Não me frustro e vou prender quantas vezes precisar, diz delegado sobre golpes

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

O delegado Pablo Carneiro, da Delegacia Especializada de Estelionato de Cuiabá é enfático ao alertar a população da Baixada Cuiabana quanto às modalidades de golpes que se inovam todos os dias, afirmando que é necessário sempre se manter alerta para não se tornar uma vítima. Entre os tipos mais recorrentes atualmente estão os golpes dos falsos intermediários, falsos advogados, falsos membros de facção, entre outros. Durante visita e entrevista ao , Pablo colocou a Capital mato-grossense como uma das principais cidades onde a mente criminosa tem encontrado vítimas “vulneráveis”, mas frisou que a polícia tem feito seu trabalho, assegurando que as ações de retaliação buscam penalizar todos os envolvidos participantes nos esquemas, imputando crimes para além do estelionato, como extorsão, organização criminosa e outros, atingindo até mesmo os “laranjas” que emprestam contas para pulverizar valores adquiridos de maneira criminosa, tendo como objetivo aumentar a pena dos criminosos. Para ele, não há frustação quanto a”enxugar gelo” ou sensação de impunidade, destacando que é o seu trabalho prender criminosos – quantas vezes for necessário. 

Confira, abaixo , os principais trechos da entrevista
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Uma vez eu escutei um ditado que diz que se tem um golpe rodando pelo mundo, ele tem no Brasil. Dá para dizer isso? 

Olha, aqui o pessoal é especialista. E aqui, Cuiabá também, a gente vê grandes centros assim. Cuiabá e Goiânia são desses golpes que envolvem engenharia social –  baixa tecnologia e muita engenharia social. Cuiabá e Goiânia são dois centros que possuem bastante criminosos na aplicação desses golpes. 

Envolve muita gente, né, delegado? Pelo que a gente vê nas operações, eles conseguem dar um golpe e rapidamente pulverizar o dinheiro com o uso de laranjas. “ Cuiabá e Goiânia são dois centros que possuem bastante criminosos na aplicação desses golpes” Pablo Carneiro

Todo golpe que a gente aprofunda ali, a gente consegue esbarrar na estrutura de organização criminosa. Por quê? Exatamente como você falou. A pessoa que entra em contato com a vítima é uma. A função dessa pessoa é só essa. Aí você tem uma outra pessoa que é responsável por fazer – por exemplo, nesse golpe do falso intermediário – a coleta desses dados e faz a postagem nas plataformas. Essa pessoa só faz isso. Tem uma outra pessoa que faz a cooptação de contas de terceiro para poder disseminar.

Aí você tem aquelas pessoas também que emprestam a conta sabendo que são para o crime. Então, todas as pessoas integram a estrutura da organização criminosa. Inclusive essas pessoas que só emprestam a conta. “Eu ganhei R$ 150 para vender minha conta”. Azar o seu. Você vai responder por todos os crimes e vai ter concessão patrimonial de todos os valores que a gente foi identificar de crimes. Então, por isso que às vezes a gente vê diversas prisões ali de um número grande de suspeitos que só venderam a conta, mas é o suficiente para a prisão preventiva deles. 

Os policiais costumam dizer que se sentem um pouco frustrados com a legislação. A gente sabe que, infelizmente, as leis para o estelionato são muito brandas. Há muita reincidência, inclusive. Isso frustra?  “ Se eu tiver que prender a pessoa três, quatro vezes, eu vou prender, sem problema nenhum, porque a Polícia Civil está aqui para isso” Pablo Carneiro

Particularmente, a mim não. Mas tem um detalhe. Aqui na Delegacia de Estelionatos, a Polícia Civil do Mato Grosso adotou uma estratégia que tem sido bem eficaz. A gente não trabalha o estelionato como um crime só isolado, até porque manter a prisão preventiva de um estelionatário só no crime de estelionato, [com base] no artigo, é difícil. Mas, como eu disse, como a gente tem essa estrutura de organização criminosa, nós temos um outro crime já bem grave, que é o crime de integrar organização criminosa.

