Olhar feminino no cinema nacional e busca por espaço na direção de filmes

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Apesar de serem maioria em áreas como exibição e distribuição, as mulheres ainda ocupam uma parcela pequena na direção de produções audiovisuais no Brasil. Dados recentes revelados pela ONU Mulheres Brasil indicam que apenas 17% dos filmes e séries brasileiros são dirigidos por elas. O cenário se repete no recorte estadual, mas vem apresentando mudanças sutis.

 

O cenário evidencia uma desigualdade histórica nos cargos de maior poder criativo. Entre 1970 e 2018, por exemplo, apenas 4,2% dos 513 filmes nacionais mais assistidos foram dirigidos ou codirigidos por mulheres, uma realidade que vem mudando ao longo das décadas.

 

Mesmo diante desse contexto, cineastas de diferentes gerações seguem ampliando espaços e trazendo novas perspectivas para as telas. Em entrevistas, diretoras que atuam em Cuiabá relatam trajetórias marcadas por paixão pelo cinema, desafios no mercado e a importância da diversidade de olhares nas produções.

 

Marithe Azevedo

Com 50 anos de trajetória no audiovisual, a cineasta Marithe Azevedo, nascida em Alfenas (MG), representa uma geração que encontrou mais barreiras para dirigir filmes.

 

Ela conta que o interesse pelo cinema começou ainda na infância, quando o pai projetava filmes mudos para vizinhos em sessões improvisadas na rua.

 

“Meu pai tinha um projetor e aos domingos exibia filmes na rua. A tela era um lençol branco esticado na parede do vizinho. Os moradores levavam cadeiras e aquilo se tornou um momento muito especial”, relembra.

 

Na juventude, Marithe frequentou cineclubes e assistiu a clássicos do cinema mundial. Mais tarde iniciou estudos de cinema na Universidade de Brasília (UNB), mas o curso foi interrompido durante a ditadura militar. Ela então seguiu na área de comunicação e passou a atuar no cinema em diferentes funções.

  Acervo Pessoal

 

 

Seu primeiro trabalho em longa-metragem foi na produção “A Força de Xangô”, dirigida por Iberê Cavalcanti, filmada em Salvador em 1975. Depois disso, trabalhou durante anos no Rio de Janeiro em diversas áreas do audiovisual.

 

Entre suas produções estão documentários e curtas como Memórias Clandestinas, Licor de Pequi, As Cores que Habitamos e Uterus Mundus. Recentemente, aos 76 anos, dirigiu o longa de ficção “Religare”, gravado em Cuiabá, com atuação de Letícia Sabatella e Dona Domingas, figura história cuiabana.

 

Para a cineasta, ampliar a presença feminina no cinema é essencial para transformar a forma como as histórias são contadas.

 

“Sou de uma geração de mulheres que tiveram poucas oportunidades de realizar seus próprios filmes. Mas aos poucos as mulheres estão ocupando espaço, conquistando voz e trazendo novas formas de olhar para o mundo”, avalia.

 

Ela também acredita que a estrutura de produção ainda carrega traços de um modelo patriarcal que precisa ser repensado.

 

Dica de Filme: Marithê indica “Das tripas coração” de Ana Carolina.

 

Bia Lobo

A diretora Bia Lobo, 31, nascida no Rio de Janeiro, atua há mais de uma década no audiovisual e iniciou recentemente sua trajetória na direção de cinema após trabalhar em diversas funções de produção.

 

Segundo ela, o contato com filmes sempre fez parte da vida familiar e ajudou a moldar sua visão de mundo.

 

“Os filmes sempre foram parte da rotina da minha casa. Eles me ajudaram a compreender o mundo, a trocar ideias com amigos e familiares e até a atravessar momentos difíceis”, relata.

 

Para Bia, ampliar a presença feminina nas equipes vai além de uma questão numérica.

 

“Pensar em equidade de gênero não é apenas sobre quantas mulheres estão no set, mas sobre diversidade de perspectivas. Durante muito tempo as histórias foram pensadas por um grupo muito específico. Quando ampliamos esses espaços, surgem novas narrativas e novos olhares”, argumenta.

  Acervo Pessoal

 

Ela também destaca que experiências de vida influenciam diretamente a forma como as histórias são construídas.

 

Entre os trabalhos que marcaram sua trajetória estão projetos em que atuou como assistente de direção e continuísta. A diretora cita com carinho os filmes em que colaborou com cineastas estreantes, experiências que, segundo ela, foram leves e gratificantes.

Dica de filme: Bia indica ” A que horas ela volta”, de Anna Muylaert

 

Ângela Coradini

Natural de Cruz Alta (RS), a roteirista e diretora Ângela Coradini, 40, começou a trabalhar com cinema há cerca de uma década, após ajudar amigos na produção de um curta-metragem independente.

 

“Eu já gostava de escrever, fotografar e estudar ambientes. Um dia resolvi ajudar alguns amigos que estavam fazendo um curta sem verba e nunca mais parei”, conta.

 

Entre seus trabalhos estão curtas-metragens como O Conto da Perda, O Rosto do Mascarado, Pardal e Asa Delta. Ela também assina o roteiro da série “Entre Longes”, exibida na TV Brasil, e atualmente finaliza dois novos projetos: o documentário O Rio que me Beija e o longa de ficção Pardais.

 

Para Ângela, a presença feminina na produção audiovisual amplia a visão de mundo apresentada nas telas.

 

“A presença das mulheres no cinema não é apenas representatividade. Quando as mulheres ocupam espaços de criação e decisão, as histórias deixam de ser apenas sobre nós e passam a ser contadas por nós”, pontua. Acervo Pessoal

 

 

Entre suas produções, ela destaca o longa “Pardais”, atualmente em fase de pós-produção, como um projeto especialmente significativo em sua carreira.

 

Dica de filme: Ângela também indica “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert.

 

Mudança gradual

Apesar dos desafios históricos e estruturais, especialistas e profissionais do setor apontam para uma mudança no cinema nacional, com mais mulheres assumindo funções de direção, roteiro e produção.

 

A presença feminina no audiovisual, defendem as cineastas, não apenas amplia a representatividade, mas também contribui para que novas histórias, experiências e perspectivas cheguem ao público.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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