
Conheci um Oscar no meu primeiro estágio. Era o senhor que cuidava da limpeza. Eu me referia a ele como “seu Oscar”, ele nem gostava muito. Mas é que quando eu dizia Oscar, assim sem o senhor, soava meio como “Ó os cara!”. E ele era tão digno, respeitável, não combinava. Nem pra ser “olha os caras”. Eu tinha vergonha. Muitos anos depois, trabalhei com um Omar. Nessa época, era eu a mais velha, Omar era estagiário. Tinha uma dificuldade enorme de chamar o menino pelo nome. Era como se eu tivesse falando num tom de poeta barato “Ó, mar!”. Virou Omarinho em dois tempos. Tadinho. Um nome tão bonito. E agora pensando, me veio a imagem de um cavalo marinho com a cara de Omar. Ó, mar.
Quando eu era pequena, tive uma amiga sobre quem já falei aqui mil vezes, cujo pai chamava-se Jacinto. Mesma coisa. Pior que o sobrenome era Pinto. Ficava péssimo. Ninguém se referia ao homem com o nome completo dentro da casa dele, que era onde nos encontrávamos quando eu ia visitar, almoçar ou passar a noite. Mesmo assim eu ficava calada o tempo todinho. Já pensasse me distrair no café da manhã “Jacinto Pinto, me passa a torrada?”. Olhava pra cara do pai da menina e sentia uma culpa horrorosa. Chamava ele de tio.
Minha primeira analisanda do dia começou a sessão dizendo estar cansada dessa segunda camada de pensamento que não nos larga. Exemplificou: “Agora mesmo, Rô, tô interessada aqui na sessão, levando a sério o que você diz, o que eu digo, mas essas cartelas de remédio aí na tua mesinha de canto vazando no enquadramento do vídeo tão me matando. Eu quero perguntar se tu tá doente e se sim de quê, se é contagioso. É que veja, eu tenho aquela viagem semana que vem e não posso pegar nem gripe, sabe? Quando for assim, não é melhor desmarcar a terapia?”. Isso porque ela está no Maranhão e eu aqui em São Paulo, a gente fazendo sessão online.
A segunda camada de pensamento. Se fosse só uma segunda, tava ótimo. A gente lida com várias camadas de pensamento o tempo todo. É como se fosse uma carne mal preparada cheia de nervurinha a ser mastigada, mastigada, mastigada. Uma hora doi a mandíbula. Oscar, Omar e Jacinto, seguem aqui ocupando espaço. Ontem assistindo ao pedacinho que consegui do Oscar, lembrei de seu Oscar: ó os cara!
Parte dessas nervurinha é diálogo interno, a gente numa conversa com a gente mesmo e pode sair cada conversa boa danada. Mas parte é sobreposição de atenção que funciona como quase tudo: excesso que causa o mesmo efeito da falta. Sei não resolver. Mas se a gente pelo menos tentar reconhecer as muitas camadas, pedir licença a elas e voltar para um ponto de concentração pode ser que o dia termine menos cansativo. Agora de manhã tentei e já sinto que sim. Ai, desculpa, não aguentei. Boa semana, queridos.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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