E um outro crime também que é recorrente e é intrínseco a essa estrutura é o crime de lavagem de capitais. Por quê? Quando a pessoa começa a pulverizar esses valores em várias contas, só essa pulverização já caracteriza o crime de lavagem. Então, não trabalho só com o estelionato. Eu trabalho, no mínimo, com o estelionato, a lavagem e integrar organização criminosa. E, por conta disso, os presos aqui de Cuiabá, das operações nossas, são presos, sim, em prisões temporárias, prisões preventivas, respondem a processos. Alguns podem sair, não tem problema. Eu não me frustro quanto a isso. Se eu tiver que prender a pessoa três, quatro vezes, eu vou prender, sem problema nenhum, porque a Polícia Civil está aqui para isso. 

Falando sobre esses golpes dos falsos intermediários, a gente vê que constantemente há operações da polícia em relação a isso. Qual  a mudança que os golpistas têm feito para continuar enganando as pessoas, já que é um golpe tão divulgado? Ou as pessoas caem na mesma modalidade, apesar de todos os alertas feitos pela Polícia? 

Infelizmente as pessoas continuam caindo nesse golpe. Ele é muito comum, a gente vê esse golpe muito comum na questão de anúncios de veículos – automóveis, motocicletas, nessas plataformas digitais de anúncios, é muito comum. Só que a gente percebe que eles mudaram um pouquinho. Antigamente, eles colocavam um preço bem abaixo, bem atrativo. Agora, já não colocam mais esse valor abaixo, colocam valor de mercado mesmo. Mas o modus operandi continua sendo o mesmo. A pessoa sempre vai, o comprador e o vendedor acabam fazendo contato com esse golpista. Ele pede: “Olha, esse carro eu ‘tô comprando ele para o meu cunhado, ele vai ver o veículo aí. Não conversa com ele, conversa comigo”. E para pessoa que está vendendo, é a mesma coisa: “Olha, eu vou passar esse carro numa dívida aqui para um funcionário meu, que eu tenho com ele. Então não conversa muito e tal, porque eu vou passar com um valor maior”. E assim, acaba que as duas pessoas [caem no golpe], a gente entende que as duas são vítimas. O vendedor e o comprador são ludibriados ali por esse intermediário, que é o golpista.

A pessoa que está vendendo, ela faz um anúncio. E aí o golpista entra em contato: “Olha, eu quero esse carro. Pode tirar o anúncio do ar, esse carro é meu e tal, vou te pagar, beleza?”. Só que nesse meio tempo ele já clonou esse anúncio. Ele pegou todas as imagens ali e fez um novo anúncio. E aí a pessoa que vai comprar não vê o anúncio real. Ele já viu o anúncio do golpista e faz contato com o golpista. Rodinei Crescêncio/Rdnews

Jornalista Patrícia Sanches entrevista delegado Pablo Carneiro

Antigamente, a gente falava que a pessoa era ludibriada pelo preço. Ela tinha o ímpeto de já pagar, de já fazer o Pix porque pensava que estava fazendo um grande negócio. Agora o senhor está dizendo que isso mudou. Então está mais difícil? 

Exatamente, o golpista já não coloca um valor muito abaixo porque isso aí já chama atenção. As pessoas, em relação a isso, já prestaram atenção. Só que assim, é curioso que hoje eles não estão fazendo só com veículos. Nós temos vários casos lá que eles estão fazendo também com imóveis. Eu tenho o caso de uma senhora que foi comprar um sítio e perdeu R$ 250 mil nessa mesma modalidade. Compra de gado, de animais. Então assim, eles estão diversificando, sempre modificando o golpe – um detalhe ou outro – para poder enganar mais pessoas.

Nesse golpe a gente sempre sugere que, se eu estou comprando um veículo do José, eu tenho que fazer o pagamento para o José. Então, não existe justificativa para fazer o pagamento paa um outro titulado bem. Se a pessoa já tomar esse cuidado aí, 90% do golpe já cai por terra. E outro detalhe também que a gente fala é que as duas partes que estão envolvidas ali devem manteer uma conversa franca e aberta entre eles, para poder não ser ludibriado por esse intermediário. 

