Festa de santo em Cuiabá: São Benedito e a cultura afro-brasileira

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Maria de Lourdes Fanaia

Os estudos historiográficos abarcam a celebração religiosa do santo negro, porém, ainda são escassas as pesquisas com destaque para as produções artísticas e culturais do negro no contexto da festa do santo, que durante séculos foram negligenciadas. Destaca-se que uma das razões da pesquisa foi lançar olhares para além da festa do santo, pois a celebração a São Benedito evidencia traços da cultura afro-brasileira. Desde o período colonial, o santo negro foi cultuado na capela no Canto do Sebo (Conde de Azambuja – Praça da Mandioca), antes de se construir a capela de São Benedito, anexada à Igreja Nossa Senhora do Rosário, em 1760. No contexto da escravidão, os escravizados não podiam edificar capela ou igreja com nome de algum santo de devoção sem estar vinculada a uma que já estivesse edificada na vila (Abreu, 2007, p. 80).

No século XVIII, de acordo com Rosa (2003), em Cuiabá, a presença africana demarcou relações intensas entre a América e a África Ocidental. Entraram, em Cuiabá, 373 escravizados, porém, no mesmo universo, a população indígena se fez presente. Para Caio Boschi (1986, p. 12), os santos poderiam ser considerados, na época colonial, símbolos da verdade racial e social do Brasil. Assim, Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, São Elesbão, Santa Efigênia eram invocações dos negros pela afinidade étnica, pela identidade de origem geográfica e pelas identidades das agruras.

De acordo com Bastide (1971), o catolicismo negro que ocorreu dentro das confrarias impediu, de certa forma, a assimilação total dos negros à religião do branco. Segundo Bastide (1971), Benedito foi designado por muitos devotos como Santo Negro, sem borrador, protetor dos cozinheiros. De origem negra e, por causa da sua cor, tornou-se protetor dos negros, sendo o primeiro africano canonizado pela Igreja, no século XIX. A devoção ao santo negro na capital mato-grossense esteve fortemente associada com a irmandade antes da autorização da Igreja, no século XIX.

A celebração religiosa e festiva de São Benedito é dinâmica, constituída por diversas mudanças em vários momentos históricos. Ademais, parte-se do pressuposto de que a festa do santo não foi e não é constituída por uma só cultura, uma vez que a celebração de São Benedito reúne um público diverso, sendo, portanto, hibridizada.

Observa-se nos jornais O Estado de Mato Grosso, da capital mato-grossense, a dimensão da festa de São Benedito na década de 1970, que ocorria na casa dos festeiros até 1982. De acordo com o jornal, o almoço servido “era o maior do mundo em que todos se igualam, que Cuiabá parece que se transforma numa mesma família”, evento que reunia, na organização, uma média de 400 a 500 pessoas. “ Se no passado a cultura afro-brasileira ficou ofuscada, nos dias atuais ela ocupa o espaço religioso na maior festa religiosa da capital mato-grossense e exibe o “status” da religião de matriz africana”

Na época da festividade do santo, de acordo com o jornal (1976), ocorreu um seminário na Academia Mato-grossense de Letras cujo tema era religiosidade e o fenômeno sociocultural religioso de São Benedito. Além disso, havia apresentações de teatro dos grupos sociais afro-brasileiros em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na época, o movimento negro, sob a liderança do devoto do santo Sr. Geraldo Henrique Costa (in memoriam), o primeiro afrodescendente a criar o movimento negro no final da década de 1970 no Estado de Mato Grosso, participava das atividades da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e capela de São Benedito.

Contudo, antes disso, a dança do Congo, uma linguagem artística que retrata a identidade mato-grossense e faz parte da cultura de matriz africana, participava da celebração do santo em Cuiabá, no século XIX e na primeira década do século XX. A dança é repleta de artes visuais que envolvem música, dança, coreografias e adereços, mas não foi devidamente considerada pelas autoridades políticas e religiosas, uma vez que foi excluída da celebração. Hoje, a dança acontece em duas localidades do Estado de Mato Grosso: Vila Bela da Santíssima Trindade e Nossa Senhora do Livramento.

Assim, se no passado a cultura afro-brasileira ficou ofuscada, nos dias atuais ela ocupa o espaço religioso na maior festa religiosa da capital mato-grossense e exibe o “status” da religião de matriz africana. Atualmente, a celebração do santo congrega vários grupos sociais que expressam manifestações culturais como a dança do Congo, originada no período da escravidão, a Lavagem das Escadarias de Nossa Senhora do Rosário e Capela de São Benedito, surgida em 2017, e a capoeira.

No entorno da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Capela de São Benedito — espaço do sagrado —, as manifestações culturais dos grupos sociais afro-brasileiros emitem símbolos que incluem crenças, estilos de roupas e cores, cânticos, aromas das flores e águas de cheiro, as vassouras, ou seja, objetos que vão muito além da devoção ao santo, pois os louvores são também direcionados ora aos orixás, ora ao santo.

Desse modo, considera-se que os grupos sociais afro-brasileiros do passado e do presente são atores e autores de sua cultura, portanto, não foram e não são sujeitos históricos destituídos de um saber e do fazer cultural, uma vez que o homem é produtor desta, diferente da abordagem colonial, cujos grupos foram visados como vítimas do sistema escravista excludente. A celebração, de certa forma, faz parte de uma identidade cultural da localidade e, ao mesmo tempo, presente e passado se entrelaçam. Como disse Mário Quintana: “O passado não conhece seu lugar, está sempre presente.”

Maria de Lourdes Fanaia é prof.ª Dr.ª da Universidade de Cuiabá – Membro do PEN Clube do Brasil pelo Mato Grosso Texto extraído da tese de doutorado da autora – UFMT – 2024

Link da Matéria – via RD News

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