Soja e abelhas: parceria sustentável nas fazendas de MT aumenta produtividade e reduz impacto ambiental

Imagem

Em Mato Grosso, a busca por caminhos sustentáveis na produção de grãos passa por uma parceria inusitada: a soja e as abelhas. Em colaboração com a Fundação Bunge, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolve um projeto junto a produtores de soja, que estuda os benefícios da integração entre agricultores e apicultores. A iniciativa mostra que, além de aumentar a produtividade e a qualidade do grão, a presença das abelhas agrega valor ao produto e representa uma alternativa sustentável para reduzir o uso de defensivos agrícolas e a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Reprodução/Embrapa

Após polinização da soja, vagem da soja nasce com 4 e 5 grãos

Em Canarana, no nordeste mato-grossense, produtores já vivenciam na prática os resultados dessa integração entre soja e apicultura. No município, que na última safra cultivou 340 mil hectares de soja e alcançou uma produção de 1,22 milhão de toneladas, 34 pequenos e 9 grandes produtores participam do projeto. Nessas propriedades rurais, foram instaladas 1.020 colmeias próximas às lavouras de soja. A pesquisa segue o protocolo da metodologia Semêa: durante a floração, observadores contaram a presença das abelhas nas flores e, após a colheita, compararam amostras próximas aos apiários e em áreas a pelo menos 200 metros de distância.

O resultado foi expressivo: enquanto áreas mais afastadas dos apiários colheram em média 47 sacas de soja por hectare, aquelas próximas às colmeias alcançaram 55 sacas, um ganho de produtividade associado diretamente à polinização. Foi possível ver nascer entre quatro e cinco grãos de soja por vagem, enquanto o comum é três grãos por vagem, em locais afastados das abelhas. Franco Bibilio

Fazenda com produção de soja e colmeias nos arredores da lavoura para a polinização

O engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa, Décio Luiz Gazzoni, explica que, com o aumento da produtividade a partir da integração, há também uma redução de áreas utilizadas para o plantio. É justamente nessas áreas que a emissão de gases de efeito estufa age em decorrência das mudanças no solo. “ Se você usa menos adubo, menos semente, menos óleo diesel, menos defensivos, por tonelada de soja produzida, você está reduzindo a emissão de gases de efeito estufa” Décio Luiz Gazzoni, pesquisador

“Para produzir sementes, herbicida, inseticida, fungicida, você emite gases. Para produzir fertilizantes, adubos, você emite gases. Óleo diesel emite gases. Então, se você usa menos adubo, menos semente, menos óleo diesel, menos agrotóxico, por tonelada de soja produzida, você está reduzindo a emissão de gases de efeito estufa”, afirma o engenheiro.

O estudo, que ainda está em período de análise de resultados, aponta um aumento de produtividade de, pelo menos, 10% em algumas propriedades, podendo chegar a 30% em outras. Na média, nos experimentos em Canarana, o aumento foi de 17%. Dessa forma, a emissão de gases nesses locais pode ser reduzida em até 30%.

“E isso é um ganho líquido, porque o produtor de soja não mexe no seu sistema de produção. É usada exatamente a mesma quantidade de sementes, de adubo, de defensivos e de óleo diesel. Então, o que ele colhe a mais é lucro líquido. E veja bem que 15%, 20% de acréscimo na produção é um valor muito grande. Isso causa toda a diferença no final”, esclarece.  Anderson Coelho

O engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa, Décio Luiz Gazzoni, fala sobre os impactos diretos da integração entre abelhas e a soja

Segundo Décio, um dos maiores benefícios é justamente a redução do uso de defensivos agrícolas químicos, os chamados “agrotóxicos”. Um levantamento do Instituto Escolhas, publicado em junho de 2025, mostra que, nas últimas três décadas, o uso de defensivos agrícolas nas lavouras de soja do Brasil aumentou de forma significativa, de 16 mil toneladas, para aproximadamente 349 mil. Essa evolução está ligada às mudanças de produtividade por saca ao longo dos anos. Esse dado reforça a importância de buscar alternativas produtivas mais eficientes e sustentáveis. Por isso, além da produção de defensivos biológicos, através da produção “on farm”, já adotada pelos produtores mato-grossenses, a integração da abelha com a soja vem como mais uma alternativa sustentável e que tem atraído o interesse do setor para mudar esse cenário.

