
As obras no Portão do Inferno, na MT-251, principal acesso entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães (60 km de Cuiabá), marcaram o ano de 2025 como um dos mais turbulentos para a infraestrutura e o turismo da região. O que começou como uma intervenção emergencial para conter deslizamentos se transformou em um longo impasse técnico, ambiental e político, com prejuízos econômicos para comerciantes, transtornos à população local e uma solução definitiva que só começou a ganhar forma no fim do ano, com a publicação do edital para construção de um túnel.
Leia também – Aeroporto de Sorriso se prepara para receber aviões cargueiros após reforma
Em junho de 2025, o governo de Mato Grosso confirmou o descarte do projeto inicial, que previa o retaludamento, corte e estabilização do paredão rochoso, no trecho do Portão do Inferno. A obra havia sido iniciada em 26 de agosto de 2024, com previsão de conclusão em até três meses, o que não se concretizou.
Mesmo com apenas cerca de 26% da obra executada, o Estado já havia pago aproximadamente R$ 9,3 milhões à Lotufo Engenharia e Construções LTDA, responsável pelo serviço, valor equivalente a quase 25% do contrato. O projeto original previa investimento de R$ 29,5 milhões, mas, após aditivos, o custo total pulou para R$ 37,6 milhões.
A mudança de estratégia ocorreu após o próprio governo admitir falhas nos estudos técnicos que embasaram a obra e reconhecer a inviabilidade de continuidade do projeto nos moldes originais. O contrato precisou ser rompido, e uma nova licitação passou a ser necessária. Reprodução
Protestos, insegurança e impactos no dia a dia
Durante a execução da obra e após sua paralisação, moradores, comerciantes e vereadores de Chapada dos Guimarães realizaram protestos cobrando respostas e soluções mais rápidas. Desde os deslizamentos registrados no fim de 2023, o tráfego na MT-251 passou a operar com restrições, especialmente para veículos pesados, afetando o abastecimento da cidade, o deslocamento de moradores e o fluxo de turistas.
Comércios ligados ao turismo relataram queda no movimento e redução no faturamento, principalmente em períodos de chuva, quando o risco de interdições aumenta. Moradores também convivem coma insegurança constante, já que a via permanece instável e opera frequentemente no sistema de “pare e siga”.Mariana da Silva
Túnel
Ainda em 2024 e no início de 2025, técnicos e a população local chegaram a defender a construção de um túnel como alternativa mais segura, com menor impacto visual e ambiental. A proposta, no entanto, foi inicialmente descartada pelo governo por questões técnicas e financeiras.
A mudança de postura só ocorreu após a realização de sondagens geotécnicas mais aprofundadas e pareceres favoráveis do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Ibama, já que a área está inserida no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães e exige autorizações ambientais específicas. Fred Moraes/GD
Divergências internas e incertezas
Em julho de 2025, o tema voltou ao centro do debate após declarações contraditórias dentro do próprio governo. Enquanto o governador Mauro Mendes (União) afirmou ter autorizado oficialmente o avanço do projeto do túnel, o secretário de Infraestrutura, Marcelo de Oliveira, o “Padeiro”, colocou dúvidas sobre a definição da solução, dizendo que novos estudos ainda estavam em andamento.
As falas geraram desgaste político e ampliaram a sensação de indefinição sobre o futuro da obra. Mendes chegou a afirmar publicamente que havia sido surpreendido pela posição do secretário, reforçando que a solução do túnel já havia sido apresentada tecnicamente e aprovada em reunião.
Edital publicado e nova fase da obra
Somente em novembro veio a principal atualização concreta do ano: a publicação do edital de licitação para a construção do túnel no Portão do Inferno. O projeto prevê um túnel de 170 metros de extensão, em pista de concreto com acostamento. Considerando os acessos, a obra totaliza 513 metros.
O valor estimado é de R$ 54,8 milhões, bem acima do custo do projeto inicial. A licitação será realizada de forma integrada, ou seja, a empresa vencedora ficará responsável tanto pelos projetos básicos e executivos quanto pela execução da obra. A abertura das propostas está marcada para março de 2026, e o prazo estimado de execução é de 420 dias após a ordem de serviço.
Segundo a Secretaria de Infraestrutura, o túnel foi definido como a alternativa “mais vantajosa”, considerando segurança, durabilidade e menor impacto ambiental e paisagístico. Montagem GD
Chuvas, novos deslizamentos e expectativa para 2026
Em dezembro, as chuvas voltaram a provocar deslizamentos no morro do Portão do Inferno, reforçando a urgência da solução definitiva. Imagens registradas por motoristas mostraram novas quedas de terra, e o tráfego voltou a operar em sistema de “pare e siga”.
O prefeito de Chapada dos Guimarães, Osmar Froner (União), afirmou que, apesar das dificuldades de acesso, a cidade precisará “suportar a obra”, apostando que, após a conclusão, o município continuará em crescimento, especialmente no turismo.
Assim, 2025 termina com um misto de frustração e expectativa. “Os únicos momentos mais críticos é no momento de chuva excessiva, que é interrupção do portão. Mas nós já acostumamos com isso, a 246 falta 4 km para pavimentar e vai dar opção, principalmente para carga pesada. Nós vamos suportar a obra, com a esperança que após a conclusão, Chapada continue nessa explosão que ela está”, pontuou o prefeito.

Faça um comentário