
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Nos corredores do Congresso Nacional, símbolos sempre tiveram peso. É comum que gestos, falas e imagens transcendam o momento e passem a representar ideias, valores ou disputas. Na última semana, vimos um desses gestos ocupar o plenário da Câmara dos Deputados: deputados da oposição tamparam a própria boca em sinal de protesto.
A imagem correu o país. Foi replicada nas redes sociais, noticiada por portais, defendida por uns e ironizada por outros. Mas o que, de fato, significa esse gesto? O que ele representa dentro do jogo democrático? E, principalmente, o que ele revela sobre o estágio atual da comunicação política no Brasil?
O silêncio como espetáculo
Ao tamparem a boca, os parlamentares não estavam sendo silenciados. Pelo contrário, estavam fazendo uso estratégico de uma encenação para comunicar uma ideia: a de que estariam sendo impedidos de se manifestar, de participar do debate, de influenciar nas decisões do Parlamento.
A mensagem visual é poderosa. Remete à censura, à opressão, ao autoritarismo. Mas a realidade é outra: o microfone da oposição nunca esteve desligado. O que há é uma recusa sistemática ao diálogo, um boicote contínuo às pautas em debate e uma tentativa clara de paralisar o processo legislativo como forma de barganha política.
Essa inversão de sentido — onde quem se recusa a debater se apresenta como vítima de silenciamento — é um recurso cada vez mais comum em tempos de redes sociais e marketing político performático. A obstrução deixou de ser apenas uma ferramenta regimental e passou a ser também uma peça de teatro, pensada para gerar corte, engajamento e narrativa.
A obstrução como tática e como vício
Obstruir é legítimo. Faz parte do jogo político. Quando bem utilizada, pode impedir retrocessos e alertar para decisões precipitadas. Mas quando se torna rotina — e se transforma em um fim em si mesma — deixa de ser ferramenta democrática e passa a ser estratégia de sabotagem.
O que vimos nos últimos dias não foi oposição responsável, propositiva, estratégica. Foi birra institucionalizada. Um movimento que abre mão de influenciar a política para tentar travá-la, e que prefere o palco do Instagram à arena do Parlamento.
A consequência mais grave dessa postura não recai sobre o governo, mas sobre o povo. Ao tentar impedir o funcionamento da Câmara, a oposição posterga votações cruciais. Leis importantes para a educação, para a economia, para a proteção social e para a juventude deixam de avançar. Não é o governo que fica sem voz — são os brasileiros que seguem à espera de soluções.
Comunicação política: entre o engajamento e a responsabilidade
Na era da política-espetáculo, cada gesto é medido pelo alcance que pode ter nas redes. A oposição sabe disso. Ao tamparem a boca, os deputados não falavam com os colegas em plenário. Falavam com seus seguidores no X, no Instagram e nos grupos de WhatsApp.
O problema é que a comunicação política precisa ir além da estética. A forma precisa servir ao conteúdo — e não escondê-lo. Quando o gesto vazio substitui o argumento, quando a performance substitui o projeto, a política se enfraquece. E o eleitorado percebe.
A política de verdade se faz com escuta, com debate, com enfrentamento de ideias. Não com dancinha no TikTok nem com protestos vazios de substância. A comunicação política pode (e deve) ser estratégica, mas nunca desonesta. A narrativa pode ser emocional, mas não pode ser manipuladora.
A quem interessa travar o país?
É preciso refletir: quem lucra com a paralisia institucional? Quem se beneficia do clima permanente de instabilidade? E, principalmente, quem está disposto a apostar na destruição do debate como forma de se manter visível?
Democracia não é capricho. É construção coletiva. É disputa de ideias, sim, mas com a intenção de avançar, de decidir, de representar a sociedade. Quem está no Parlamento precisa lembrar que foi eleito para legislar, não para viralizar.
O Brasil precisa de mais vozes, não de mais silêncio
Enquanto alguns se calam de forma simbólica, quem de fato segue sem voz é o jovem sem acesso à educação, é a mãe que espera políticas públicas reais, é o trabalhador que precisa de um Congresso atuante.
O país precisa de pontes, não de trincheiras. De diálogo, não de teatralizações. De parlamentares comprometidos com o interesse público — e não com os algoritmos.
A democracia brasileira é forte. Mas precisa de representantes à sua altura. Que saibam falar, mas também escutar. Que saibam divergir, mas também construir. E que tenham coragem de fazer política com “P” maiúsculo — mesmo que isso não gere curtidas, mas gere resultado.
Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

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