O engenheiro agrônomo pontua que o uso dos defensivos agrícolas nas plantações de soja necessita de cuidados específicos a partir do momento que as abelhas entram em ação junto ao plantio. Desta forma, os produtores que já entendem as vantagens de ter apiários em suas fazendas, aprendem, de maneira consciente, sobre formas melhores de empregá-los. Reprodução/Embrapa

Abelha polinizando a flor da soja

“É sempre bom salientar que tanto a produção de mel, a criação de abelhas, quanto a produção de soja, de qualquer cultivo agrícola, tem uma série de boas práticas recomendadas, um conjunto de orientações e indicações que tem que ser observado, desde cuidados com manejo do solo, com nutrição de plantas a manejo de pragas, de doenças. Você tem que dar um ambiente favorável para obtenção de alta produtividade”, explica Décio.  “ Nós temos observado os apicultores colhendo o dobro, às vezes o triplo da média brasileira” Décio Gazzoni, pesquisador

“Ganha-ganha”

O engenheiro agrônomo explica que, assim como os produtores de soja, os apicultores conseguem ganhos expressivos com essa integração sustentável. “Nós temos observado os apicultores colhendo o dobro, às vezes o triplo da média brasileira. A média brasileira é de 19 quilos de mel por colmeia, por caixa de abelha. E nós temos produtores tirando 50, 60 ou mais quilos de mel só durante a safra de soja. Não é durante todo o ano não, é só naqueles dois meses que tem floração de soja. O apicultor pode levar as caixas de uma lavoura para outra. Então, ele consegue dobrar ou triplicar a produção. Isso também é altamente expressivo”, pontua.  Reprodução/Embrapa

Apicultores retiram o mel produzido aos arredores de lavoura de soja

Apesar do projeto oficialmente acontecer em Canarana, os benefícios da integração da soja com as abelhas já tem chegado em outras regiões. O apicultor Franco Bilibio, que trabalha especificamente em lavouras de soja em Sorriso, afirma que já tem visto que a polinização do grão é um processo que fornece ganho para os dois lados. “ Eu precisava de alguém que acreditasse e abrisse essa porta para a apicultura dentro das lavouras” Franco Bibilio, apicultor

Ele compartilha a experiência inicial que teve em uma das fazendas onde começou a implantar seus apiários. “Tive um pouco de dificuldades no começo devido ao receio que os produtores tinham por abelhas. Porque a abelha, resumindo em poucas palavras, é o ‘dedo duro’ da agricultura”, conta. Segundo ele, havia muita desinformação, e a ideia de que agricultura e apicultura não poderiam coexistir era comum. 

Foi em busca de mudar essa percepção que Franco procurou o amigo e produtor rural Luimar Gemi, em Primaverinha. A proposta foi usar as áreas de reserva da fazenda para instalar colmeias, trazendo ganhos para os dois lados. “Expliquei que ele poderia aumentar a produtividade, diminuir custos com defensivos e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente. Eu precisava de alguém que acreditasse e abrisse essa porta para a apicultura dentro das lavouras”, lembra. Franco Bilibio

Fazenda do Luimar, onde há produção de soja integrada com colmeias nos arredores da lavoura para a polinização

No início, tudo era novidade. Franco instalou 50 caixas de abelha e começou a acompanhar os resultados. Pouco tempo depois, a parceria mostrou-se promissora. O produtor Luimar conta que o objetivo principal não era o ganho econômico, mas desmistificar a ideia do produtor de soja como um vilão do meio ambiente.  “ Eu quis mostrar que dá para fazer a coisa certa e dá para as duas atividades trabalharem juntas” Luimar Gemi, produtor de soja

“Começou porque me incomodou a crítica que era feita aos agricultores. Eu quis mostrar que dá para fazer a coisa certa e dá para as duas atividades trabalharem juntas. Então, eu permiti que a associação dos apicultores usassem a reserva nossa para pôr as colmeias. E nós temos uma comunicação. O dia que eu vou aplicar algum produto que a gente sabe que tem mais ação em insetos, a gente comunica ele e ele chega até fechar a colmeia à noite. No dia seguinte as abelhas não voam. Aí um dia depois ele abre. Existe uma comunicação com o criador de abelha, com o apicultor. E isso está dando certo”, relata.

Além disso, as colméias na fazenda são transitórias, o que flexibiliza a produção.  “Na época da chuva ele traz mais para próximo da lavoura onde tem florada e na época da seca ele precisa levá-las mais próximo da água, afastando da lavoura. A abelha depende de água, precisa de água. Então, tudo isso acontece. Nós conseguimos cumprir as duas atividades e isso funciona”, relata. “ Já tem várias fazendas que procuram os apicultores para colocar apiários em suas áreas e, assim, aumentar a produção de soja ” Franco Bibilio, apicultor

Hoje, a colaboração entre Franco e Luimar  já dura cerca de seis anos. Além dessa propriedade, o apicultor atua em outras lavouras. Ele relata que houve alguns obstáculos no caminho. No segundo ano de integração com as fazendas, sofreu uma perda de 70% de suas abelhas, mortas por conta da aplicação errada de aviões de inseticidas. A partir daí, ele, junto ao produtor, estudaram planos de ação que contemplassem os dois, mudando, por exemplo, a realização da passagem de aviões com defensivos agrícolas onde as abelhas estavam localizadas. 

