Com reflorestamento e recuperação de nascentes, produtores rurais se tornam guardiões das águas de MT

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Produtores rurais de Mato Grosso, tantas vezes apontados como vilões do meio ambiente, lideram a recuperação das nascentes que abastecem o campo e a cidade e têm se tornado cada vez mais os guardiões das águas mato-grossenses. Mais de 100 nascentes já foram mapeadas em propriedades privadas, e grande parte hoje está preservada ou em processo de revitalização. Onde antes havia áreas degradadas, fazendeiros recuperam e protegem cursos d’água. Um deles, sozinho, revitalizou e mantém preservadas 28 nascentes dentro de sua fazenda – um esforço que mostra que, no campo, sustentabilidade e produção podem, sim, caminhar lado a lado. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Lavoura de soja após a colheita divide cenário com vegetação nativa cercando nascentes que foram recuperadas e se mantêm preservadas

Uma nascente é o ponto de partida da vida de um rio: é dali que a água surge, alimenta córregos, forma riachos e garante o fluxo que abastece reservatórios, irriga plantações, sustenta a fauna e chega às torneiras das cidades. Preservar uma nascente é proteger todo um ecossistema. Quando ela seca, toda a cadeia hídrica é afetada, com impactos diretos no abastecimento urbano, na agricultura e na biodiversidade.

“ Eu sou um eterno apaixonado pela produção de água. E eu acho que é um dever, uma obrigação, cuidar desse patrimônio” Darcy Ferrarin, produtor de soja

Entendendo isso, o produtor rural de Sorriso, Darcy Ferrarin, iniciou um trabalho primoroso de recuperação há décadas. Ao comprar a Fazenda Santa Maria, em 1998, encontrou uma propriedade com predominância de pasto e nascentes devastadas. Desde então, vem conduzindo um processo contínuo de revitalização, transformando o cenário ao redor.

“Eu sou um eterno apaixonado pela produção de água. E eu acho que é um dever, uma obrigação, cuidar desse patrimônio ou daqui a 100, 200 anos, não vamos mais ter água potável. Quando assumi a fazenda, as nascentes estavam muito degradadas, porque o boi vinha beber água na nascente. Quando comprei, parei com a pecuária e passei, então, a organizar a fazenda. Fomos reflorestando lentamente até chegar ao ponto que estamos hoje, com todas as cabeceiras d’água preservadas”, relata. Rodinei Crescêncio/Rdnews

O produtor rural Darcy Ferrarin conta sobre a preservação de 28 nascentes dentro de sua fazenda

Na propriedade, foram reflorestados 72 hectares só em cabeceira d’água. Mais de 20 anos depois, os impactos são visíveis e áreas reflorestadas dividem espaço com os 8 mil hectares de plantação de soja. As mudas se tornaram grandes árvores que fazem um cerco de proteção entre lagos e linhas d’água, todos formados pelas pequenas minas que brotam da terra. “ Fomos reflorestando lentamente até chegar ao ponto que estamos hoje, com todas as cabeceiras d’água preservadas” Darcy Ferrarin, produtor de soja

A água acumulada desemboca por toda a propriedade, caindo em forma de pequenos riachos, fazendo parte de um cenário sustentável e de amor pela natureza. Hoje, é possível ver locais que antes eram secos serem cobertos por água.

“Toda a água que nasce aqui na Santa Maria desemboca no Rio Teles Pires. Então, hoje temos uma produção de água que é um orgulho para mim”, fala Darcy.

A preservação mostra resultados também no equilíbrio ambiental do local. Animais que muitas vezes fogem de propriedades rurais – principalmente quando são alvos de caça –, nas terras de Darcy se sentem em casa – pois, de fato, estão. Em uma volta pela propriedade, a equipe do encontrou diversos animais na lavouras, como capivaras, antas, emas e outras aves. Darcy já encontrou de tudo – outro dia se deparou com uma onça-pintada e até uma jiboia. E ele diz que ali todos são bem-vindos e preservados.

“A preservação de todos os animais, de todas as espécies, faz parte da natureza. Por isso, aqui proibimos matar qualquer espécie de animais. Temos que respeitar a cadeia como um todo. Preservar a natureza compensa”, defende. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Com nascentes preservadas e equilíbrio ambiental, animais silvestres dividem espaço com lavoura de soja em fazenda

O impacto de seu trabalho é tão grande que já chegou nas escolas da região. O produtor faz parte do programa “Sorriso Vivo”, em parceria com o Clube Amigos da Terra (CAT). O projeto é voltado para educação ambiental. Nele, grupos de alunos vão até a fazenda para aprender sobre as nascentes e sobre preservação. 

