
Rodinei Crescêncio/Rdnews
O golpe do “falso advogado” está cada vez mais refinado. A presidente da OAB-MT, Gilsela Cardoso revela que criminosos também estão se passando por promotores de Justiça e juízes para tentar ludibriar pessoas. Além disso, criminosos passaram a utilizar as ferramentas de inteligência artificial (IA) para tornar o golpe cada vez mais difícil de ser identificado. “Eles ligam e dizem: Olha, eu sou o promotor do seu caso. É juiz mandando mensagem… Estão avançando, já estão saindo do advogado, estão indo pro juiz, pro promotor”, revela Gisela, durante entrevista especial ao .
A presidente da OAB ressalta que tem orientado os juristas de Mato Grosso a enviar mensagens aos clientes pedindo que não repassem nenhum valor sem que haja esse contato direto com o seu advogado, de preferência de forma presencial no escritório ou que converse com ele apenas pelo número de telefone que já tenha mantido contato anteriormente. “Desconfie de qualquer número novo que te ligue. Eu recebi aqui de uma advogada um áudio que enviaram para o cliente dela com a voz dela, trabalhada na inteligência artificial”, alerta.
Gisela reflete que o cliente é levado a acreditar no criminoso porque ele que usa a voz do advogado e apresenta também documentos sobre o processo, o acompanhamento processual e a petição inicial. “As pessoas enchem os olhos quando falam: ‘Oha, você ganhou 200 mil. Mas, para você receber os seus R$ 200 mil, você tem que apostar R$ 50 mil’. A pessoa fica louca, faz um empréstimo para poder pagar [o valor] na expectativa, às vezes, porque o processo corre há anos. Na ansiedade de ver o resultado, termina fazendo transferência, infelizmente”.
A presidente da Ordem alerta que o formato da organização criminosa é detalhada e que há a suspeita, inclusive, do aliciamento de advogados que atuariam nessa linha de “produção” do golpe. “Às vezes até advogados, infelizmente, acessam o token, que é um dos acessos mais sensíveis. A polícia vem aí buscando identificar até envolvimento de advogados, servidores, com as informações”, revela.
Engenharia criminosa
Gisela explica que após essa fase de “filtro” das potenciais vítimas – momento em que são captadas informações detalhadas das pessoas e dos processos – entra em campo a equipe que faz o contato com as potenciais vítimas.
O golpe é tão refinado que os criminosos utilizam o mesmo vocabulário dos juristas, dificultando que a vítima note que está caindo em um golpe. O último passo é o recebimento do dinheiro, que rapidamente é pulverizado, dificultando que se encontre os rastros da quadrilha.
“Há quanto tempo a gente não ouve falar em assalto a banco. Assalto a mão armada em banco, como tinha antigamente. Eles estão dentro dos escritórios, seguros, no ar-condicionado, com equipamento muito bom. Se num dia ele consegue ali, R$ 3 mil, R$ 4 mil que caiu, R$ 5 mil, 10 mil, está garantido. Tem gente que é bem mais, né?”
Medidas em debate
Diante dessa situação, Gisela ressalta que está em debate mudanças no acesso aos processos públicos para que a vida dos golpistas não seja tão fácil. Ela explica que as ações sempre foram públicas, mas que, quando eram físicas, esse tipo de situação era mais difícil de ocorrer porque era necessário ir até o Fórum.
“Como é que os golpistas chegam até as vítimas? Eles buscam nos processos judiciais, acessando através do processo eletrônico, do PJE. Tiram informações ali dentro do processo e vão na vítima. A gente tem que trabalhar junto aos tribunais para restringir o acesso às informações sensíveis”, defende, frisando que o debate é nacional. Medida, segundo Gisela, visa dar maior segurança para todas as partes envolvidas.
A presidente da Ordem revela que mais de 2 mil Bos já foram registrados, mas que o número de vítimas do golpe pode ser bem maior, porque muitas pessoas acabam não registrando a ocorrência. “Meu nome já rodou por aí com foto minha… Acho que é difícil um advogado hoje que não teve o seu nome utilizado nessas tentativas de golpes”, desabafa.
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