
Annie Souza e Rodinei Crescêncio/Rdnews
Nos últimos anos, a educação pública de Mato Grosso passou por uma mudança estrutural que vai da infraestrutura à formação de professores. À frente da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) desde 2019, Alan Porto afirma que o estado deixou para trás um cenário de “salas de lata, salários atrasados e escolas sem recursos” e alcançou hoje a 8ª posição nacional no ranking da educação, em comparação a 22ª em que estava. “Eu costumo dizer que em 2019 a gente estava lá no rebaixamento do Campeonato Brasileiro. Hoje nós estamos ali entre os 10 melhores, na 8ª posição, chegando na Libertadores”, compara. Para chegar a esse cenário, o secretário diz que o governo do Estado saneou problemas e hoje consegue investir. Segundo ele, os investimentos já representam 17% do total do orçamento, cuja a previsão na Lei Orçamentária Anual (LOA) é de R$ 5,5 bilhões para este ano de 2025, ou seja, o aporte beira R$ 1 bilhão. Em entrevista ao , ele fala sobre os principais investimentos, os desafios de continuidade, o papel das escolas cívico-militares e o futuro político.
Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista
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O senhor assumiu a Seduc em 2019 com a missão de reestruturar o sistema. Quais foram as ações cruciais que permitiram essa transformação e já é possível dizer que ela é real e contínua?
É uma transformação real. Quando você olha para uma Secretaria de Educação em 2019, que tinha 92% do seu orçamento com folha e os outros 8% para transporte escolar, alimentação, Plano de Desenvolvimento das escolas e não sobrava nada para investimento. E tinha um retrato em 2019: Salas de lata, problema estrutural enorme; salário atrasado; fornecedores atrasados e uma alimentação muito ruim. As escolas não tinham dinheiro. Tinha que ficar fazendo rifa, comprar material de limpeza, material pedagógico. Então, isso era uma realidade e viramos a página. Hoje, as escolas do Estado de Mato Grosso vivem uma verdadeira transformação. Modernizamos muitas escolas. É claro que são 628 escolas. Isso não chega como passe de mágica. Mais de 50% das escolas passaram por melhorias. Hoje nós estamos entregando escolas que são os chamados Colégios Estaduais Integrados (educação em tempo integral). O governo já entregou cinco aqui em Cuiabá e em Várzea Grande e tem mais dois ficando prontos em Sorriso. O governador autorizou listar mais 30 desses colégios na região de Rondonópolis, Barra do Garças, Cáceres, Campo Novo. A gente tem escolas hoje com piscina, laboratórios, com 24 salas de aula. Uma infraestrutura igual ou melhor do que muitas escolas particulares. “ “As escolas não tinham dinheiro. Tinha que ficar fazendo rifa, comprar material de limpeza, material pedagógico. Então, isso era uma realidade e viramos a página. Hoje, as escolas do Estado de Mato Grosso vivem uma verdadeira transformação”
Quando a gente olha pro ponto de vista da modernização, nós gostamos da tecnologia. Levamos internet para todas as escolas, Chromebook, plataformas digitais.Então é um estudante que comunica, que critica, é um estudante que tem acesso a uma tecnologia muito maior do que no século passado. E a gente tá suprindo essa infraestrutura adequada. Claro que só a infraestrutura não vai resolver, nós temos que formar os nossos profissionais, nós temos que garantir os instrumentos educacionais, as plataformas educacionais. E é isso que a gente tem trabalhado muito: na parte pedagógica, colocando um material de excelente qualidade. Nós temos um sistema de ensino onde nós temos um parceiro que é a Fundação Getúlio Vargas, que elabora as nossas avaliações e aplica para todos os estudantes. Nós temos os materiais didáticos que chegam para todos os estudantes, nós temos um grande programa de formação de professores. A gente sabe que a formação inicial hoje, quando o professor sai do curso de graduação, ele vai pro estágio probatório e depois vai pra dentro da sala de aula e a realidade é um pouco diferente. Então nós temos que formar e valorizar esse profissional a todo momento, motivando ele. Nas nossas conversas sobre educação, nos nossos giros nas escolas, a gente tem acompanhado de perto, conversado com os professores, dado condições de trabalho para esse profissional e os resultados estão aí. Saímos da 22ª posição, hoje é a 8ª melhor educação do Brasil. Eu costumo dizer que em 2019 a gente estava lá no rebaixamento do Campeonato Brasileiro. Hoje nós estamos ali entre os 10 melhores, na 8ª posição, chegando na Libertadores. Mas a gente não quer chegar só na Libertadores, a gente quer ser campeão brasileiro. E eu confio muito no time que nós temos, eu confio muito nos professores, nos profissionais da educação que estão fazendo um excelente trabalho.