“O que temos que fazer para termos o meio ambiente preservado lá na frente? Ensinar as crianças, porque os velhos vão embora. O pensamento de destruir, caçar, de não preservar, tem que ser extinto”, diz. CAT Sorriso

Crianças participam de projeto de educação ambiental no Sorriso Vivo na Fazenda Santa Maria e aprendem sobre a preservação das nascentes

Guardiões das Águas nos quatro cantos de MT

Assim como Darcy, outros produtores rurais têm feito o trabalho de conservação de nascentes pelo estado. A Associação de Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) mapeou, desde 2018, com a criação do programa Guardião das Águas, 105 mil nascentes em 56 municípios mato-grossenses. Dessas, 95% encontram-se em bom ou ótimo estado de conservação, segundo a entidade. O projeto tem como objetivo promover a conservação das nascentes por meio da identificação, mapeamento e classificação do estado de preservação, utilizando geotecnologias com o sensoriamento remoto. A expectativa é que, neste ano, o projeto se expanda para mapear e classificar nascentes em mais 22 cidades de Mato Grosso. “ A preservação e o equilíbrio do meio ambiente fazem bem para o agronegócio” Sandro Luiz Mick, delegado da Aprosoja do núcleo de Vera

O delegado da Aprosoja do núcleo de Vera, Sandro Luiz Mick, conta que precisou cercar e reflorestar a área das nascentes de sua propriedade quando a assumiu. No local, como é muito comum nesses casos, era realizada a pecuária extensiva pelo proprietário anterior. Ele tem visto esse trabalho de recuperação com um olhar positivo.

“A preservação e o equilíbrio do meio ambiente fazem bem para o agronegócio. Isso porque o agro precisa de um ambiente equilibrado. Para não ter problemas com pragas, por exemplo. Em uma área onde existe a fauna preservada, a onça é inimiga natural do porco-do-mato, que tanto prejudica a plantação. Em uma propriedade onde o produtor extinguiu o contato com o gavião, com o falcão, com a cobra, ele passa a ter problema com ratos. Então, aprendemos que é mais viável preservar do que eliminar”, pontua. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Nascentes recuperadas e preservadas formam lagos e cursos d’água em fazenda

O produtor rural Sérgio Santos, de Marcelândia, também precisou fazer o reflorestamento em sua fazenda, cumprindo a exigência de vegetação nativa em um raio de 50 metros da margem das nascentes. Ele avalia que esse espaço de conservação acaba sendo mais um ganho que uma perda. “  O produtor hoje é o maior interessado na sustentabilidade e não quer ser o vilão” Sérgio Santos, produtor rural de Marcelândia

“As margens das nascentes não são vantajosas para o plantio, porque são terras mais fracas e inconsistentes pra agricultura. O que nós precisamos hoje é do equilíbrio, impulsionar a sustentabilidade de dentro do nosso estado. E essa é uma das formas. Nós precisamos de água para a própria produção. Então, com certeza, o produtor hoje é o maior interessado na sustentabilidade e não quer ser o vilão”, defende.

O produtor e delegado do núcleo de Nova Mutum, Marcos Vinícius Sfredo, de 24 anos, hoje dá sequência ao legado da família com um pensamento voltado para a sustentabilidade. Para ele, o agro é uma força que transforma não só a terra, mas toda a comunidade, e é possível aliar a produção alimentar ao cuidado com o meio ambiente para essa e as próximas gerações. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Nascentes recuperadas e preservadas formam lagos e cursos d’água 

“Quando começamos a cuidar da nascente, tivemos que colocar uma cerca em volta da área para que os animais não invadissem mais o local, e colocar plantas específicas da tipologia daquela floresta nativa, para a mata se regenerar. Já faz uns 12 anos que começamos esse trabalho, então a vegetação já se regenerou completamente”, relata. Além de ser visível a mudança na natureza, Marcos também analisa: “Preservar a mata, ter sua reserva, vai te auxiliar a ter mais produtividade e ser sustentável socialmente, ambientalmente e financeiramente”.

Trabalho a longo prazo

A preocupação com as nascentes tem mobilizado também outras entidades. Em Sorriso, o CAT também tem desenvolvido um trabalho primoroso de recuperação: “Águas do Lira – Seja Amigo das Nascentes”.

O engenheiro florestal e mestre em Ciências Ambientais, Everton José de Almeida, faz parte do projeto e traz um olhar técnico a esse trabalho de transformar áreas degradadas em fontes de vida. O foco é cuidar das nascentes do Rio Lira, que nasce e termina em Sorriso. Um diagnóstico foi feito em 2019: das 109 nascentes identificadas na região, 60 apresentavam algum nível de degradação. Desde então, o CAT corre atrás de parceiros, faz o mapeamento em campo e orienta fazendeiros a se tornarem também amigos do Lira – e, automaticamente, “guardiões das águas”. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Lavoura de soja divide cenário com vegetação nativa cercando nascentes que foram recuperadas e

O trabalho é um processo lento e a longo prazo. Para a área chegar em um estágio inicial de se manter sozinha, leva de 3 a 5 anos. Dessa forma, desde 2021, quatro nascentes em fazendas de Sorriso já foram completamente recuperadas e outras duas estão em revitalização.

