As práticas de curar na sociedade mato-grossense

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Denise D. Abech e Maria de Lourdes Fanaia

Em Mato Grosso, no período da escravidão e início do século XX, a arte de curar e o tratamento com as enfermidades envolveram várias práticas e vários agentes sociais, conforme Jesus (2002). A arte é uma manifestação do ser humano que compreende um saber e os modos de fazer e de ser, capaz de criar experiências e conhecimentos em qualquer sociedade e em todos os tempos históricos. A cultura envolve a arte e não há sociedade sem cultura; podemos dizer que qualquer forma de arte humaniza.

Para melhor compreensão, os estudos de Nauk de Jesus (2002) e Marina Azem (2009) foram suportes fundamentais para este texto. Além disso, visitamos o Arquivo Público do Estado de Mato Grosso (APMT), pois variadas fontes mostram como as autoridades atendiam à sociedade cuiabana frente às dificuldades pelas epidemias e doenças existentes entre os séculos XVIII e início do século XX.

No período colonial não havia um planejamento sobre a saúde da população, assim como, não havia informações sobre o contexto de doenças ou de epidemias. Os jesuítas, responsáveis preliminares pela sangria, parto, prescrição e algumas operações cirúrgicas, embora buscassem a saúde física, aspiravam a saúde espiritual (Abreu, 2018; Ponte; Falleiros, 2010). Com eles, surgiram as primeiras enfermarias e boticas, que continham medicamentos trazidos de Portugal. As boticas eram as farmácias, responsáveis pela manipulação dos medicamentos recomendados por médicos ou cirurgiões (Jesus, 2022, p. 71) e o que eram utilizados nas boticas não conseguiam suprir em quantidade suficiente da demanda existente e foi nesse universo que participaram, também, benzedores e parteiras (Santos, 2015, p. 67).

“ A medicina oficial no período colonial e imperial, inicialmente, era vista com desconfiança pela população e, só no século XIX, o médico se transformou no principal responsável pela organização hospitalar; até então, o médico de hospital era inexistente”

As dificuldades da assistência Médica no Brasil colonial decorreram da quase inexistência de profissionais nessa área, do pouco interesse dos médicos portugueses em vir para o Brasil e da proibição de se instalar ensino superior na Colônia (Miranda, 2017, p. 3). Diferentes agentes exerciam a Medicina a sua maneira, como os barbeiros – que, além de cortar cabelo, aplicavam comumente a sangria com uso de sanguessugas, os boticários, os curandeiros, as parteiras e os cirurgiões com formação puramente prática (Ponte; Falleiros, 2010).

Desse modo, a população se aproximou dos benzedores, curandeiros, raizeiros e as plantas medicinais; amuletos e rituais religiosos e simpatias fizeram parte do universo. Inicialmente, a reorganização do espaço hospitalar no Brasil colonial fez-se, paulatinamente, apenas nos hospitais militares, no início do século XIX. As plantas medicinais, como, a erva de bicho, a quina, angico, poaia, barbatimão, erva-de-santa-maria, picão, caroba, erva-de-santo-Inácio, aguapé” (Assis, 1988, p. 140) fizeram parte desse universo conhecimentos oriundos dos indígenas e dos grupos afro-brasileiros.

A poia, por exemplo, planta medicinal, chamada de ipecacuanha – ipeca, é uma raiz do cerrado e possui uma semente chamada emetina que servia para medicamento. Por isso, era produto exportado e industrializado na Europa. A raiz servia para tratamento de coqueluche, bronquite e até mesmo disenterias. E na extração trabalhavam os africanos livres, escravizados e os indígenas que, inclusive, tinham conhecimentos sobre a raiz. Os conhecimentos ancestrais do cerrado nos dias atuais, de acordo com Silva (2024), fazem parte do viver e do fazer de uma cultura quilombola, como as sementes crioulas, componentes da alimentação, e plantas medicinais relacionadas ao extrativismo.

A medicina oficial no período colonial e imperial, inicialmente, era vista com desconfiança pela população e, só no século XIX, o médico se transformou no principal responsável pela organização hospitalar; até então, o médico de hospital era inexistente (Miranda, 2017, p. 4). Os ofícios do médico e do cirurgião foram dissociados; enquanto o médico instruído e dedicado ao estudo dos livros prescrevia medicamentos e exercia a medicina, o cirurgião prático dava-se de forma patente um ofício considerado indigno e servil, que, por prescrição médica, fazia sangrias, curava fraturas e tumores (Jesus, 2022, p. 71).