Quais são os principais desafios da educação mato-grossense neste momento, considerando que o governo entra em reta final, diante da chegada das eleições em 2026?
Temos desafios, precisamos continuar avançando. A gente tem o “Educação 10 Anos”, que é uma política de Estado. Essa política vai até 2032. Então nós temos que continuar nessa direção. O trem está no trilho correto, mas os resultados na educação, acontecem a médio e longo prazo, não tem aquela receita de bolo pra você seguir. Você tem que pegar as 30 políticas que nós temos nesse estado hoje, investir em todas elas, garantir a continuidade na modernização dos espaços escolares, garantir a formação dos professores e garantir esse ensino acolhedor para os nossos estudantes. Nós recebemos (final de agosto) uns 505 grêmios estudantis aqui. Conversamos com eles a respeito de liderança, protagonismo juvenil, falando que eles podem ser o que quiserem. Existem várias profissões hoje no nosso estado. Mato Grosso vive o pleno emprego e a educação é essa ferramenta que vai transformar a vida dos estudantes. Então o meio da educação é onde vai garantir essa prosperidade. Então a gente não está preocupado só em entregar um certificado. A gente se preocupa além disso. A gente se preocupa com o desenvolvimento econômico, com o crescimento do estado. E a educação é essa ferramenta que vai transformar. A escola tem que ser viva. Ela vai além da sala de aula. A sala de aula está para ensinar, para ter um professor preparado para ensinar os estudantes e ele conseguir aprender. A escola, tem um grêmio estudantil, temos as escolas vocacionadas no esporte, temos o projeto “Escola da Família” que abre às escolas aos finais de semana. Nós temos também o nosso ensino técnico profissional, onde o estudante, além de ter o ensino médico, ele tem condições de trabalhar num curso que vai garantir uma profissão pra ele.
Quanto o Estado já investiu em educação desde o início da sua gestão e quais resultados esse aporte trouxe?
Hoje, em torno de 17% de investimento (do orçamento ao em torno de R$ 5,5 bilhões). Mais de 300 escolas foram reconstruídas. Hoje, todas as escolas têm acesso à internet. Só de investimentos eu vou te dar um lado: o transporte escolar. Nós já entregamos mais de 995 ônibus. Só isso aí chega a quase R$ 1 bilhão. De investimentos e convênios com as prefeituras na reforma, na reconstrução de escolas de mais de 300 unidades, são mais de um R$ 1 bilhão de investimentos. Entregamos computadores para todos os professores e para os estudantes dentro das escolas, material didático, formação de professor. Nós temos a nossa gratificação por resultado. Hoje, o professor, o técnico, o apoio, tem a chance de ter um 14º, 15º salário. A gente tá falando aí, de professores, no final do ano, que podem ter bônus de mais de R$ 10 mil. Então, isso é valorizar. Isso é investir no profissional.
Annie Souza/Rdnews
Houve resistência inicial da comunidade escolar às mudanças desde a sua chegada à frente da Seduc? Como está hoje o relacionamento com os professores e gestores?
Lá no início, em 2019, nós tivemos sim, alguns embates nessa discussão, que precisava mudar. Naquela época, a educação estava na UTI. E quando tá na UTI, você precisa aplicar a medicação adequada. Então, naquele momento, a gente precisava organizar, reestruturar a parte administrativa da secretaria, a oferta que nós estávamos colocando pros estudantes. Então, os municípios passam a atender os anos iniciais, do 1º ao 5º, e o Estado passa a atender do 6º ao 3º anos do ensino médico. Então, nós vemos o redimensionamento. Além do redimensionamento, a gente garantiu, também, assistência técnica pros municípios, através do programa “Alfabetiza Mato Grosso”. Aproximamos em regime de colaboração. Os resultados da alfabetização hoje, no estado, nós éramos o 22º e fomos para 9º, a nível nacional. A gente alfabetizava 47% das crianças. Hoje, alfabetizamos 62%. E é muito importante alfabetizar a criança na idade certa. Resultados de pesquisas, que acompanharam crianças que foram alfabetizadas na idade correta, mostram que 85% delas entraram em uma universidade. Então, quanto mais a gente investir na base, nessa fase de 0 a 6 anos, até 7 anos, é quando ela recepciona mais informação, onde ela aprende mais. Então, nós temos um diálogo muito bom com os prefeitos, com as escolas municipais, nós nos aproximamos muito. As diretorias regionais dão todo o suporte administrativo, técnico, formativo para esses professores. O estudante é o protagonista hoje dentro da escola. E ter o grêmio como ponte dos estudantes com a equipe gestora, faz todo sentido: Aproxima a comunidade escolar, aproxima as famílias. Então, a responsabilidade de uma educação é passar por todas as camadas da sociedade. A família educa e a escola ensina.
