
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Hoje estive em reflexão sobre alguns padrões que têm se repetido nas lideranças que observo e acompanho. De um lado, vejo líderes com excesso de dominância. Aqueles que estão sempre querendo ganhar sobre a equipe, sobre os clientes, sobre os fornecedores. Que vivem num jogo interno de sair em vantagem — como se a função da liderança fosse vencer, e não edificar.
De outro lado, observo líderes que, à primeira vista, parecem o completo oposto. São aqueles que olham para a equipe como pessoas necessitadas, sempre carentes de algo. E, nesse movimento, passam a enxergar a empresa como uma figura paterna: responsável por suprir, cuidar, proteger, prover. A empresa se torna a fonte inesgotável de amparo, enquanto os liderados se colocam no lugar de quem apenas recebe. “ O líder que busca vantagem está sempre olhando para si. Funcionário, fornecedor, cliente — todos viram meios para um fim pessoal. A entrega se torna secundária”
Ambos os extremos têm algo em comum: a falta de equilíbrio. E mais profundamente, a escassez como ponto de partida.
O líder predador — ou egocêntrico, como alguns chamam — quer tirar vantagem. E muitas vezes nem está preocupado em entregar, apenas em garantir o que considera ser seu “ganho”. O que ele não percebe é que, ao agir assim, ele seca a fonte geradora. Ele esgota a capacidade do sistema de prosperar — porque aquilo que não gira em abundância não se sustenta no tempo.
Já o líder assistencialista pode até não ter consciência de que também está tirando vantagem. Mas está. Ele acredita que a empresa tem a obrigação de suprir tudo o que a equipe precisa. E esquece que há uma fonte que sustenta tudo isso: a própria empresa. Uma fonte que precisa ser nutrida, fortalecida, sustentada com estratégia, clareza, entrega, resultado. Porque senão, também seca.
Essa liderança assistencialista, por exemplo, tem me feito refletir muito. Tenho observado isso em uma gestora que está em mentoria comigo. Uma líder excelente, humana, cuidadosa — alguém com um olhar genuíno para o time. E o time gosta dela, cuida dela, confia nela. Mas desde que essa liderança se instalou na empresa que atendo, os resultados despencaram. E não é por má intenção. É porque ela foca apenas em cuidar das pessoas. E esquece de cuidar da fonte. Não age com firmeza onde precisa. Não prioriza o que sustenta o sistema. E aí, tudo aquilo que é belo — o cuidado, a escuta, o olhar humano — passa a ficar frágil. Porque sem resultado, não há continuidade. Não há como fazer isso e muito mais.
Apesar de parecerem opostos, esses dois perfis são lados da mesma moeda. Ambos partem de uma lógica egoísta. Sim, egoísta. Porque, em última instância, se colocam no centro. Um, porque quer sempre ganhar. O outro, porque precisa ser necessário. E ambos, de formas diferentes, drenam a energia da organização.
O líder que busca vantagem está sempre olhando para si. Funcionário, fornecedor, cliente — todos viram meios para um fim pessoal. A entrega se torna secundária. A equação justa se rompe. E a empresa, com o tempo, sente o peso disso. Porque o ciclo de prosperidade deixa de girar.
Já o assistencialista atua velando uma falta que carrega. Uma dor que talvez nem tenha nome. Ele cuida, acolhe, oferece — mas muitas vezes a partir de uma frustração pessoal não resolvida. Como uma criança mimada que recebeu demais e cresceu esperando que a vida siga suprindo sem esforço, ou aquela criança que recebeu de menos e segue cobrando do mundo — aqui, no caso, a empresa se torna responsável por aquilo que ficaram devendo a ele e aos seus. E ao repetir isso com sua equipe, não os convida ao esforço, à responsabilidade, ao movimento. E, novamente, a fonte seca.
Essa segunda forma de liderança é a mais difícil de ser percebida. Porque é adorada pela equipe. Afinal, quem não gostaria de ter um líder que acolhe tudo, que cobra pouco, que está sempre preocupado em suprir? Mas o que falta nela é reciprocidade. Ela não devolve ao sistema o que o sistema precisa para continuar existindo. Ela não exige da equipe a edificação do negócio. E aí, quando os gestores percebem o desequilíbrio, os danos já se acumularam. Meses — às vezes anos — de resultado perdido. De potencial desperdiçado.
Por isso, fica aqui esse convite à consciência. Porque nem sempre o que parece bonito, generoso e acolhedor está sustentado em bases saudáveis. E nem sempre o que parece firme, estratégico e forte está de fato contribuindo para o todo.
Liderar é sustentar. E sustentar requer equilíbrio, presença e coragem. Coragem de se ver. E de rever o que for preciso.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras

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