Superman e o direito de cruzar fronteiras

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Rodinei Crescêncio

O novo filme de Superman retoma a velha pergunta: o que faria alguém com poder absoluto diante das misérias humanas? A resposta, como sempre, é ambígua. Criado por pais da Terra, mas nascido em Krypton, Clark Kent nunca pertenceu completamente a lugar algum, dividido entre o dever de ajudar a humanidade e o medo de ser visto como ameaça.. Essa figura do estrangeiro superpoderoso, que pode destruir ou salvar, ressoa com uma das ansiedades centrais do nosso tempo: quem tem o direito de cruzar fronteiras?

Superman é o imigrante modelo. Se adapta, contribui, salva. Mas seu poder também assusta. Na base disso está o medo arquetípico do “outro que vem de fora”. Como observa Julia Kristeva, em Estrangeiros para nós mesmos, o estrangeiro não é apenas aquele que cruza territórios físicos, mas também quem desestabiliza identidades rígidas. Superman desestabiliza: ele é um deus que vive como camponês, um jornalista frágil que pode mover planetas. “ Talvez seja hora de parar de esperar que o Superman nos salve e começar a reivindicar, com coragem, a soberania de nossos povos e o direito dos estrangeiros a existirem plenamente, sem capas, sem máscaras e sem pedir desculpas por existir”

Como lembra Hannah Arendt, o direito de ter direitos ainda é negado a muitos, especialmente àqueles que são considerados “sem Estado”, “sem lugar”. E mesmo quando conseguem atravessar fronteiras, esses sujeitos são obrigados a negociar sua existência em nome da aceitação. Nesse sentido, Superman não apenas representa um imigrante: ele simboliza o modo como o poder define quais vidas podem ser toleradas e em que termos.

Mas a história do kryptoniano de capa vermelha vai além. Superman é também uma encarnação do soft power norte-americano: o herói que salva o mundo em nome dos “valores universais” que, por coincidência, coincidem com os valores estadunidenses. Não é por acaso que o personagem foi criado em meio à ascensão dos EUA como superpotência, e se tornou um dos produtos culturais mais bem-sucedidos da história. Desta forma, há uma lição implícita: os Estados Unidos sabem o que é certo e podem agir em nome da humanidade.

Apesar disso, a contradição salta aos olhos: os Estados Unidos seguem endurecendo suas fronteiras e criminalizando a presença de estrangeiros sob o argumento de que podem interferir em sua política interna,  ao mesmo tempo em que não hesitam em intervir nos destinos de outros países, inclusive politicamente, economicamente e militarmente. Recusam o estrangeiro, mas se autorizam a serem estrangeiros em toda parte.

Essa ambivalência não é novidade. A história moderna está repleta de figuras “salvadoras” que, com promessas de ordem ou justiça, intervieram em nome do bem. Não por acaso, Superman é frequentemente usado como alegoria da intervenção norte-americana, com sua postura de “vigiar o mundo”. Aqui entra a reflexão de Achille Mbembe sobre o poder necropolítico: quem decide quem vive e quem morre? Superman, como as potências ocidentais, pode escolher quando agir e, sobretudo, quando não agir.

Essa lógica se repete fora das telas. O Brasil, por exemplo, historicamente vive sob o peso da interferência americana: do apoio ao golpe de 1964 às mais recentes tarifas e pressões econômicas. Até nossos hábitos culturais, das séries ao consumo de heróis, são colonizados por essa influência. Como lembra Boaventura de Sousa Santos, não basta reconhecer a dependência: é preciso enfrentar a epistemologia dominante que a torna invisível.

No entanto, há uma resistência sutil nisso tudo. O Superman que volta às telas é mais hesitante, mais dividido. Ele não sabe se deve interferir, se sua verdade é a verdade. Isso nos abre uma fresta para pensar o contrário do mito: e se, em vez de esperar um herói, aceitássemos a fragilidade como princípio ético? Emmanuel Levinas propõe exatamente isso: não o poder sobre o outro, mas a responsabilidade diante da sua vulnerabilidade.

Talvez seja hora de parar de esperar que o Superman nos salve e começar a reivindicar, com coragem, a soberania de nossos povos e o direito dos estrangeiros a existirem plenamente, sem capas, sem máscaras e sem pedir desculpas por existir.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

Link da Matéria – via RD News

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