar,  vou ter que comprar o equipamento, a proteção, as mesmas condições, a viatura da polícia militar. Então o cara vai ter que ter um colete, o cara vai ter que ter instrução de tiro, ele vai ter um porte de arma, ele vai estar equipado com aquele material, ele vai ter farda igual da polícia militar e, naturalmente, ele vai querer um salário equivalente. O começo é você equiparar. Depois começam as manifestações, querendo o mesmo salário, querendo as mesmas condições. E hoje, o salário de entrada de um policial militar na polícia militar no estado de Mato Grosso está na casa de R$ 7 mil. Olha o tanto de custo que eu vou ter. O custo de quase R$ 7 mil por servidor. Quanto que vai custar o equipamento, o armamento, o treinamento, a capacitação, o veículo, a personalização? Vai custar um valor muito alto para a gente contratar, por exemplo, de começo, 200 guardas municipais. A atividade delegada, que é o serviço que a gente tem no município, paga em torno de quase R$  40  a hora por policial que já vem treinado, fardado, já vem com tudo pronto e a gente mais investe nos veículos, que inclusive pode comprar esse veículo ou alugar esses veículos por adesão de ata do que o Estado faz. O custo para nós, da Guarda Municipal ser uma atividade da Polícia Militar em atividade delegada, ele cai para 60% da despesa.

O que seria essa vigilância patrimonial?

A vigilância patrimonial é mais ou menos o que seria a guarda municipal, só que numa escala a menos. Reconhecendo a atividade de vigilância patrimonial, eu não tenho que ter toda a estrutura de uma Polícia Militar. Mas o que a guarda municipal, em tese, deveria fazer? Ela deveria fazer a vigilância patrimonial dos bens, municípios e tudo mais. Porque a segurança pública, pelo meu entendimento e pela Constituição, é dever do Estado. A segurança pública que o município faz é a segurança pública complementar. Melhoria da iluminação pública, a guarda patrimonial dos seus bens, um monitoramento na poluição sonora, um monitoramento nas atividades dentro das áreas públicas do município. A vigilância patrimonial vem mais nisso. 

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Você vai fazer um concurso, então? 

Nós já temos em torno de mil, vigilantes dentro do município. Vigilantes na saúde, vigilantes na educação. O que nós estamos fazendo é uma padronização entre todos esses vigilantes. A formação, e é o que a Coronel Franciani, Secretária de Segurança Pública do município, está fazendo, é a padronização desses vigilantes, um treinamento em comum desses vigilantes e permitir que eles sejam lotados dentro das suas unidades, competentes no concurso dos quais eles fizeram, mas também com o treinamento padronizado, respondendo, inclusive, a mesma ordem de comando. Todo vigilante vai estar recebendo a ordem da secretária responsável. Às vezes, terceirizar o monitoramento do serviço de parque é mais barato do que você contratar diretamente. Parque, Morro da Luz, Parque das Águas e outros lugares. Em outros casos, por exemplo, como rede escolar ou rede de saúde, é mais barato você ter o vigilante patrimônio do próprio município, porque aí você tem uma manutenção daquele espaço, que é a rotina daquele lugar. Cada caso é um caso. 

Prefeito, como deputado federal, você já era uma boa pedra. Como vidraça, já deu pra acostumar? 

Eu sempre fui vidraça também. Ao mesmo tempo que eu era uma boa pedra, eu sempre fui vidraça. Como vereador, eu fui muito atacado. A imprensa, o prefeito anterior, os vereadores desse prefeito, eles me atacavam muito. Inclusive, eu cheguei a ser cassado na Câmara Municipal pelos confrontos que tive. Ao mesmo tempo que eu batia, eu apanhava muito. Eu acredito que eu não estou acostumado é em ser elogiado. Hoje se eu vejo uma matéria positiva, eu falo: nossa, até que enfim. Quando a gente foi para o enfrentamento com o governo federal, como deputado federal, as cargas de ataque aumentaram. E eles têm uma organização de ataque, de destruição de reputações muito bem organizada, bem estruturada. Uma vez, numa CPI, eu estava falando que tinha três processos, fiz um sinal de três processos e vou lá saber que sinal que existe não sei o que de gesto de fascista. Então, eles começaram a espalhar no Brasil inteiro que eu era fascista, que eu tinha feito um gesto fascista, não sei o que. Um professor do Universidade Federal falou que eu era nazista, que eu era não sei o que. Eles espalharam destruição moral no Brasil inteiro. E até eu explicar que eu tinha mostrado o número três, de forma um pouco diferente do que o pessoal fala o número três. Eles já tinham apanhado, não tinha explicação.