A gente tinha, antigamente, aquele hábito de fazer a transferência do carro e aí pagar o carro: lá no cartório você faz a transferência junto com o documento. Muitos acham que é exagero, mas alguns cuidados podem salvar, desde que você vá no cartório e faça o pagamento para aquele titular do bem. Aí você vai estar ali bem, como a gente fala, coberto e alinhado para evitar cair nesse golpe. 

Outra coisa que está acontecendo muito, delegado, e que as pessoas ficam desesperadas, é o golpe das facções. Como que as pessoas chegam nessas vítimas? É nesses vazamentos de dados que eles escolhem as vítimas? Porque, pelo que a gente ouve falar, eles sabem detalhes da vida das pessoas e é por isso que as vítimas ficam com medo.

Vários desses golpes que acontecem no ambiente virtual – estelionados eletrônicos, fraudes eletrônicas – os suspeitos se valem de algumas plataformas ilegais que compilam todos esses dados vazados, informações sigilosas, e por um baixo valor ele consegue ter acesso a todas essas informações. E é exatamente isso que os golpistas utilizam pra aplicar o golpe das facções, que está muito na moda agora. O golpe do número novo, do WhatsApp também, que é um golpe muito aplicado aqui em Cuiabá. Os golpistas utilizam exatamente essas informações que estão nesses sites. Infelizmente, a gente tem uma dificuldade em combater esses sites, porque não adianta a gente só tirar do ar. Tirar do ar é fácil, porque a pessoa sobe a hospedagem para um outro endereço muito rapidamente. Então, a função correta é identificar quem está hospedando esse site. E, via de regra, a Polícia Federal também tem uma atuação muito forte nessa identificação dos suspeitos que mantêm esses sites clandestinos.

E as pessoas têm medo de procurar a polícia, né? Porque acham que, de fato, estão sendo alvo do Comando Vermelho, do PCC, enfim, de facções que são muito perigosas.  “ A gente vê que cada dia um golpe tem uma modalidade, cada dia a gente tem um monitoramento do nosso núcleo de inteligência, identificando todos os golpes” Pablo Carneiro

Exatamente. A gente alerta que existem, de fato, algumas extorsões que são feitas por essas facções, extorsões verdadeiras, e existem os golpes. Mas, nos dois casos, a orientação é a mesma. Procurar imediatamente a Polícia Civil e não realizar nenhum tipo de pagamento. A primeira orientação é procurar a Polícia Civil. Aí o trabalho investigativo vai verificar se é um golpe ou se, de fato, é uma extorsão, e encaminhar para unidade responsável para poder fazer a operação. 

Esse tipo de golpe das facções também acontece com empresários, comerciantes, que às vezes são procurados para fazer a tal da “caixinha” – e aí descobrem que é um golpe? 

Como eu disse, existem essas extorsões reais por algumas facções em algumas determinadas localidades, visando exatamente empresários da localidade para pagar uma taxa. E existem também os golpes, onde não há a participação de uma facção criminosa. A gente fala que é uma organização criminosa por conta da estrutura do golpe, mas não, de fato, uma organização criminosa que vai cometer aquele mal caso a pessoa não faça aquele pagamento. Mas, repito: em qualquer hipótese, a primeira orientação é procurar a Polícia Civil e relatar todo o ocorrido para gente delimitar se é um golpe ou se é uma extorsão, de fato, por parte de uma organização criminosa.

Com o avanço das tecnologias, inteligência artificial, todas essas ferramentas, está cada vez mais difícil que a pessoa perceba que é um golpe e que a Polícia chegue nessas pessoas? É uma corrida contra o tempo? 

A evolução da tecnologia, o uso de intelegência artificial, o “deepfake” lá para modulação de voz e até de imagem, isso vem e facilita a vida da sociedade, só que os criminosos aproveitam desses mecanismos para poder deixar os golpes mais rebuscados e ludibriar ainda mais as vítimas. A Polícia Civil vem se atualizando em relação a isso, com as investigações tecnológicas, as investigações telemáticas, para poder combater de maneira mais eficaz esse tipo de golpe. Mas é complexo. A gente vê que cada dia um golpe tem uma modalidade, cada dia a gente tem um monitoramento do nosso núcleo de inteligência, identificando todos os golpes. Quando não tem uma semana que tem um golpe novo, tem uma modificação e um golpe que já existe, mas os bandidos sempre estão inovando.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Delegado, aquele golpe do falso sequestro ainda está na ativa, ainda faz muita vítima ou deu uma enfraquecida? 