O trabalho começa dentro das propriedades: Everton, junto com a equipe do CAT, visita fazendas, avalia o nível de degradação e indica a técnica mais eficaz para regenerar a vegetação nativa, seja isolando a área para deixar a natureza se recompor sozinha, seja plantando novas mudas. Em alguns casos, o processo revela surpresas. “Existem situações em que a nascente muda de lugar. Com o desmatamento, ela seca onde estava e reaparece mais abaixo. É por isso que é tão importante manter o solo coberto, com vegetação, para evitar erosão e o desaparecimento da água,” detalha o engenheiro. CAT-Sorriso

O engenheiro florestal Everton José de Almeida faz a plantação de mudas de vegetação nativa para recuperar nascentes em fazendas

Além do trabalho técnico, há o lado comunitário: empresas parceiras adotam financeiramente uma nascente, ajudando a custear o plantio, a mão-de-obra e as cercas para proteger o local. O produtor rural, por sua vez, precisa abrir mão de usar aquele pedaço de terra e se compromete a cuidar do espaço pelos próximos anos. “ É de interesse do produtor melhorar a qualidade e a disponibilidade da água” Everton Almeida, eng. florestal 

“A legislação exige vegetação em um raio de 50 metros a partir do ponto onde a água brota. Depois que a mata se restabelece, o proprietário é quem assume a responsabilidade de manter tudo protegido: não deixar entrar gado, fogo, maquinário. É um compromisso que garante a infiltração da água no solo e alimenta o lençol freático que sustenta a nascente,” resume Everton.

Para ele, o resultado é um ganha-ganha: “A agricultura depende cada vez mais de irrigação. Então, é de interesse do produtor melhorar a qualidade e a disponibilidade da água dentro da própria fazenda. É bom para o meio ambiente e é bom para ele”, diz.

O engenheiro foi quem ajudou, inclusive, a reflorestar as 72 hectares de terra do Seu Darcy Ferrarin. Depois de plantar, ele ainda ficou por dois anos monitorando as mudas, até que elas atingissem um tamanho adequado. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Com nascentes preservadas e equilíbrio ambiental, animais silvestres dividem espaço com lavoura de soja em fazenda

Everton faz questão de explicar o porquê da vegetação ser tão crucial nesse processo. “A principal função da vegetação é possibilitar a infiltração e retenção da água no solo. O sistema de raízes faz a água chegar de forma mais lenta no solo e ficar armazenada no lençol freático, que sustenta a nascente. Quando você tira a vegetação, a água passa mais rápido. É igual jogar água no asfalto ou na terra. No asfalto, bate e vai embora. Na terra, infiltra”, compara. “ Nós cuidamos das propriedades, cuidamos das nascentes, dos animais silvestres” Darcy Ferrarin, produtor de soja

A nascente é o ponto de extravasamento da água. É um ambiente mais sensível, de solo mais solto e mais úmido. Quanto maior a umidade, mais fácil de se desmanchar. “Por isso, se você não tem o cuidado, inicia-se um processo de erosão. A nascente pode mudar de lugar, entupir, acumular sedimento em cima dela a ponto de a água não vazar mais. Se é uma nascente fraca, ela deixa de existir”, alerta.

Para auxiliar o projeto, foi inaugurado o Viveiro de Mudas Nativas “Cultivando Vida Sustentável”. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e o CAT, para conseguir produzir, em torno de 20 a 30 mil mudas de espécies nativas por ano, para utilização na recuperação de áreas degradadas. Conforme explica o engenheiro, são usadas em torno de 2.200 mudas por hectare de área a ser reflorestada, por isso a importância de ter mudas típicas da região a um menor custo e maior disponibilidade. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Nascentes recuperadas e preservadas formam lago na Fazenda Santa Maria, em Sorriso

Diante de tantas iniciativas – de produtores, entidades e instituições –, o agricultor Darcy Ferrarin encerra afirmando que ainda vê uma resistência e uma visão deturpada em relação ao agro e defende uma ideia diferente: “Em todas as atividades, há bons profissionais e profissionais ruins. Mas eu te digo, 90% dos produtores brasileiros são os verdadeiros ambientalistas. Nós cuidamos das propriedades, cuidamos das nascentes, dos animais silvestres. E eu tenho certeza que nesse rumo, passando as mensagens para a juventude, para as crianças, para as próximas gerações, lá na frente vamos estar ainda melhor do que hoje”.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

Link da Matéria – via RD News

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