
A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) manifestou apoio público à professora Maria Inês da Silva Barbosa, impedida de utilizar linguagem neutra durante sua fala na abertura da 15ª Conferência Municipal de Saúde, realizada na quarta-feira (30), em Cuiabá. O episódio ocorreu logo no início da participação da docente, quando ela foi interrompida pelo prefeito da capital, Abilio Brunini (PL), após cumprimentar o público com o uso do pronome “todes”.
Maria Inês é doutora em Saúde Pública, mestre em Serviço Social e atua como docente do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT. A servidora foi convidada para palestrar sobre o tema: “Consolidar o SUS: Com a Força do Povo, Participação Social e Políticas Públicas”. Após o momento constrangedor em que foi interrompida e impedida de utilizar o pronome neutro, Maria Inês optou por se retirar da mesa, não dando continuidade à sua participação no evento. Rennan Oliveira/Montagem
Da esquerda para a direita, a reitora da UFMT Marluce Souza e Silva, o prefeito Abilio Brunini, a ex-secretária Municipal de Saúde de Cuiabá, Lucia Helena e (no detalhe) a professora Maria Inês.
Por meio de nota, a UFMT afirma que o uso da linguagem neutra é uma forma de comunicação “aceita e utilizada para evitar discriminação de gênero e assegurar visibilidade às pessoas não-binárias e outras identidades”. A instituição ainda reitera seu posicionamento em defesa da democracia, da ética, da liberdade acadêmica e dos direitos humanos.
Presente no evento, a reitora da universidade, Marluce Aparecida Souza e Silva, reforçou a solidariedade à colega e fez uma reflexão sobre a evolução linguística na sociedade.
“Quando as pessoas falam assim vosmecê, existe isso no vocabulário? Vosmecê? Hoje não, mas já existiu. Essas frases, essas palavras, elas foram sendo transformadas ao longo da nossa construção social, então dizer ‘bom dia a todos, todas e todes’, provavelmente muito brevemente nós teremos o todes no vocabulário, na nossa língua portuguesa”, destacou Marluce.
Questionado por ativista
Conforme publicado pelo , Abilio foi cobrado pelo ativista e coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat) em Mato Grosso, Julian Tacanã, declarando que o chefe do executivo municipal foi desrespeito com a população LGBTQIAPN+ e com a professora Maria Inês.
O prefeito, por sua vez, utilizou de ironia e reafirmou que “todes não existem” e que o uso não é permitido em eventos da Prefeitura.
“Você palestrar instruindo a linguagem neutra, isso nós não vamos aceitar. A saúde de Cuiabá vai atender todos igualmente, de acordo com as suas necessidades. Nós não vamos usar na saúde pública de Cuiabá, nem discutir a saúde pública de Cuiabá, com qualquer linguagem que esteja fora da língua portuguesa”, continuou o prefeito, sugerindo que a militância use linguagem neutra em outros espaços.
No fim do debate, Abilio ainda chamou Julian Tacanã de “ela”, o que foi corrigido de imediato pelo ativista que declarou ser um homem trans.
Prefeitura se pronunciou
Em nota, a Prefeitura de Cuiabá disse que, por orientação direta do prefeito Abilio Brunini, não será permitido o uso de linguagem neutra em eventos e espaços institucionais patrocinados pelo Poder Executivo Municipal. A justificativa utilizada foi a de “compromisso com a preservação da norma culta da língua portuguesa e na neutralidade ideológica das ações públicas”.
Ainda segundo a nota, antes mesmo do início da palestra, o prefeito solicitou que a apresentação fosse ajustada de acordo com os padrões da comunicação oficial da prefeitura.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

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