
Em um mundo cada vez mais barulhento e acelerado, o simples ato de sentar para ler um livro virou quase um ato de resistência. E para quem convive com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o desafio é ainda maior. Na Semana do TDAH, celebrada em julho, a discussão sobre foco e leitura ganha relevância — e abre espaço para estratégias que podem ajudar na criação de novos hábitos, mesmo em meio às distrações digitais.
Segundo a escritora, mediadora de leitura e curadora literária Thaís Campolina, a dificuldade em manter a concentração durante a leitura é uma realidade coletiva — e cada vez mais urgente.
“Estamos desaprendendo a ler. A vida hiperconectada afeta nossos neurônios, que se reorganizam diante do excesso de estímulos e do ritmo desenfreado que vivemos”, afirma.
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Se já está difícil para o público neurotípico, imagine para quem tem TDAH. “Pessoas com TDAH costumam ter mais dificuldade para manter o foco e lidar com redes sociais. Somos mais suscetíveis, inclusive, ao vício nelas. Reels entregam dopamina na hora — e, para a gente, esse neurotransmissor vive em baixa”, explica Thaís.
Ainda assim, ela garante: é possível, sim, criar o hábito da leitura mesmo com TDAH. “Ler faz bem para o cérebro — e, especialmente, para os nossos cérebros neurodivergentes. É difícil no começo, mas depois flui. Às vezes, é só questão de insistir um pouco. É como exercício físico: você reluta, mas depois que começa, sente os benefícios e quer continuar.”
📚 Dicas práticas para ler mais — e com prazer
Thaís compartilha estratégias valiosas, que funcionam tanto para quem tem TDAH quanto para qualquer pessoa que esteja lutando contra a distração constante:
✅ Escolha o que te dá prazer
Fuja de leituras obrigatórias e vá direto para livros que te divirtam. “O prazer é o primeiro passo pra criar o hábito”, diz ela.
✅ Experimente novos gêneros e formatos
Romance, poesia, crônica, quadrinhos… Testar diferentes estilos pode te ajudar a descobrir o que mais combina com o seu momento.
✅ Encontre seu melhor horário
Você não precisa ler todos os dias, mas ler com frequência já é um ótimo começo. Teste horários — antes de dormir, no almoço, no ônibus — até achar o que funciona pra você.
✅ Diminua as distrações
Celular no modo avião, fones com ruído branco, audiobook no lugar do feed. “Se você ama podcast, comece por um livro narrado”, sugere.
✅ Transforme sua timeline em estímulo literário
Siga perfis de leitura, participe de comunidades de leitores, se inspire com outras pessoas que leem.
✅ Leia em grupo
Clubes de leitura (presenciais ou online) criam compromisso, trocas, reflexões — e ainda ajudam a fazer amizades.
✅ Comece pela leveza
Se mergulhar direto num romance parece demais, comece com livros de colorir, palavras-cruzadas ou poesia curtinha. O importante é dar o primeiro passo.
A mensagem final de Thaís, que também media clubes de leitura e acompanha formações de novos leitores, é simples e acolhedora: “Comece devagar. Ajuste suas expectativas. Ler é um hábito construído com curiosidade, constância — e sem culpa. A leitura pode (e deve) ser um afago, não mais uma cobrança.”

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