Religião nas redes: como a fé se espalha pelo Instagram, TikTok e WhatsApp

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“Padre, é pecado trocar os amigos pela namorada? Vish, isso é muito paia, não façam isso!” Mestre dos bordões, popular em sua paróquia e carismático com o público, o padre Josileudo Queiroz, radialista há mais de dez anos, aprendeu a usar a linguagem contemporânea das redes sociais para se comunicar melhor com seu 1,8 milhão de seguidores no Instagram. No post mais recente, reproduzido acima, ele lê a pergunta de um internauta e responde de forma bem-humorada. Mas ressalta:

 — Eu sou fresco, como se diz lá no Ceará de quem é engraçado, cômico. Mas vale frisar que não respondo nada de acordo com a minha opinião, e sim com a palavra de Deus, com o que está escrito na Bíblia, só que de forma simplificada — se diverte Josileudo, que é da Arquidiocese do Ceará e concedeu entrevista antes de um encontro, em São Paulo, com outro líder religioso popular nas redes, o padre Júlio Lancellotti.

Reprodução/TV Pai Eterno

Rituais de terreiros no TikTok, missas transmitidas no Instagram, grupos de oração no WhatsApp, aplicativos de meditação e palestras no YouTube são ferramentas que líderes religiosos e influenciadores estão utilizando cada vez mais para se aproximar das pessoas e trazê-las para os seus rebanhos.

Segundo a escritora, podcaster e influencer cristã Fernanda Witwytzky, a fé pressupõe a missão de atrair novos discípulos para Cristo, desde sempre e muito antes de existirem as redes sociais. Arquiteta e urbanista de formação, Fernanda e o marido planejavam ser missionários na Espanha, para onde chegaram a se mudar e trabalhar informalmente para uma igreja Batista, quando um vídeo dela viralizou, em 2019.

— Nós estávamos fazendo tratamento para engravidar. Quando fiquei grávida de gêmeos, compartilhei um vídeo contando e comemorando a graça alcançada. A partir daí, várias pessoas passaram a me seguir, os bebês nasceram, veio a pandemia e não pudemos viajar mais e concretizar os planos na Espanha. Acabei escrevendo um ebook independente falando da experiência da maternidade e hoje tenho oito livros publicados, sempre com a temática cristã — conta Fernanda, que já tem mais de 700 mil seguidores no Instagram e publica seus livros na Thomas Nelson, editora presente no Brasil desde 2006 e especializada em títulos evangélicos, inclusive várias edições da Bíblia, o livro mais vendido no Brasil.

Babalorixá de Ogun, publicitário e pai de santo em um terreiro em Belford Roxo, Vitor Cardozo começou a sua carreira nas redes sociais no antigo Twitter e num blog, onde compartilhava os conhecimentos adquiridos em sua graduação em História e pós-graduação em ciências da religião. Seu trabalho na TV Globo o ajudou em sua produção audiovisual para as redes e na maneira de se comunicar com um público maior, através de uma estética atraente, mas plena de significados filosóficos e ensinamentos espirituais:

— O candomblé faz parte da minha vida de forma orgânica, pois tenho avó e mãe iniciadas e fui criado dentro do terreiro. Entendi a importância de ir para a academia e transmitir para o povo preto a origem do racismo, a nossa história de escravização e desumanização.

Com dez mil seguidores no Instagram, ele diz que conta com o auxílio de jovens que frequentam o seu terreiro para produzir vídeos e publicá-los por lá. Utilizar as redes, para Vitor, é também combater o racismo religioso, mostrar a beleza dos ritos, desmistificar a religião de matriz africana para os leigos e ajudar a viabilizar seus projetos sociais.

Freiras viralizam

A presença no cotidiano das pessoas, com projetos, participação nas igrejas e o corpo a corpo com os fiéis ainda é o objetivo mais importante para esses líderes. Com quase 4 milhões de seguidores em suas redes, a Monja Coen diz, modestamente, que os números não são o mais importante e reforça o contato cotidiano em sua comunidade Zen do Brasil, onde forma discípulos na prática do zen budismo:

— De vez em quando os seguidores se materializam na rua, vêm me cumprimentar. Vão às palestras, aos lançamentos. Mas o dia a dia, a prática da espiritualidade, eu só posso comprovar no contato cotidiano.

Para o padre Josileudo, mestre e doutor em direito canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, é um objetivo declarado da Igreja Católica utilizar as redes sociais para se aproximar das pessoas e conquistar mais fiéis num mundo em que muitos estão perdendo a fé no coletivo e nas instituições:
— Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja vem tentando se comunicar mais com o mundo secular. A presença nas redes sociais não é por acaso. Mas isso não deve levar a vaidades. Estou lá para levar a palavra do Evangelho. Veja o exemplo do Papa Francisco, que se aproximava das pessoas, abraçava, falava e agia também de forma simples e direta.

A criação de uma imagem falsa nas redes também é uma preocupação de Fernanda Witwytzky. A escritora diz que frequenta a sua igreja todos os domingos, participa das atividades, é ativa nos compromissos religiosos e afirma não querer ser exemplo para ninguém:
— Quando as pessoas me pedem conselhos, eu sempre encaminho para os líderes dos locais onde elas residem. A base da fé em Cristo não é a minha realidade individual. Não se deve cair no erro de usar o ‘lifestyle’ para trazer as pessoas para si e não para Cristo.

O deslumbramento com a fama nas redes não deve se sobrepor à prática da fé, todos concordam. Inclusive as freiras Marizele Isabel Cassiano Rego, de 44 anos, e Marisa Paula de Neves, de 41, integrantes da congregação Copiosa Redenção, que, há cerca de um mês, viralizaram na internet mostrando os seus talentos na dança e no canto. De um programa numa pequena TV católica de Goiânia, as duas foram parar no Fantástico, em jornais brasileiros e estrangeiros e viraram memes. Ao Fantástico, disseram saber que tudo isso é momentâneo. Elas esperam, no entanto, que através dessa fama as pessoas tenham uma experiência com Deus e a sua alegria.

A atriz Whoopi Goldberg, que protagonizou o clássico “Mudança de hábito”, viu o vídeo das freiras e afirmou, em seu programa na rede ABC News, que elas são as estrelas do filme na vida real. Com a cobertura midiática, as religiosas atraíram a atenção do New York Times. Ao jornal, as irmãs reafirmaram o poder da música e de danças para se conectarem com as jovens dos centros de reabilitação de sua congregação, dedicada a dependentes químicos. Com certa ironia, a irmã Marizele afirmou: “Por que algo tão simples e espontâneo ganhou uma proporção tão grande? Porque o Espírito Santo quer tocar os corações das pessoas. Mas, além do Espírito Santo, também tem o algoritmo.”

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Link da Matéria – via RD News

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