As tarifas de Trump e Mato Grosso; cenário atual e perspectivas

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As recentes medidas tarifárias impostas pelo presidente americano Donald Trump ao Brasil, com alíquotas que chegam a 50% sobre diversos produtos, reacenderam o debate sobre a vulnerabilidade da economia brasileira aos choques externos. Em meio a esse cenário de tensão comercial, Mato Grosso emerge como um caso particular de análise, apresentando características que o tornam simultaneamente resiliente e vulnerável às políticas protecionistas americanas.

O estado, reconhecido como a maior potência agrícola do Brasil e responsável por mais da metade do Produto Interno Bruto nacional do agronegócio, enfrenta um paradoxo interessante. Por um lado, sua baixa dependência direta dos Estados Unidos como destino de exportações sugere uma proteção natural contra os efeitos imediatos das tarifas. Por outro, a integração profunda de sua economia com os mercados globais de commodities e a dependência de insumos importados expõem o estado a impactos indiretos que podem ser mais significativos do que os números iniciais sugerem.

A decisão de Donald Trump de impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros representa uma escalada significativa nas tensões comerciais entre os dois países. A medida, que entrou em vigor em 6 de agosto de 2025, combina uma tarifa recíproca de 10% aplicada a mais de 90 países com uma sobretaxa adicional de 40% especificamente direcionada ao Brasil. A justificativa oficial da Casa Branca aponta para questões políticas internas brasileiras, particularmente o tratamento judicial dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, caracterizado por Trump como uma “caça às bruxas”.

Do ponto de vista econômico, as tarifas atingem um volume considerável do comércio bilateral. Em 2024, os Estados Unidos foram o destino de US$ 12 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, representando 7,3% de todas as exportações do setor e consolidando os americanos como o terceiro maior parceiro comercial do agronegócio nacional, atrás apenas da China e da União Europeia. Os principais produtos afetados incluem café, carne bovina, pescados e açúcar.

Para o agronegócio brasileiro, as tarifas representam um golpe significativo em setores específicos. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima perdas de US$ 1 bilhão apenas em 2025. O setor de pescados, altamente dependente do mercado americano, já solicitou ao Governo Federal uma linha de financiamento de R$ 900 milhões para capital de giro, alertando para um possível “colapso” sem apoio governamental. Esses números ilustram a magnitude do desafio enfrentado por setores que construíram suas estratégias comerciais com base no acesso preferencial ao mercado americano.

No que diz respeito ao Mato Grosso, de acordo com dados divulgados pela SECOM este ano, o agronegócio atualmente representa mais de 50% do seu PIB, o que coloca o estado no posto maior economia agrícola do país. Atualmente, Mato Grosso é responsável por 68% das exportações brasileiras de algodão, 34,4% da exportação de milho e mantém a posição de maior produtor de soja do país.

Esta especialização produtiva se traduz em liderança nacional em diversos segmentos: o estado é responsável por 68% das exportações brasileiras de algodão, 34,4% da exportação de milho e mantém a posição de maior produtor de soja do país. A diversificação industrial também marca a economia contemporânea, com o estado projetado para registrar em 2025 o maior crescimento do PIB Industrial entre todos os estados brasileiros, com alta de 6,7%.

Paradoxalmente, a magnitude econômica de Mato Grosso contrasta com sua baixa dependência direta do mercado americano. No primeiro semestre de 2025, apenas 1,1% das exportações mato-grossenses tiveram os Estados Unidos como destino, colocando o estado na penúltima posição nacional no ranking de dependência do mercado americano.

Esta baixa dependência reflete uma estratégia de diversificação geográfica consolidada ao longo dos anos. A China emerge como o nosso principal parceiro comercial, absorvendo 46% de todas as exportações estaduais, seguida por países asiáticos como Vietnã, Tailândia e Indonésia. Essa distribuição geográfica oferece uma proteção natural contra choques específicos de mercados individuais.

No setor específico da carne bovina, os números ilustram tanto a vulnerabilidade quanto os prejuízos concretos já materializados. O impacto das tarifas já se fez sentir de forma dramática: a Marfrig decidiu paralisar a produção de carne bovina destinada aos Estados Unidos em seu complexo de Várzea Grande, que abate mais de 2.000 cabeças de gado por dia. Essa paralização representa não apenas a perda de um mercado importante, mas também riscos para empregos e para a cadeia produtiva local.

Embora os números de exportação direta sugiram uma vulnerabilidade limitada, os impactos indiretos das tarifas de Trump podem ser substancialmente mais significativos para a economia mato-grossense. Esses efeitos operam através de múltiplos canais que transcendem as relações comerciais bilaterais diretas.

O primeiro e mais imediato é o efeito cambial. As tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos tendem a gerar instabilidade no mercado de câmbio, pressionando o dólar para cima. Para uma economia como a de Mato Grosso, altamente dependente de insumos importados, essa volatilidade cambial se traduz diretamente em custos de produção mais elevados. A dependência de fertilizantes importados é particularmente crítica, pois o estado requer quantidades enormes desses insumos para manter sua produtividade.

