
Estudantes chineses em universidades do Reino Unido estariam sendo pressionados por autoridades de Pequim para espionar colegas de classe. É o que sugere um relatório divulgado no domingo (3) pela UK-China Transparency (UKCT), think tank que investiga influências do governo da China em universidades britânicas para proteger a liberdade acadêmica.
O objetivo da espionagem, de acordo com a organização, seria suprimir discussões sobre temas considerados sensíveis pelo governo da China, como o surto de Covid-19 e a ascensão de empresas de tecnologia chinesas.
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Segundo o relatório, acadêmicos que pesquisam sobre a China relataram que autoridades chinesas têm alertado professores para evitar esses tópicos em sala de aula.
A pressão ocorre em um momento em que uma nova legislação britânica, que entrou em vigor na semana passada, reforça a responsabilidade das universidades em proteger a liberdade acadêmica e de expressão.
A lei prevê multas de até milhões de libras para instituições que não cumprirem essas diretrizes, segundo o Escritório para Estudantes (OfS), órgão regulador do ensino superior no Reino Unido.
Interferência e intimidação
O relatório da UKCT, baseado em uma pesquisa com 50 acadêmicos de estudos sobre a China, joga luz sobre vários casos de intimidação.
Alguns professores relataram assédio por parte de autoridades chinesas ou de acadêmicos visitantes, incluindo ameaças a familiares na China devido a pesquisas sensíveis conduzidas no Reino Unido.
Além disso, estudantes de várias nacionalidades afirmaram sentir desconforto ao discutir temas delicados em sala, temendo represálias, o que os levou a evitar aprofundar esses assuntos academicamente.
A pesquisa também apontou que a dependência financeira das universidades britânicas em relação às taxas pagas por estudantes chineses pode estar influenciando a relutância de algumas instituições em enfrentar a interferência chinesa.
Cerca de 64% dos entrevistados acreditam que essa dependência afeta a percepção dos administradores universitários sobre a importância das relações com o governo chinês.
Em alguns casos, professores foram pressionados a remover conteúdos didáticos que poderiam ofender estudantes nacionalistas chineses ou o governo da China.
Institutos sob escrutínio
Os Institutos Confúcio, organizações que promovem a cultura e a língua chinesas em universidades britânicas, também foram citados no relatório. Financiadas por uma agência do governo chinês, essas entidades têm sido criticadas por possíveis laços com o Partido Comunista Chinês.
Susan Lapworth, diretora executiva do OfS, afirmou que espera investigações sobre essas organizações sob as novas leis de liberdade de expressão, devido a preocupações de que possam representar uma ameaça à liberdade acadêmica nos campi.
Segundo o relatório do UKCT, um acadêmico chegou a interromper o ensino em uma universidade após ser intimidado por um pesquisador visitante da China, que chegou a sussurrar “estamos de olho em você”.
Estudantes chineses também confidenciaram a professores que a polícia de seu país os instruiu a monitorar eventos no campus, e alguns relataram vigilância constante, com entrevistas por autoridades ao retornarem à China.
A embaixada chinesa em Londres classificou o relatório como “infundado e absurdo”, afirmando que a China respeita a liberdade de expressão no Reino Unido e segue uma política de não interferência em assuntos internos de outros países.
A Universities UK, que representa 141 instituições britânicas, disse que leva a sério qualquer ameaça à liberdade de seus membros e trabalha com o governo para protegê-la.
A ministra das Habilidades, Jacqui Smith, declarou que tentativas de intimidação por estados estrangeiros não serão toleradas e que a liberdade acadêmica é “inegociável”. Ela citou uma multa recorde de £ 585.000 aplicada pelo OfS como um alerta às universidades para que cumpram seu papel na proteção dessas liberdades.
O OfS também planeja implementar um novo sistema de reclamações, permitindo que professores e palestrantes denunciem diretamente ameaças à liberdade de expressão. O órgão regulador exige que as universidades revisem ou encerrem acordos com países estrangeiros que comprometam esses princípios, independentemente de possíveis perdas financeiras.

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