Mas e do ponto de vista administrativo? Antes o senhor apontava, por exemplo, a fila da UPA. Hoje, apontam a sua fila na UPA. É uma posição diferente.  “ Como prefeito, eu apanho ainda menos do que eu apanhava como deputado. É uma vidraça, mas de vidro temperado” Abilio Brunini

Hoje, como prefeito, eu apanho ainda menos do que eu apanhava como deputado. É uma vidraça, mas de vidro temperado. Ele aguenta um pouco mais de pancadas. Porque como vereador, como deputado, eu fui pedra, mas eu apanhei muito. Então, ao mesmo tempo que a gente conseguia bater, a gente apanhava muito. Como prefeito, eu vejo alguns vereadores batendo na gente, mas tudo dentro de um espectro de naturalidade, dentro de base e oposição. Se a gente arrumar uma rua inteira e esquecer de podar a folha da árvore, a oposição vai lá mostrar a folha da árvore, não vai mostrar a rua que a gente arrumou. A gente já está meio que acostumado com isso. A única diferença é que a população já está vendo o nosso trabalho através das nossas redes sociais. E a gente já apostou muito no começo da minha carreira política, principalmente, na comunicação direta através das redes sociais. Não precisando de um intermediador. Eu não preciso da contratação de um líder comunitário para que espalhe no grupo do WhatsApp aquilo que eu estou fazendo. É muito comum na classe política, eles contratam líderes comunitários para ficar espalhando notícias favoráveis a eles. Eu vou na minha própria rede social. Eu faço a comunicação direta com o cidadão, com o eleitor, mostrando a minha parte, a minha opinião sobre os fatos. E, muitas das vezes, sai uma matéria distorcida, ou sai algum comentário distorcido, ou a publicação de um agente político distorcido, o eleitor ele vem na minha rede buscar o meu lado da história. E aí, ele faz o contraponto e vê qual está mais correto. 

O senhor tem ido muito à Câmara. Que nota daria para a sua relação com os vereadores? E essa proximidade, o senhor pretende manter nos 4 anos ou é mais nessa fase inicial quando há muito perrengue para resolver? 

Hoje eu vejo muito distinta de tudo que eu já vi na política. Eu nunca vi um prefeito ir na Câmara com tanta frequência. Também nunca vi um governador na Assembleia e nunca vi um presidente [da República] ir no Congresso com tanta frequência. A maioria das vezes, quando isso acontecia, era porque alguém estava convidando, sendo convocado ou era uma sessão solene. Hoje, eu vou quase toda terça e quinta. Eu tiro praticamente duas horas do meu dia para isso. Eu chego lá mais ou menos 10h e fico até mais ou menos às 12h ou fim da sessão para sair para almoçar com alguns deles. Isso tem sido muito bom porque eu consigo interagir com eles de situações que, às vezes, dentro do gabinete você não consegue interagir porque você está sempre com muita agenda corrida, você tem 5 ou 10 minutos para atender porque já vem outra pessoa na fila que está aguardando e tal.  “ O vereador, por exemplo, de oposição, ele vai lá no plenário, rufa o pau em mim, xinga eu de tudo quanto é nome. Aí ele passa a porta e entra na sala do bastidor e ele vem me cumprimentar e tem uma troca” Abilio Brunini

E lá você tem uma informalidade conversando com eles ali nos bastidores e vai sabendo das críticas: ‘Ah, o vereador falou de tal, reclamou que assim está um problema no bairro tal, está um problema na saúde, está um problema na unidade tal1’. Esse feedback a gente tem conversando com eles ali nos bastidores. E tem uma coisa que é engraçada. O vereador, por exemplo, de oposição, vai lá no plenário, rufa o pau em mim, xinga eu de tudo quanto é nome. Aí ele passa a porta e entra na sala do bastidor e ele vem me cumprimentar, fala comigo. Eu digo: pô, pega leve comigo. E, tem uma troca. Às vezes eu até penso que esse cara da oposição tem duas personalidades. Ele vai lá, briga, sai e está me cumprimentando com muita tranquilidade. E você percebe que, até o vereador de oposição, ele começa a ter uma certa dificuldade, quando a gente está mais presente. Por exemplo, tem um vereador que direto está me atacando, ele briga comigo no plenário, me ataca e coisa e tal. E lá no bairro ele está falando, estamos aqui asfaltando o bairro, estamos aqui fazendo um tapa-buraco, estamos aqui fazendo um serviço, essa rua estava ruim, agora a gente está patrolando, está resolvendo e tudo mais. Só que o serviço que a gente está fazendo. Então, ao mesmo tempo que ele vai para o plenário roubar o pau, ele vai no bairro comemorar o serviço que a prefeitura está fazendo. E ele tenta comunicar na rede dele como se fosse ele fazendo. Só que o vereador não faz asfalto, o vereador não tapa-buraco, o vereador não limpa a rua. Aí, às vezes, para não me elogiar diretamente, porque tem aquela birrinha de ser da oposição, ele fala: ‘Eu quero agradecer ao secretário fulano de tal”. Só que, quem escolheu o secretário fui eu, pô. E quem passa as definições do que o secretário deve fazer, sou eu: Ah,  o Abilio é um mau prefeito, mas ele escolheu o ótimo secretário. Como? Se a gente monta um time e o time ganha o campeonato, você não tem como falar que o treinador é um mau treinador. Você tem que reconhecer o processo. 

A relação está então nota 10?

Eu acho que a relação, ela é ela é, como dizer, um multiverso de relações. Da porta para o plenário, existe um mundo paralelo, é como se eles entrassem no mundo de Nárnia e da porta para o lado de cá, eles voltam para a realidade e reconhecem uma relação natural. 

Link da Matéria – via RD News

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