
Eu tinha uns 14 anos quando a Legião Urbana marcou um show no Geraldão lá em Recife. A gente amava Legião. Pedimos pra ir, mainha deixou e nos comprou os ingressos. Sem contar nada pra ninguém, botei o encarte de Que país é este na mochila e usei todo o tempo que me sobrava pra decorar cada vírgula de Faroeste Caboclo. Medo danado deles não cantarem essa.
Cantaram. Eu cantei junto no grito. No fim do show, na hora de “não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesaaaaaaaaas agora” acenderam todas as luzes do estádio e eu achei que aquilo era a coisa mais bonita que já tinha me acontecido.
Nessa mesma noite, era plantão de painho na emergência do Hospital da Restauração. Dá entrada um menino, assim de uns 17 anos, todo arrebentado. Painho pergunta o que aconteceu e ele diz que estava em um show e pegou as rebarbas de uma briga que rolou por lá. Disse que a confusão foi tamanha que sobrou o caco de vidro que lhe rasgou o rosto que era costurado agora. Ele caiu, foi pisoteado, tava lotado o Geraldão. Geraldão?, meu pai perguntou. Ele amava contar do susto que teve ao se dar conta de que o show do menino era o mesmo em que estavam as duas filhas pequenas. Tivesse celular naquela época, tinha nos ligado mandando a gente voltar. Eu teria perdido a boniteza da surpresa do estádio todo aceso.
Corta pra ontem. Lalá saiu de casa brilhando mais do que o Geraldão iluminado, de biquíni e bermuda, cheia de amigas e risadagem em direção ao bloco que se concentraria na rua da Consolação, no centro de São Paulo. Deu meia horinha e já comecei a ouvir as sirenes do bombeiro, das ambulâncias e da polícia. Não precisou nem entrar no Google pra ver as imagens da multidão que se formou com o encontro dos 2 superblocos que não deveriam, por nada ter saído na mesma rua, no mesmo horário, mas saíram.
Lalá voltou pra casa. Inteirinha, sã e salva. Não sossegou e achou outro bloco que o sangue dessa menina não nega nem um mililitro de pernambucanidade. Eu passei o domingo me sentindo feito meu pai todo vestido de verdinho claro no centro cirúrgico do hospital da Restauração. Hoje de manhã ela disse que ver o povo dançando, pulando colorido no meio da rua foi a coisa mais bonita que já lhe aconteceu. Fiquei comovida e vim trabalhar cantando que não temos tempo a perder. Botem aí pra tocar, minha gente. Essa é bonita. Boa semana pra vocês.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

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