No período colonial, segundo Jesus (2002, p. 17), havia a presença dos oficiais de cura (médicos, cirurgiões, boticários, sangradores, enfermeiros e parteiras) reconhecida pelas autoridades das vilas e tinham prestígio social. Já no século XIX a profissão do médico passa a ser oficializada, mas concorreram com os agentes benzedores, curandeiros, parteiras. As discussões sobre higiene e saúde no século XIX foram ressaltadas nos discursos das autoridades políticas e circuladas na imprensa, porém, acessível a uma pequena parcela da população.

No cenário brasileiro, um grupo de médicos fundaram, no Rio de Janeiro, a Sociedade da Medicina e para isso surgiu, na década de 1830, um periódico chamado de semanário; uma espécie de manual elaborado pela Associação Médica. Esse semanário da saúde pública, de 1831, do Rio Janeiro, divulgava as doenças que ocorriam, enfatizando o valor da Medicina e o poder da ciência e seus recursos científicos para a cura das moléstias e informavam as câmaras municipais para que providências fossem agilizadas em prol da sociedade. Os periódicos difundiam o conhecimento médico internacional, davam visibilidade às ações das instituições médicas, voltados para um público específico e diminuto: os próprios médicos (Gagliardo, 2020, p. 898).

São vários os anúncios no jornal à luz de 1924 contra a prática da parteira por nascimento de crianças cegas ou com infecção cordão umbilical e, de acordo com o jornal, uma solução seria realizar o treinamento no consultório do Dr. Agrícola Paes de Barros. O povo pobre não pode pagar médicos e nem possuírem parteiras de curso para atendê-lo, daí a necessidade de o governo educar as parteiras não formadas para evitar que muitos patrícios nossos venham ficar cegos e impossibilitados de concorrer para o progresso da Pátria.

No mesmo jornal também contra os curandeiros: quem pode impedir charlatões, feiticeiro, de benzer feridas, receitar remédios, fazer simpatia, garrafadas, entre outros, estão ligados aos coronéis, e a saúde pública nada pode fazer. Além disso, havia médicos que prometiam curas. Assim, os jornais diziam: Organismos enfraquecidos pelos excessos físicos, intelectuais ou outros, reparam-se com Phospho-Kola Giffoni, granulado saboroso de noz de Kola e fosfato physicológico a venda nas boas pharmacias do Estado, e no Rio de Janeiro (jornal O mato Grosso, ano XXIII-1912).

Essas atitudes eram criticadas. No entanto, uma parcela da população, ficava vulnerável e várias doenças atingiam o grupo social afro-brasileiro. Contudo, o médico italiano Medardo Rivera foi bastante elogiado, por alguns presidentes da província, por tratar da saúde dos “africanos livres” (Moura, 2014, p. 164).

Embora a higiene e saúde fossem temas frequentes dos governantes no século XIX, na província de Mato Grosso (hoje, Estado) não havia saneamento básico, água encanada potável, mas sim, águas estagnadas e lixos espalhados, mosquitos, doenças variadas, como, malária, tuberculose, varíola, entre outras, pois além da escassez de profissionais da área médica, faltavam remédios.

O exercício da profissão das parteiras estava associado às mulheres, partilhando segredos e cuidados encontrados no imaginário social feminino da época, seu aliado principal (Age, s/d, p). Ao falar sobre o processo de curar/cuidar é difícil desconsiderar essa prática de conhecimento popular, exercida pelas mulheres.

Na época, havia o hospital militar e o Lazareto, e só em 1817 que surgiu o Hospital Nossa Senhora da Conceição – Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, instituição presente no espaço cuiabano, oriunda de Portugal com uma função caritativa, religiosa e social, dando abrigo e alimentando os pobres e doentes.

O poder municipal discursava sobre os cuidados com a lepra e demais doenças endêmicas e epidêmicas e a política sanitária nos portos, porém nem sempre os vereadores conseguiam suprir as necessidades. Conforme as considerações apresentadas a arte de cuidar das pessoas nos diversos momentos históricos, mesmo diante das dificuldades foram também práticas terapêuticas. A Medicina constitui um saber científico, o cuidado com o ser humano uma combinação entre ciência e saberes populares.

Denise D. Abech é médica e atua como coordenadora da Faculdade de Medicina da Unic; Maria de Lourdes Fanaia é Prof.ªDrª da Unic

Link da Matéria – via RD News

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