Do político celebridade ao político líder

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Rodinei Crescêncio/Rdnews

Nos últimos anos, a política brasileira tem assistido à ascensão de um novo perfil de figura pública: o político celebridade. Aquela pessoa que acumula milhões de seguidores nas redes sociais, viraliza com vídeos bem-humorados, participa de podcasts, dança, canta, e compartilha cenas da sua vida cotidiana como se estivesse em um reality show. Esse fenômeno pode parecer inofensivo, até mesmo eficaz, mas esconde um risco grave: o esvaziamento do conteúdo político e do compromisso com a função pública.

Não há problema em um político ser carismático, saber se comunicar com leveza e dominar as ferramentas digitais. Pelo contrário: isso pode ser um diferencial positivo. O problema começa quando a comunicação se torna apenas entretenimento, e a imagem digital substitui a atuação institucional. Quando o político é mais conhecido por um bordão do que por uma proposta. Quando se mede o sucesso de um mandato pelo número de views, e não pela qualidade das entregas.

Mandato não é reality show. É responsabilidade pública.

A política exige presença, escuta, coragem, tomada de decisão e entrega real. Um vídeo com milhões de visualizações pode ser ótimo para o ego e gerar engajamento temporário, mas não substitui a construção de políticas públicas, a mediação de conflitos, a produção legislativa e a defesa do interesse coletivo. “ A política exige presença, escuta, coragem, tomada de decisão e entrega real. Um vídeo com milhões de visualizações pode ser ótimo para o ego e gerar engajamento temporário, mas não substitui a construção de políticas públicas”

A lógica da celebridade é movida por atenção constante. A lógica da liderança política é sustentada por confiança contínua. A celebridade precisa de aplauso. O líder precisa de legitimidade. A celebridade quer ser vista. O líder quer fazer diferença. Essa diferença é sutil, mas essencial.

A diferença entre ser lembrado e ser respeitado

O político celebridade é lembrado pelas redes. O político líder é respeitado pela sua base. O primeiro viraliza, o segundo mobiliza. O primeiro fala com muitos, o segundo escuta os que realmente importam. Popularidade é instantânea. Respeito é construído com tempo, coerência e entrega.

O eleitor de hoje não é mais passivo. Ele acompanha, compara, cobra. E muitos já perceberam que há políticos que falam muito, mas entregam pouco. Que há personagens bem produzidos digitalmente, mas que somem do território. Que há discursos emocionantes, mas votos silenciosos nos bastidores que traem as causas populares.

A armadilha da performance permanente

Quando o político vira refém da imagem, perde a liberdade de errar, de mudar de ideia, de ser humano. Precisa manter a pose, o tom, o figurino. Vira personagem de si mesmo. E isso custa caro: em autenticidade, em profundidade, em credibilidade. A comunicação vira vaidade, e o mandato vira palco.

Além disso, o político celebridade geralmente se cerca de uma bolha: uma equipe focada apenas em engajamento, uma base que valida tudo, uma agenda que prioriza likes em detrimento da participação popular. Com o tempo, perde-se a conexão com a realidade — e com ela, a força do projeto político.

O líder não precisa ser o mais engraçado — precisa ser o mais confiável

O político líder sabe que sua função é representar, propor, negociar e entregar. Usa as redes sociais para educar, informar, engajar. Não se esconde da polêmica. Não foge do debate. Não reduz sua comunicação a slogans. Comunica valores, estratégias, resultados. Cria comunidade em vez de audiência.

Um líder sabe que carisma ajuda, mas não substitui preparo. Que visual bonito não encobre ausência de conteúdo. Que simpatia abre portas, mas quem sustenta o espaço é a competência.

Conclusão

A política precisa urgentemente de mais líderes e menos personagens. De mais conteúdo e menos performance. De mais projetos públicos e menos projetos de imagem.

As redes sociais são ferramentas poderosas, mas devem estar a serviço da atuação parlamentar — e não o contrário. O político que se comunica só para entreter perde a chance de inspirar. O que busca só visibilidade, perde autoridade. O que trabalha para a plateia, esquece que o palco é o povo.

A política que transforma é a que escuta, propõe, entrega e comunica com clareza, empatia e verdade. E essa política não precisa de filtro: precisa de coragem.

Mandatos fortes não nascem de likes — nascem de vínculos. E vínculos verdadeiros não viralizam: permanecem.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras

Link da Matéria – via RD News

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