O estado acabou tendo visibilidade negativa com o caso da Escola Estadual Carlos Hugueney, em Alto Araguaia, onde um grupo de estudantes agrediu uma colega, brutalmente, utilizando o modus operandi de organizações criminosas, o chamado “salve”. O que a Seduc fez para atenuar essa questão?
Quando eu vi aqueles vídeos, e eu acho que qualquer mato-grossense, ficou chocado. Pra gente que é pai, olhar aquelas imagens ali, ver uma criança ajoelhada, passando por uma situação como de um “salve”. Então, no momento que eu recebi aquelas informações, aquele vídeo, eu conversei imediatamente com o governador Mauro Mendes e ele determinou: “tome as medidas necessárias urgentes e o mais rápido possível”. Então, naquele momento a gente tinha que oferecer uma denúncia, oferecemos essa denúncia, entramos em contato com a Polícia Civil, com o Ministério Público e foi todo mundo muito rápido. Então, eu falo que quando as instituições se juntam e trabalham de forma integrada, a resposta para a sociedade é muito rápida. Em menos de 24 horas, a gente já tinha denúncia, as crianças já tinham sido ouvidas, as adolescentes. O Ministério Público já tinha oferecido denúncia para o Tribunal de Justiça em menos de 24 horas, isso é uma decisão. E aí houve a internação. “ A violência dentro do ambiente escolar, ela existe no Brasil inteiro, mas quando acontece no ambiente escolar, precisamos ser muito rápidos e reprimir esse tipo de situação. E é isso que a gente tem feito. Mas dentro do ambiente escolar, nós temos que trabalhar na construção e fomentar a cultura de paz”
Posteriormente houve a decisão de transformar a escola, que era integral, para cívico-militar. Porque tomaram essa decisão? As famílias da vítima e das infratoras estão recebendo algum tipo de apoio?
Nós transformamos aquela escola para cívico-militar, até pelo anseio da própria população, dos pais, dos estudantes. Então, eles receberam aquilo ali de forma muito tranquila. E cessou o assunto. As famílias estão sendo acompanhadas por nossa equipe psicossocial, a escola, os estudantes. Então, isso é uma página virada. Agora, nós temos que trabalhar na prevenção. A violência dentro do ambiente escolar, ela existe no Brasil inteiro, mas quando acontece no ambiente escolar, precisamos ser muito rápidos e reprimir esse tipo de situação. E é isso que a gente tem feito. Mas dentro do ambiente escolar, nós temos que trabalhar na construção e fomentar a cultura de paz. Então, nós temos mediadores, nós temos facilitadores, nós temos a nossa equipe psicossocial, que é assistente social, psicólogo, que estão dentro das escolas e orientando os estudantes.
Assim como ocorreu nessa unidade, Mato Grosso ampliou de forma acelerada o número de escolas cívico-militares. Como o governo tem garantido qualidade no ensino durante essa expansão?
Em 2019, nós tínhamos oito Escolas Estaduais Militares Tiradentes e Escolas Estaduais Militares Dom Pedro II. Hoje nós temos 29 escolas Tiradentes e Dom Pedro II. Escolas cívico-militares, nós temos 102. Hoje nós atendemos 105 mil estudantes nessa modalidade militar. Lembrando que isso é um anseio da própria população. Antes da gente implementar o projeto das escolas cívico-militares, nós tínhamos 240 solicitações de pais, prefeitos, vereadores, deputados, da comunidade escolar, e dos professores. Quando a gente começou a implementar, a escola entendeu que esses profissionais, esses policiais da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiro, da Marinha, da Aeronáutica, do Exército, são da reserva. Foi um aliado junto à unidade escolar para trabalhar no acolhimento, para trabalhar na busca ativa, para trabalhar no respeito, no patriotismo, na disciplina. Mas é importante dizer que além das escolas cívico-militares e militares do Estado, nós temos as nossas escolas de tempo integral que fazem um excelente trabalho. São 96 escolas hoje. Escolas essas que você tem um tempo de permanência maior. Mas não só o tempo de permanência. Você tem a questão do projeto de vida, você tem a valorização da comunidade escolar, você tem a aproximação das famílias desse modelo que faz todo sentido para a questão do aprendizado. Quando você tem um estudante dentro de uma escola, você diminui o tempo dele na rua, fazendo qualquer outro tipo de coisa. Você diminui a violência, você traz garantias para os pais. Imagina os pais que saem para trabalhar e tem na cabeça o seguinte: “Meu filho estará 9 horas na escola, com uma alimentação adequada e está aprendendo”. Então, isso gera uma segurança maior para os pais, é uma estratégia importante que o Estado ampliou muito.
