
Mais de 13 mil mulheres aguardam na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso para realizar mamografia, exame fundamental para a detecção precoce do câncer de mama. Na Central de Regulação de Cuiabá constam 9.606 pacientes aguardando o atendimento e na Central de Regulação do Estado são mais 3.832, totalizando 13.438. Mesmo mutirões, que visam aliviar as filas, enfrentam problemas para diminuir a espera das pacientes, como a Carreta da Saúde da Mulher, que está em Várzea Grande atendendo a baixada cuiabana. Há dias o mamógrafo da unidade móvel está quebrado e o defeito interrompeu os atendimentos agendados.
Para zerar a fila de espera pela mamografia em Cuiabá, que está sempre com novos pedidos registrados, o município
levaria aproximadamente seis meses, caso mantenha a produção média de mamografias por mês realizadas em 2025. Atualmente com 9.606 pedidos ativos, sendo 8.541 da Capital e 1.065 pedidos de pacientes de outros municípios, Cuiabá realizou, em média, 1.604 mamografias por mês no ano passado, totalizando aproximadamente 19.428 exames.
Sobre a presença do programa das Carretas da Saúde, o município esclareceu que Várzea Grande se colocou à disposição o local de instalação da estrutura e, por isso, a unidade móvel está na cidade vizinha para atender a região da
baixada cuiabana. Após o período inicial de 30 dias de funcionamento, Cuiabá poderá solicitar o aditamento para que a carreta seja direcionada à Capital, porém afirma que o pedido dependerá de critérios, como a alta demanda pelos atendimentos e o baixo índice de absenteísmo durante o período.
ANGÚSTIA E DESAFIOS
Isabel Rocha, associada ao MT Mama, explica que diariamente pacientes oncológicas relatam as angústias e os desafios enfrentados para realizar os exames necessários. Exames específicos, como cintilografia, tomografia, ultrassom e ressonância magnética da mama estão ainda mais difíceis de agendar.
“Você vai marcar e eles falam que tem que marcar mais próximo da consulta. Chega próximo da consulta, as vagas acabaram. Eles liberam 20 vagas, mas tem 300 pacientes. Quem chega primeiro, faz. Na hora do desespero, você vai para a consulta, acaba pagando particular e tem paciente se endividando. O que tem de valor e rápido para vender, eles vendem, como TV, ventilador, ar-condicionado”.
Para Isabel, as dificuldades no atendimento oncológico começam desde o acesso aos exames e seguem até o tratamento da doença via SUS.
“Começa no diagnóstico precoce. Muitas mulheres têm relatado que estão esperando ultrassom e mamografia há dois anos. Mutirão não pode ser só em outubro, nós não temos câncer só em outubro. Tem que ter mais campanhas durante o ano para rastreio. Na hora do tratamento, tem que fazer cintilografia para iniciar a quimio. A minha demorou seis meses pelo SUS. Eu fiz no particular, iniciei a quimio e quando a médica pediu a segunda cintilografia, saiu a regulação para a primeira. Se eu tivesse esperado, teria atrasado em seis meses meu tratamento. É um exame que custa meio salário mínimo. Quem ganha um salário, vai pagar como?”, desabafa.
DOIS ‘BRASIS’
Médico da rede privada e pública de saúde, o mastologista Luis Fernando Barros afirma que existem dois “Brasis” completamente diferentes. No particular, o câncer é diagnosticado em estágios mais precoces. Na rede pública, muitos estão nas fases mais avançadas da doença, com tumores que poderiam ter sido diagnosticados anteriormente. Entre as razões para essa diferença estão a dificuldade de acesso aos profissionais especialistas e a realização de exames em épocas inoportunas ou com espaço de tempo muito grande entre um e outro.
“O diagnóstico precoce se dá através da mamografia e as chances de cura são muito maiores. Retardando a mamografia, não pode fazer o diagnóstico precoce. A gente faz um diagnóstico mais avançado e traz inúmeros efeitos colaterais. Um câncer mais avançado requer um tratamento mais agressivo, tanto do ponto de vista cirúrgico, como medicamentoso. Maior oneração para o sistema público ou privado de saúde e maior risco de morte do paciente”.
O mastologista explica que a mamografia é indicada anualmente para mulheres a partir dos 40 anos e para as mais jovens em caso de histórico familiar ou mutações genéticas.
“A gente quer diagnosticar na fase pré-clínica, antes dos sinais e sintomas. Por isso, os exames de rastreamento são fundamentais. Eles diagnosticam o câncer no momento em que a paciente não está sentindo nada. O câncer não nasce com 1 ou 2 centímetros, ele nasce pequeno, celular.Esses exames detectam o câncer em tamanhos que nem a paciente, e nem o médico, muitas vezes, conseguem identificar e a chance de cura ultrapassa 90%”
EXTREMAMENTE AGRESSIVO
Anna Eliza de Oliveira, 41, acredita que caso não tivesse ajuda financeira, não estaria viva. Diagnosticada em 2022, ela gastou mais de R$ 5 mil em exames, após ser alertada por uma médica que o pedido iria demorar pelo SUS e seu caso
era grave. Em um dos seus primeiros exames, o câncer estava apenas na mama. Após 40 dias de espera pelo SUS, ela
decidiu pagar pelo procedimento e o câncer havia se espalhado para outras áreas do corpo.
“O câncer estava extremamente agressivo. Esse exame que a gente faz, o imunoistoquímico, é justamente para o médico saber qual protocolo começar, como o câncer está, se está agressivo. Tem uma porcentagem que quem está com nódulo fica, geralmente, em torno de 30%. O meu estava 70%. Quando eu descobri, no primeiro exame que fiz, ele estava com 3 centímetros. Nesse último, que foi a ressonância, já estava com 5 e foi 40 dias depois. Então, provavelmente eu teria que tirar a mama toda ou não estaria aqui, já teria se espalhado”.
Em nota, o Ministério da Saúde informou que o mamógrafo da Carreta de Saúde da Mulher será substituído e os exames
devem retornar na terça-feira (24). A unidade móvel permanece em Várzea Grande até o dia 8 de março e todas as consultas adiadas serão reagendadas.
Leia matéria completa na edição do jornal A Gazeta

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