Tempo é ganho

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Tem dias na clínica em que gosto ainda mais de Freud. Quase todo dia, na verdade. “Mas era danado mesmo esse menino”. Isso levando todas as críticas que cabem em consideração. É que era danado mesmo esse menino. Agora, tem dias que Jung não me sai da cabeça. Estudei pouco Jung e, na real, nem deveria me meter a falar nada dele, mas olha isso.

 

Hoje de manhã, atendi 5 pacientes (7h, 8h, 9h, 10h, 11h e 12h), 4 deles usaram a palavra razoabilidade. É uma palavra rara? Não, não é. Mas tu ouvisse quantas vezes “razoabilidade” hoje? Sexta-feira, 3 analisandos citaram Tempo Perdido de Renato Russo. A música é de 86, minha gente. Se fossem 3 falando de Trump, do Big Brother ou da Papudinha, tudo bem. São assuntos pulsantes na cultura e naquela semana. Mas Legião Urbana? Será que viralizou no Tik Tok?

 

Voltando à razoabilidade, acho essa palavra linda. E toda vez que escuto, lembro de Garanhuns. É que na casa que morei lá, dos 3 aos 13 anos, tinha uma piscina. A parte maior era funda e a menor rasa. Que nem quase todas as piscinas, eu sei. Mas é que nos referíamos a ela como a rasinha. Eu achava a coisa mais querida que os adultos tomassem o diminutivo por definição. A gente devia dizer a fundona e a rasinha, só que o apelido da fundona não pegou.

 

Rasinha não era nem apelido. Era feito meu primo Fredinho que não se chama Frederico, foi registrado já como Fred. Acho lindo Fred. Pois que cada vez que um analisando dizia de sua razoabilidade — e pra cada um a palavra significa uma coisa completamente diferente — eu sentia o sábado, o cheiro de Garanhuns, a temperatura da água, meu pai dando banho na cachorra (Lili Charmosinha) do lado de fora, a gente vendo do lado de dentro da piscina, as espreguiçadeiras brancas com o braço de madeira meio descascado, mainha de maiô deitada numa delas, minha irmã de franjinha pulando na fundona e eu na rasinha.

 

Já Tempo Perdido não causou tanto efeito. Essa semana, minha irmã voltou a Garanhuns e me mandou uma foto dela na fachada da escola onde estudamos. Tão bonita minha irmã na nossa escola. Desde o tempo da franjinha. Era só isso mesmo. Boa semana, queridos. Beijo pra Freud, pra Jung, pro meu pai, pra minha mãe, pra minha irmã e pra vocês.

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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