De que maneira o modelo cívico-militar, associado a mais disciplina e conservadorismo, dialoga com as exigências de inovação e criatividade necessárias ao século XXI? “ Olha o que aconteceu com a robótica do Estado de Mato Grosso. Nós temos um terceiro ano consecutivo levando os nossos estudantes para Houston (EUA), inclusive escolas na modalidade cívico-militar, escolas confessionais”
Em qualquer modelo educacional a gente tem um currículo do Estado. Dentro do currículo do Estado, tem as três disciplinas, nós temos os nossos professores. Então, o ensino vai melhorar gradativamente a sua qualidade. Não é porque transformou de uma modalidade para outra que vai cair os resultados ou que vai diminuir muito. Pelo contrário. Todas essas mudanças são no sentido de a gente garantir, acelerar o movimento de ensino, o movimento de qualidade e é isso que está acontecendo. Os resultados educacionais já demonstram isso para nós, tanto no 5º, no 9º ano do ensino fundamental, no 3º ano do ensino médio, há uma melhoria significativa no ensino e na aprendizagem das nossas crianças. Nós investimos em tecnologia, plataformas educacionais. A nossa escola hoje trabalha com a modalidade Steam. Nós temos laboratórios de profissão 4.0, nós temos robótica dentro das nossas escolas. Então, esse despertar, esse protagonismo dos estudantes, ele é aflorado a todo momento. Vou citar um exemplo. Olha o que aconteceu com a robótica do Estado de Mato Grosso. Nós temos um terceiro ano consecutivo levando os nossos estudantes para Houston (EUA), inclusive escolas na modalidade cívico-militar, escolas confessionais. A escola perpassa por todas as camadas da sociedade, por todas as modalidades. Cabe aos pais e ao estudante entender qual é a melhor modalidade. Não é a cívico-militar, a integral que tem que destoar das demais. Nós estamos trabalhando para ter uma educação que seja acolhedora, que garanta a permanência do estudante, mas que principalmente garanta o ensino de qualidade, independente da sua modalidade. Então, tem várias. Nós temos escolas vocacionadas ao esporte. Essa semana, estudantes de Tangará da Serra e a escola Ramon Sanchez foram para Buenos Aires. Cinco estudantes representaram o Brasil na competição de judô internacional. Então, assim, são essas coisas que deixam a escola mais atrativa, deixam a escola viva, a escola participando, a escola integrando a família, integrando aquela comunidade. É isso que a gente tem que trabalhar.
Annie Souza/Rdnews
O senhor tem investido em intercâmbio e benchmarking (pontos de referência) com outros estados e até países. Como essa troca tem contribuído para a política “Educação 10 Anos”? “ E o que faz a diferença? Por mais que a gente tenha todos esses modelos educacionais e a gente trouxe para o Estado e regionalizou, o que vai fazer a diferença é a escuta ativa dos profissionais, é entender o que está acontecendo dentro da sala de aula”
É uma das premissas básicas de trabalho de qualquer instituição, de qualquer organização, seja ela privada ou pública, e o governador Mauro Mendes tem muito isso de fazer o benchmarking. A gente não precisa ficar reinventando a roda. A gente precisa verificar quais são as boas práticas na educação, quais são as práticas pedagógicas, qual o modelo administrativo que mais se adequa a nossa realidade e aquilo que vai gerar resultados e evidências. Então a nossa política hoje de “Educação 10 Anos” é baseada em evidências. Nós vamos buscar essas evidências nas melhores educações do Brasil. Então a gente visitou Goiás, Paraná, Espírito Santo, nós visitamos o Ceará. Nós conhecemos evidências internacionais, na América do Norte, na Europa, para entender de formação de professor, de avaliação, de currículo e aí nasceu a “Educação 10 Anos”. E o que faz a diferença? Por mais que a gente tenha todos esses modelos educacionais e a gente trouxe para o Estado e regionalizou, o que vai fazer a diferença é a escuta ativa dos profissionais, é entender o que está acontecendo dentro da sala de aula. Nós temos excelentes práticas dentro do Estado. Nós temos profissionais altamente capacitados, que precisam de um incentivo, que precisam enxergar que aquela política educacional que foi adotada faz sentido para dentro da escola. Então, é isso que a gente tem feito nos dias da escola, ouvir esses profissionais, fazer reuniões com os diretores regionais, ouvindo o professor, ouvindo o estudante e isso dá insumos e informações para que a gente possa fazer os processos de intervenção pedagógica, melhoria. Educação é uma melhoria constante e isso só se faz com qualidade quando a gente dá voz e escuta os profissionais da educação.

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