O segundo canal de impacto indireto opera através dos mercados globais de commodities. As tarifas americanas não afetam apenas o comércio bilateral, mas podem alterar os fluxos globais de produtos agrícolas, criando pressões nos preços internacionais. Para Mato Grosso, que compete globalmente com seus produtos, essas alterações podem ser mais significativas do que a perda direta do mercado americano.

O terceiro canal envolve os efeitos sobre o mercado de trabalho e a cadeia produtiva local. A incerteza gerada pelas tarifas já levou frigoríficos a suspender ou reduzir a produção, gerando um efeito cascata que se propaga através da cadeia produtiva, afetando desde transportadores até fornecedores de equipamentos e serviços especializados.

Diante dos desafios impostos pelas tarifas americanas, Mato Grosso demonstra uma capacidade de adaptação que reflete tanto sua maturidade econômica quanto sua experiência em navegar por crises externas. A diversificação geográfica das exportações representa o primeiro mecanismo de defesa, permitindo a realocação de produtos que seriam destinados aos Estados Unidos para outros mercados.

A verticalização da produção emerge como uma segunda estratégia fundamental. O fato de que 30% da soja e do milho produzidos em Mato Grosso já são processados localmente oferece uma proteção adicional contra volatilidades externas. O setor de biocombustíveis exemplifica essa capacidade de adaptação, com o estado liderando a produção nacional de biodiesel e etanol de milho.

A inovação tecnológica também desempenha um papel crucial na adaptação. Com 84% dos produtores mato-grossenses adotando tecnologias como agricultura de precisão, o estado está na vanguarda da modernização agrícola, aumentando produtividade e reduzindo custos.

Uma alternativa importante para mitigar os prejuízos dos setores afetados pelas tarifas americanas é a utilização de incentivos fiscais pelos estados e municípios. Mato Grosso já possui experiência nessa área, com programas como o Prodeic Investe Mato Grosso Biocombustível, que oferece redução no ICMS e já movimentou mais de R$ 24 milhões em 2024.

Os incentivos fiscais podem atuar em múltiplas frentes: redução de impostos estaduais para empresas afetadas pelas tarifas, criação de linhas de crédito subsidiado para capital de giro, e incentivos específicos para diversificação de mercados. Municípios podem complementar essas medidas com reduções no IPTU para indústrias do setor e facilidades no licenciamento para novos investimentos.

Essa estratégia de política fiscal local pode ser particularmente eficaz para setores como frigoríficos e processadores de grãos, que enfrentam pressões imediatas devido às tarifas. Além de compensar parcialmente as perdas de receita, os incentivos podem estimular investimentos em modernização e diversificação produtiva, fortalecendo a competitividade a longo prazo.

A coordenação entre estado e municípios é fundamental para maximizar a eficácia dessas medidas, evitando sobreposições e garantindo que os recursos sejam direcionados aos setores e empresas que mais necessitam de apoio para superar o período de turbulência comercial.

Nesse contexto, as tarifas de Trump sobre produtos brasileiros apresentam para Mato Grosso um cenário complexo que não se resume a uma simples equação de perdas comerciais. A análise dos impactos revela uma economia estadual que, embora protegida por sua baixa dependência direta do mercado americano, enfrenta desafios indiretos significativos.

A resposta de Mato Grosso a esses desafios reflete uma economia em transformação. O crescimento industrial projetado, a verticalização da produção e o desenvolvimento do setor de biocombustíveis ilustram uma estratégia de agregação de valor que reduz a vulnerabilidade a choques externos. A combinação de diversificação geográfica, inovação tecnológica e políticas públicas adequadas, incluindo incentivos fiscais estratégicos, cria um modelo de resiliência.

O futuro de Mato Grosso diante das tarifas de Trump dependerá da continuidade das estratégias que já demonstraram eficácia, complementadas por medidas de apoio fiscal que podem acelerar a adaptação dos setores mais afetados. Se essas estratégias forem mantidas e aprofundadas, o estado não apenas superará os desafios atuais, mas emergirá ainda mais forte e competitivo no cenário global.

A trajetória de Mato Grosso nas próximas décadas será determinada não apenas por sua capacidade de produzir commodities de alta qualidade, mas por sua habilidade de transformar essa produção em valor agregado, empregos qualificados e inovação tecnológica. As tarifas de Trump, paradoxalmente, podem acelerar essa transformação, forçando uma adaptação que, no longo prazo, fortalecerá ainda mais a posição do estado como líder do agronegócio brasileiro e global.

 

Lucas Orione é mestre em direito tributário pela PUC-SP. Especialista em gestão tributária pela USP-ESAQL. Professor de direito tributário na UNIC Beira-Rio e FAC-VG. Advogado, sócio do escritório Orione Advocacia

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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