O silêncio também comunica — e pode custar caro

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

A omissão também é uma mensagem. Em política, o silêncio não é ausência de posicionamento — é um posicionamento disfarçado. Quando um líder público se cala diante de uma crise, de uma injustiça ou de uma pauta urgente, ele está dizendo ao eleitor que não quer se comprometer, que prefere o conforto da neutralidade ao risco de defender o que acredita (ou o que prometeu defender).

Vivemos tempos em que a população acompanha de perto tudo o que os políticos dizem — ou deixam de dizer. A lógica da comunicação política mudou. Antes, o silêncio era considerado prudência. Hoje, é interpretado como fuga, covardia ou conveniência.

Silêncio seletivo é escolha política

O político que se cala em situações críticas faz uma escolha: a de não se indispor. Só que, ao não se indispor com ninguém, corre o risco de não se conectar com ninguém. O eleitor não espera perfeição, mas espera coragem. Espera clareza. Espera posicionamento.

Ao ver seu representante silenciado diante de um escândalo, de um ataque à democracia, de uma injustiça social ou de uma tragédia local, o cidadão se pergunta: “Se nem agora ele se manifesta, quando irá se manifestar?”

Mais do que uma falha pontual, o silêncio recorrente vai construindo uma imagem de distanciamento, de frieza e de falta de comprometimento com causas coletivas. E quando essa imagem se cristaliza, ela é difícil de reverter, mesmo com muito esforço de comunicação.

A comunicação é também uma forma de presença

Políticos que mantêm canais digitais, mas os usam apenas para postar obras, agendas e comemorações, constroem uma comunicação de vitrine — e não de responsabilidade. O eleitor quer saber mais do que o que foi feito: quer saber o que o político pensa, sente e defende.

Na comunicação moderna, o silêncio não é mais neutro: ele é preenchido por interpretações, memes, suposições. E essas interpretações se espalham rápido, especialmente quando há um vácuo narrativo.

Esse vácuo, aliás, é rapidamente ocupado por adversários políticos, por influenciadores e por opiniões formadas a partir de percepções subjetivas. Em questões de minutos, a falta de um posicionamento claro pode se transformar em boatos, fake news ou campanhas de descredibilização. E isso exige um esforço muito maior para reverter depois.

A omissão custa mais do que a crítica

Não se posicionar por medo da polêmica pode parecer uma forma de autopreservação, mas, no longo prazo, o custo da omissão é mais alto que o da crítica. Porque quando o político é atacado, seus eleitores sabem defender. Quando ele se omite, até os aliados se calam.

A comunicação eficaz exige presença constante, escuta ativa e coragem para se posicionar mesmo quando é desconfortável. E isso não significa se precipitar, mas compreender que o tempo da resposta, na política contemporânea, é quase tão importante quanto o conteúdo dela.

Em muitas situações, o eleitor não exige uma solução imediata — ele exige empatia, reconhecimento e postura. Uma simples nota de solidariedade, um vídeo explicando os limites da atuação parlamentar ou um pronunciamento que deixe clara a posição sobre um tema já são suficientes para mostrar que aquele mandato está atento e conectado com a realidade.

Conclusão

O silêncio estratégico pode ser últil em certas negociações políticas. Mas no dia a dia da representação, ele costuma ser lido como covardia ou desprezo. A omissão, quando repetida, vira identidade. E nesse ponto, já não há marketing que resolva.

Na política, quem se cala demais corre o risco de ser esquecido. E quem é esquecido, perde relevância, voto e voz. Num mundo hiperconectado, é preferível errar tentando dialogar do que desaparecer pela falta de posicionamento.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

Link da Matéria – via RD News

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