
A banda australiana AC/DC fez um retorno histórico e triunfal a São Paulo, nesta terça-feira (24), após 16 anos. A primeira de três noites no Estádio MorumBIS foi executada com uma maestria que só uma das maiores — e melhores — bandas de rock poderia alcançar.
O show começou pontualmente, às 21h, com uma viagem rumo ao estádio. O vídeo de abertura mostrava um Dodge Polara 1971 vermelho cruzando ruas e placas de São Paulo, passando por um “Boteco da Rosie”, até chegar ao backstage do local.
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Ao fim do filme, os integrantes surgiram no palco abrindo a apresentação com os acordes de If You Want Blood (You’ve Got It). Pelas duas horas e quinze minutos seguintes, alguns dos maiores clássicos da história do rock foram revisitados.
A setlist do show teve 21 músicas, incluindo sucessos como Back in Black, Thunderstruck, Highway to Hell, Shoot to Thrill e You Shook Me All Night Long.
A plateia ensurdecedora não deixou dúvidas sobre o tamanho e a importância do legado do grupo. Formado em 1973 pelos irmãos escoceses Angus Young e Malcolm Young — este último na banda até 2014 e falecido em 2017 —, o AC/DC já passou por diversas formações.
Mas, desde sua primeira fase com o vocalista Bon Scott (morto em 1980), entrega o som atemporal pelo qual ficou conhecido. Hoje, o vocalista Brian Johnson e o guitarrista Angus Young são o rosto da banda.
Brian surge com sua boina característica, enquanto Angus veste a clássica roupinha schoolboy. Mantendo a mesma estética há décadas, a dupla ativa um senso de nostalgia e identificação que catalisa a fissura do público ao longo desses mais de 50 anos de estrada.
No palco, os dois seguem verdadeiros showmen. Com 78 e 70 anos, respectivamente, Brian e Angus comandam a plateia com perfeição.
À la Freddie Mercury, Brian arriscou um improviso e guiou o público durante High Voltage — interação que resultou no melhor elogio possível: “São Paulo, vocês são os melhores!”, declarou o vocalista.
Mas foi Angus quem protagonizou as peripécias mais aguardadas. O estádio vinha abaixo toda vez que o escocês executava sua versão da “Duck Walk” (ou “dança do pato”), criada por Chuck Berry.
Em Sin City, o cofundador elevou ainda mais o jogo ao tocar guitarra com a própria gravata.
O trio que acompanha os protagonistas também não decepciona. O som fica completo com Stevie Young na guitarra base —substituindo o tio Malcolm da melhor forma que pode —, Chris Chaney (ex-Jane’s Addiction) no baixo e Matt Laug na bateria. Mesmo entrando na banda anos depois da sua criação, mantêm vivo o swing característico do grupo.
A noite que começou com a abertura da banda norte-americana The Pretty Reckless — comandada por Taylor Momsen, famosa por papéis em “Gossip Girl“ e “O Grinch” — foi coroada da melhor forma possível no bis.
T.N.T. levou a plateia à loucura, e For Those About to Rock (We Salute You) — exatamente a que todos esperavam — foi a cereja do bolo.
Shows assim são o melhor antídoto contra o argumento de que artistas precisam se aposentar quando a voz “já não é mais a mesma de 30 anos atrás”. Cada fase da banda importa e carrega qualidades próprias. E quem realmente sabe apreciar música entende isso.
Ao redor, era comum ouvir fãs hipnotizados constatando: “E tudo isso com 70 anos”, ou “Eles estão melhores que a gente!”.
O AC/DC pode até carregar décadas na bagagem, mas no palco o tempo não pesa. Porque quando os amplificadores ligam e o riff entra, o que fala mais alto é o rock — e esse nunca envelhece.

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