
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, divulgada pelo IBGE em março de 2026, ouviu estudantes brasileiros de 13 a 17 anos e traz indicadores sobre melancolia acentuada, tristeza, nervosismo, sensação de que ninguém se importa e perda da vontade de viver. Em Arthur Schopenhauer, a melancolia e a depressão não é apenas um estado de espírito passageiro; elas nascem da percepção profunda de que a vida é marcada por desejo, frustração e sofrimento. Em Schopenhauer, o sujeito percebe que a vida não se organiza em torno de plenitude, mas de carência. O querer humano nunca descansa: deseja, sofre; conquista, entedia-se; recomeça, angustia-se. A melancolia não é fraqueza moral, mas lucidez diante de uma existência atravessada pela insatisfação.
O ser humano é lançado ao mundo carregado de desejos que nunca se completam: quando falta, sofre; quando alcança, descobre o vazio; quando repousa, encontra o tédio. Há, nessa visão, uma espécie de desencantamento radical da vida. Por isso, a existência oscila entre dor e vazio. Os dados mais recentes do IBGE revelam que aquilo que, em linguagem mais sensível, poderia ser chamado de melancolia juvenil não é mero traço individual, mas sintoma de um mal-estar social mais amplo. A PeNSE 2024 mostra que 28,9% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram sentir tristeza na maior parte do tempo ou sempre, 26,1% relataram sentir que ninguém se importa com eles e 18,5% afirmaram que a vida não vale a pena ser vivida, com índices muito mais elevados entre as meninas. “ A vida na modernidade líquida é marcada pela incerteza e dificuldade de se construir projetos mais duradouros”
O que Zygmunt Bauman disse foi que a vida na modernidade líquida é marcada pela incerteza e dificuldade de se construir projetos mais duradouros. O jovem, em Bauman desencanta com a vida e com a sociedade, que prometeu liberdade e escolha, ao tempo em que entrega ansiedade e precariedade. A juventude permeada por inseguranças afetivas, pressões cotidianas e fragilização dos vínculos, num cenário em que a experiência de crescer já não se associa apenas à promessa de futuro, mas também ao peso da solidão, da ansiedade e do desencanto. A melancolia, nesse sentido, deixa de ser apenas um estado da alma para se tornar um retrato social de uma geração que sente, de forma precoce, o desgaste emocional de seu tempo.
Os dados reais são estes: Entre os meninos, 19,0%; entre as meninas, 33,3%. 18,5% afirmaram sentir que “a vida não vale a pena ser vivida” na maioria das vezes ou sempre. Entre os meninos, 12,0%; entre as meninas, 25,0%. Na rede pública, o percentual foi 19,4%, acima da rede privada, com 13,9%. 49,7% disseram sentir-se muito preocupados com as coisas comuns do dia a dia. Entre os meninos, 38,3%; entre as meninas, 61,0%. O próprio IBGE conclui que, embora os indicadores de 2024 tenham surgido melhores que os de 2019 em parte dos quesitos, isso não significa que os adolescentes brasileiros estejam bem de saúde mental, e destaca que os resultados são piores entre as meninas.
Os jovens entraram na vida adulta sem bases sólidas, encontraram experiências fragmentadas, projetos curtos, descontínuos e a sensação de que política não vale o tempo nem o cansaço.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com

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