Documentário de estudante mostra ‘fila do ossinho’ anos após repercussão nacional

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Antes mesmo do sol nascer em Cuiabá, dezenas de pessoas já se reúnem em uma fila silenciosa em busca de um alimento simples: ossos bovinos. A cena, que se repete duas vezes por semana há quase duas décadas, inspirou a estudante de jornalismo Sandy Mio a transformar essa realidade em tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

O documentário, produzido como grande reportagem experimental, busca mostrar a história por trás da chamada “fila do ossinho”, onde moradores da região do CPA aguardam a distribuição gratuita de cerca de um quilo do alimento por pessoa. Para muitas famílias, essa é uma das poucas garantias de alguma “proteína” no prato no decorrer da semana. Os ossos ainda carregam um pouco de carne, que se tornam sopas, caldos, agregam ao feijão e são cozidos com algum outro ingrediente.

A ideia surgiu da própria rotina da estudante. Moradora da região, Sandy passava frequentemente pelo local quando seguia para o trabalho ou para a faculdade. As filas longas, formadas ainda de madrugada, despertaram um questionamento.

“Eu sempre via aquelas filas enormes e pensava que muita gente nem sabia que isso ainda acontece. Quando a gente conversa com as pessoas, muitos acham que foi algo que surgiu só na pandemia. Mas não. Isso acontece há muitos anos”, conta.

 

Durante os anos de pandemia de covid-19, a filha do ossinho ganhou notoriedade nacional. O desemprego e a crise vivida naquele tempo tornaram a espera mais numerosa pelo donativo.

Um retrato além das estatísticas Sandy Mio

 

O trabalho busca ir além dos números e apresentar histórias humanas por trás da escassez de comida. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada três lares da região metropolitana de Cuiabá enfrenta algum nível de insegurança alimentar, quando não há acesso regular ou suficiente à alimentação.

O cenário contrasta com a força econômica de Mato Grosso. O estado é o maior produtor de grãos do Brasil e uma das maiores potências agrícolas do mundo, com produção anual que ultrapassa 90 milhões de toneladas. 

Para Sandy, esse contraste foi um dos principais pontos que motivaram a produção do documentário.

“A ideia não era criticar o agronegócio, mas mostrar essa contradição. Como um estado tão rico em produção ainda tem tantas pessoas passando fome?”, aponta.

Desafios para registrar a realidade
Gravado ao longo de cerca de dois meses, o documentário foi produzido de forma independente pela estudante, com apoio apenas da mãe nas gravações. A ausência de equipe e o curto prazo acadêmico foram alguns dos desafios enfrentados durante o processo.

Outro obstáculo foi conquistar a confiança das pessoas que frequentam a fila. Muitas delas não aceitaram aparecer diante das câmeras.

“Foi muito difícil conversar com algumas pessoas. Muitas têm vergonha de serem identificadas, de mostrar que estão ali por causa da insegurança alimentar”, relata.

Por esse motivo, grande parte das imagens prioriza planos gerais da fila e evita a identificação direta dos participantes.

Histórias de simplicidade e gratidão Sandy Mio

 

Durante as entrevistas, a estudante também visitou algumas casas de pessoas que dependem da distribuição do alimento. Segundo ela, o contato direto revelou realidades difíceis, mas também momentos de humanidade e gratidão.

Uma das cenas mais marcantes do documentário mostra uma das entrevistadas celebrando a chegada do alimento.

“Tem uma parte em que uma senhora mostra o ossobuco e fala toda feliz: ‘Olha o ossobuco da fila do ossinho’. Foi uma cena muito bonita, porque mostra como algo simples pode representar tanto para alguém”, conta.

Segundo relatos das próprias pessoas que aguardam na fila, a distribuição acontece às segundas e quintas-feiras, e cada um recebe aproximadamente um quilo do alimento.

Em dias de maior movimento, a estudante estima que mais de 150 pessoas recebam o donativo. A fila costuma ser dividida entre homens e mulheres, e grande parte dos que procuram a ajuda é formada por idosos.

Para Sandy, um dos principais objetivos do trabalho foi provocar reflexão sobre uma realidade que muitas vezes passa despercebida.

“A gente vive numa bolha. Muitas pessoas nem imaginam que isso acontece até hoje. Eu queria que as pessoas conhecessem essa realidade”, afirma.

A estudante também relembra uma experiência pessoal que influenciou sua visão sobre o tema. Durante uma ação de doação de alimentos a pessoas em situação de rua, um homem a agradeceu dizendo que aquela seria a única refeição do dia.

“Ele passou quase meia hora me agradecendo. Aquilo me marcou muito. Foi quando eu pensei que as pessoas precisam conhecer essas histórias”, relembra.

Ao lançar luz sobre uma fila que se forma ainda no escuro das madrugadas cuiabanas, o documentário cumpre justamente esse papel: lembrar que, por trás dos números da produção agrícola e do crescimento econômico, ainda existem histórias de quem luta diariamente para garantir a próxima refeição.

 

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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