Ser mãe começa antes do positivo

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No consultório, aprendi que nem toda dor é contada com palavras. Às vezes, ela aparece no silêncio entre um exame e outro. Outras vezes, na pergunta tímida que vem depois de uma tentativa frustrada: “Doutora, será que tem algo errado com a gente?”

É difícil falar sobre infertilidade, ainda mais quando tudo ao redor parece pedir pressa, positividade e resultados. Mas é exatamente por isso que eu insisto: essa conversa precisa acontecer antes que o tempo cobre mais do que deveria.

Uma vez, atendi um casal que estava tentando engravidar há dois anos. Ela já havia feito diversos exames, tomado hormônios, trocado de anticoncepcional… E só depois disso tudo alguém sugeriu um espermograma para ele. O resultado? A causa era totalmente masculina — e havia um tratamento simples.

Esse é só um dos muitos exemplos que mostram o quanto a infertilidade ainda é lida como algo exclusivamente feminino. E não é.

 

Hoje sabemos que:

• 35% dos casos têm origem feminina;

• 35% têm origem masculina;

• 20% são de causa combinada;

• e 10% seguem sem explicação, mesmo com todos os exames.

Quando falamos em infertilidade conjugal, falamos sobre os dois, e a melhor forma de começar essa investigação é com escuta, acolhimento — e nenhum julgamento.

Há muitos motivos pelos quais uma mulher pode encontrar dificuldades para engravidar. Os mais comuns incluem problemas ovulatórios (como a SOP); endometriose, que muitas vezes é silenciosa; trompas obstruídas por infecções ou cirurgias antigas; diminuição da reserva ovariana (principalmente depois dos 35); alterações uterinas, como pólipos e miomas.

Recentemente, uma paciente de 37 anos me procurou dizendo que se sentia “perfeita por dentro”, porque nunca teve dores ou alterações. Mas seus exames mostraram uma reserva ovariana muito abaixo do esperado. Ela mesma disse:
“Se eu soubesse que isso podia acontecer, teria me planejado antes.” Essa frase ficou comigo. Porque ela é a de muitas outras mulheres que acham que “vai dar tempo”.

E do lado masculino? Também é hora de falar. Ainda é comum que o parceiro só participe depois que a mulher já fez quase tudo, mas o espermograma deveria ser um dos primeiros passos. Nos homens, as causas mais frequentes incluem baixa concentração ou motilidade dos espermatozoides; varicocele; ISTs não tratadas; estilo de vida (anabolizantes, álcool em excesso, obesidade); fatores hormonais e genéticos.

Lembro de um paciente que chegou preocupado depois de um espermograma alterado. Ele disse “Dra, quer dizer que não posso ser pai?, respondi com calma “quer dizer que vamos cuidar disso com a mesma seriedade que você teria se fosse uma questão cardíaca, e há muita coisa que pode ser feita.”

O alívio dele foi imediato. Informação, quando bem entregue, é um remédio em si.

Quando é hora de procurar ajuda? Esse é um ponto que precisa ficar claro. Segundo a SBRA e a OMS, mulheres com menos de 35 anos devem investigar após 12 meses tentando; mulheres entre 35 e 39 anos, após 6 meses; e a partir dos 40, se após 3 meses não houver gravidez, já é hora de procurar um especialista.

Mas mais do que a idade, é importante observar sinais: ciclos irregulares, dor pélvica, histórico de infecções, cirurgias abdominais. Cada corpo tem seu tempo,  mas o tempo não espera ninguém.

Procurar um especialista em fertilidade não significa começar uma FIV. Isso é algo que repito muito: entender e verificar sua fertilidade não significa iniciar um tratamento. Muita gente adia a primeira consulta por medo de “entrar num processo longo e caro”, mas a primeira consulta é, na verdade, um momento de clareza.

Há casos em que bastam pequenas orientações. Outros exigem mais etapas, como congelamento de óvulos, inseminação ou FIV. Mas o importante é saber onde você está — e quais são as suas opções.

Maio é o mês das mães. Mas também é o mês de quem tem esse sonho. Esse mês costuma ser emocionalmente intenso para quem está tentando. Já vi mulheres evitarem o feed do Instagram, o almoço em família, até o comercial da TV. Mas também já vi algo lindo acontecer: quando elas se sentem vistas, escutadas — e respeitadas. Quando a maternidade é tratada não como um destino obrigatório, mas como um desejo legítimo, que merece ser cuidado.

Por isso, ao longo de maio, aqui na Clínica Intro, abrimos espaço para conversas mais sinceras, conteúdos informativos e atendimentos que acolhem de verdade. Sem pressa. Sem rótulo. Sem promessa vazia. Porque ser mãe não começa com o positivo. Ser mãe começa quando você escolhe cuidar, do corpo, da mente, do tempo, do sonho.

E você não precisa esperar tudo dar errado para começar.

 

Márcia Yamamoto Médica da equipe de Reprodução Humana da Clínica Intro CRM/MT 2803 – RQE 1382 – Endoscopia Ginecológica 3856 Mais de 20 anos de experiência em infertilidade conjugal.

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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