“Fizemos análises, coletamos algumas informações, e vimos que o problema tinha sido causado um pouco pela aviação de inseticida. Aí eu sentei com ele [produtor] e falei, o que nós podemos fazer? Nós podemos mudar os horários das aplicações, mudar a rota do avião, o avião não fazer mais voltas em cima do mato, deixar um espaço entre o mato até a lavoura, em torno de uns mil metros, e nessa área não fazer aplicação de inseticida com o avião, nós usamos só a aplicação do pulverizador, e aderimos esse esquema no terceiro ano. De lá pra cá nós não tivemos mais mortalidade de abelha, pelo contrário, as abelhas na área dele crescem, ficam nutritivas e a produção de mel automaticamente veio a aumentar”, esclareceu Franco.  Embrapa

Vagem da soja tem até cinco grãos em lavouras onde foram inseridas as colmeias para abelhas polinizarem

Superado o desafio, Franco vê um novo cenário se formar. “Já tem várias fazendas que procuram os apicultores para colocar apiários em suas áreas e, assim, aumentar a produção de soja pela polinização. Inclusive propriedades menores, onde as abelhas conseguem abranger praticamente toda a lavoura”, observa.

Expansão da soja e as abelhas “ O momento agora é mostrar, com base em dados técnicos e ciência, o quanto essa safra do mel é importante também para a soja” Cristina Delicato, coord. do CAT

Para expandir os resultados positivos da integração entre abelhas e lavouras de soja, o Clube Amigos da Terra (CAT) de Sorriso tem se dedicado a disseminar informações e oferecer treinamento aos produtores da região. A coordenadora Cristina Delicato explica que a iniciativa busca estruturar uma nova cadeia produtiva, capaz de beneficiar tanto agricultores quanto apicultores. O trabalho irá acontecer, inicialmente, com 54 produtores de Sorriso e de outros municípios da região.

“O trabalho vai ser realizado junto aos produtores para aceitar essa iniciativa, permitir que as propriedades recebam as caixas e, consequentemente, tenham dois produtos: a soja e, ainda, o mel. A produção pode aumentar em até 15% e, ao mesmo tempo, o produtor diversifica sua renda. Já estamos organizando uma cooperativa, com apoio de uma consultoria, para estruturar toda a parte de coleta, centrifugação, industrialização e comercialização do mel”, afirma Cristina. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Cristina Delicato, coordenadora do Clube Amigos da Terra (CAT)

A ideia é que a expansão chegue a outros municípios do Consórcio Intermunicipal da Região, como Vera, Nova Ubiratã, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Itanhangá, Ipiranga do Norte e Boa Esperança. “Nossa ideia é começar pelos arredores e depois estender gradativamente para municípios mais distantes. Já vemos produtores instalando caixas de abelhas em suas fazendas, mas ainda não de forma estratégica. O momento agora é mostrar, com base em dados técnicos e ciência, o quanto essa safra do mel é importante também para a soja, o milho e o algodão”, completa. “ O produtor está fazendo a parte dele para que nós tenhamos uma qualidade de vida maior” Cristina Delicato, coord. do CAT 

Cristina esclarece também o quanto o mel polinizado a partir da soja tem um valor diferenciado quando se trata de qualidade, sendo um produto que agrega valor. “Na questão do mel quem já trabalha com isso destaca a questão da qualidade. Esse mel, polimerizado pela soja, é mais transparente, tem um aroma, floral, diferenciado, e ele é de difícil cristalização. E é o mel que todo mundo quer”, explica. 

Para a coordenadora, essas iniciativas mostram que o produtor rural tem se tornado cada vez mais preocupado com a sustentabilidade. “O produtor está responsável pelo solo, pela água, pela flora, pela fauna. E a sociedade que vai se beneficiar disso. Nós também temos todo esse trabalho feito aqui pelo produtor rural, uma sociedade consciente, fazendo seu papel de zelar pelo meio ambiente, cuidar do seu lixo, cuidando dos  rios. O produtor está fazendo a parte dele para que nós tenhamos uma qualidade de vida maior”, afirma.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

Link da Matéria – via RD News

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*