Alguns golpes são caracterizados em algumas localidades do Brasil e em algumas determinadas épocas. Esse golpe específico do falso sequestro já tem um tempo que a gente não tem notícia dele, pelo menos aqui em Cuiabá. Eu falo porque com esses adventos de inteligência artificial, agora vai ficar cada vez mais complexo. Pode ser que mude, um golpe que já não existia, daqui a pouco volta com esse incremento de inteligência artificial.

Tem algum outro golpe que está na moda, angustiando a Polícia, e que o senhor gostaria de alertar aos nossos leitores?

Um golpe que tem feito bastante vítimas aqui em Cuiabá, e em Mato Grosso, é o golpe do falso advogado. A gente alerta, a gente tem feito bastante campanhas, a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] mesmo tem feito vários vídeos educativos, porque as informações que eles chegam para a vítima são verdadeiras, são processos que de fato essa vítima já ingressou e está ali aguardando uma decisão. E esses golpistas têm acesso a todas as informações, inclusive o valor que foi liberado. Então, eles passam uma credibilidade muito grande e em alguns casos, inclusive, até fazem uma videochamada, montam um ambiente de uma sala de audiência, tem uma pessoa que se passa, às vezes, até por um juiz e faz contato com a vítima. Então, assim, são informações que levam, não só aquela pessoa mais simples, mas até pessoas que têm um grau de instrução elevado, que possuem, às vezes, funções públicas relevantes. Todos acabam caindo nesse golpe. Esse já é um golpe mais refinado.

A gente sempre alerta para as pessoas: cuidado, sempre tenha cuidado. Se a pessoa está se passando por um advogado, então ligue para o seu advogado, que você tem contato com ele, ou vá no escritório dele, vá conversar pessoalmente, porque às vezes são ações que você demorou ali, está demorando 10 anos para receber esse valor, então não custa esperar um pouquinho, mais uma ou duas horas, ter esse contato certo com o seu advogado. A pessoa que está se passando por seu advogado – faz uma videochamada para ele, confirma se de fato ele é esse advogado mesmo, vá até o escritório. São alguns cuidados que valem a pena para não cair nesse golpe, porque tem feito muitas vítimas aqui no Estado de Mato Grosso. 

Isso é igual à questão dos bancos. Recebeu a ligação? Então liga para o seu gerente de verdade, vai na agência de verdade. Liga, vai na agência, entre com aquele contato que você tem na sua agenda ali com o seu gerente. Nesse caso, a engenharia social é fundamental para poder a concepção desse golpe. 

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Delegado, as pessoas estão indo até a polícia, seja um golpe pequeno ou não? Ou às vezes a pessoa fica até com vergonha por ter caído num golpe e deixam isso para lá?

Isso acontece demais [de se envergornhar]. A gente tem um protocolo de atendimento mais humanizado para as vítimas, porque a gente sabe que muitas delas realmente têm vergonha de ir lá. Mas a polícia trabalha com informação, com dados. Isso é muito importante para a gente, porque às vezes você foi vítima de um golpe, pode ser um valor pequeno, mas essas informações que você tem ali, do número, de algum detalhe, isso vai ajudar, às vezes, numa investigação muito maior, que vitimou outras pessoas. 

Qual é a “dica de ouro” que o senhor dá para que o leitor evite se tornar a próxima vítima de um golpista?

Desconfie. Desconfie de tudo. Tudo que for transação eletrônica, tenha um cuidado a mais, não vá no automático. Você, às vezes, tem algum amigo, o cara fala “consegue me emprestar R$ 100?”. Então, pede: “Deixa eu ver você. Liga para mim aqui, vamos ver”. Às vezes você tem um amigo que você já tem a chave Pix dele. Tenha esse cuidado, tenha calma. Qualquer transferência, não faça nada correndo. A questão do [golpe do falso] advogado: vá na delegacia, pegue uma orientação antes de fazer alguma transferência. Nós temos policiais em todas as unidades da Polícia Civil que são orientados a dar um esclarecimento melhor para a população.

Link da Matéria – via RD News

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