Mais de 500 trabalhadores são resgatados de condições análogas à escravidão em MT

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Mais de 500 trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão na obra da TAO Construtora, em Porto Alegre do Norte (a 1.125 km de Cuiabá). A ação foi realizada por uma força-tarefa composta pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de Mato Grosso, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Polícia Federal (PF). As investigações foram intensificadas após os funcionários atearem fogo no alojamento da empresa , em protesto por melhores condições de trabalho.

Segundo o MPT-MT, foram resgatados 563 trabalhadores. Eles são naturais, majoritariamente, do Maranhão, Piauí e Pará.

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As inspeções realizadas pela força-tarefa nos alojamentos e locais de trabalho constataram condições degradantes e inúmeras violações às normas de saúde e segurança do trabalho. Durante as audiências administrativas realizadas entre 30 de julho e 5 de agosto de 2025, foram ouvidos trabalhadores e representantes da empresa, cujos depoimentos teriam confirmado as violações dos direitos trabalhistas.

As condições dos alojamentos eram extremamente precárias, segundo o MPT. Os trabalhadores dormiam em quartos superaquecidos, com apenas um ventilador para quatro pessoas, recebendo apenas um lençol fino para cobrir colchões usados e de má qualidade.

Conforme o MPT, não eram fornecidos travesseiros, fronhas ou roupas de cama adequadas. A superlotação seria evidente, com alguns trabalhadores chegando a dormir no chão, sob mesas, quando não havia camas disponíveis.

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A situação se agravou nas semanas que antecederam o incêndio, quando problemas no fornecimento de energia elétrica se tornaram frequentes. Segundo o MPT, a falta de energia causava a interrupção do bombeamento de água dos poços artesianos para as caixas d’água, deixando os trabalhadores sem água para consumo e higiene pessoal.

Os depoimentos revelaram que, nos dias anteriores ao incêndio, os trabalhadores teriam tomado banho com canecas e enfrentado filas enormes para usar os banheiros, que estavam sujos devido à falta de água.

No dia do incêndio, a situação teria atingido um ponto crítico quando a empresa foi obrigada a utilizar caminhões-pipa para buscar água do Rio Tapirapé, fornecendo água turva e inadequada para consumo nos bebedouros.

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A precariedade das condições de trabalho e alojamento, somada à falta de água e energia por dias consecutivos, criou um ambiente insustentável que culminou na destruição dos alojamentos masculino e feminino, parte da panificadora e da guarita de entrada.

Após o incêndio, a empresa foi obrigada a alojar os trabalhadores em hotéis e casas alugadas na cidade. Foram registradas 18 demissões por justa causa, 173 pedidos de rescisão antecipada de contratos por prazo determinado e 42 pedidos de demissão. Cerca de 60 trabalhadores perderam todos os seus pertences pessoais no incêndio.

Pagamento “por fora” e aliciamento

Além das condições degradantes de alojamento e trabalho, as investigações revelaram graves irregularidades na jornada de trabalho. Segungo apurado pela força-tarefa, os trabalhadores seriam submetidos ao sistema denominado “cartão 2”, em que laboravam além da jornada contratual de 8 horas e 48 minutos diárias, chegando a trabalhar até às 22 horas e aos domingos. As horas extras seriam controladas em planilhas separadas e pagas em cheques ou dinheiro, “por fora” da folha de pagamento oficial, caracterizando sonegação fiscal e precarização das relações trabalhistas.

Os depoimentos indicaram ainda que muitos trabalhadores teriam sido aliciados através de intermediários em suas cidades de origem, pagando do próprio bolso as passagens para chegar ao local de trabalho, sendo os valores posteriormente descontados em seus salários. Aqueles que não passavam no exame médico ou não eram aprovados no processo seletivo ficavam sem recursos para retornar às suas cidades.

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Larvas e moscas na comida

Conforme o MPT, a alimentação fornecida também era inadequada e repetitiva, com trabalhadores relatando encontrar larvas e moscas na comida, além de alimentos requentados e deteriorados. O refeitório era quente e sem ventilação adequada, obrigando muitos trabalhadores a fazerem refeições em condições precárias.

As inspeções ainda revelaram graves violações às normas de segurança do trabalho no canteiro de obras. Os trabalhadores seriam expostos a condições insalubres, com refeitórios inadequados, locais de trabalho sem refrigeração e com excesso de poeira. Foram constatados acidentes de trabalho não registrados adequadamente, incluindo trabalhadores que sofreram lesões nas mãos e pés, além de doenças de pele causadas pelos produtos manuseados. De acordo com a força-tarefa, a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados e as condições precárias de trabalho colocavam em risco a saúde e segurança de todos os empregados.

Providências

As investigações da força-tarefa prosseguem com análise de documentos e não está descartada a necessidade de novas inspeções no local. A empresa TAO Construtora possui atualmente quatro obras em Mato Grosso, empregando aproximadamente 1,2 mil trabalhadores, sendo a de Porto Alegre do Norte a maior delas.

O MPT está em processo de negociação de Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a empregadora, a fim de assegurar o pagamento das rescisões, indenizações por dano moral individual e coletivo, indenizações pelos gastos com o deslocamento para Mato Grosso, pagamento das despesas de retorno e alimentação às cidades de origem dos trabalhadores resgatados, além de reparações pelos bens materiais dos trabalhadores destruídos no incêndio.

O MPT afirmou, ainda, que também está atuando para garantir a correção de todas as irregularidades encontradas nos alojamentos e na obra.

Outro lado

Na época do incêndio, a empresa Tao Engenharia informou que repudia veementemente os atos de violência, vandalismo e ameaça. “Um grupo de trabalhadores iniciou um motim deliberado e sem causa prévia, vindo a atear fogo nos alojamentos destinados à moradia temporária dos trabalhadores da própria obra”.

Além disso, afirmou que todas as medidas legais e administrativas cabíveis já estavam sendo tomadas, como reponsabilidade criminal dos envolvidos; colaboração com investigação policial; e adoção das providências trabalhistas necessárias.

“Reiteramos que a segurança de nossos colaboradores e o respeito à ordem e à legalidade são princípios inegociáveis para a empresa. Seguiremos comprometidos com a transparência da informação e com a responsabilização dos envolvidos, prezando pelo ambiente de trabalho seguro e respeitoso que oferta para todos”, acrescenta.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

Link da Matéria – via RD News

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