Eu já sei o tema de redação do Enem deste ano

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Suzana Luz

O título deste singelo artigo traz duas interpretações: a primeira é a mais perigosa, pois alguém pode não entender a ironia e supor que eu faço parte de algum esquema fraudulento para descobrir o tema da redação do Enem, o que seria algo terrível em minha lídima carreira como professora; então, imediatamente, afastemos essa hipótese.

A segunda interpretação é a mais óbvia, pois quem me conhece, sabe que eu sempre me movimento quando se trata de assunto de interesse de meus alunos, os quais enfrentarão a prova mais temida do país e, no caso, vejo como uma afronta a forma com que os temas de redação do Enem têm sido elaborados. Melhor dizendo, mal elaborados.

Não vou nem tocar no elitismo de determinados temas, nem vou falar da inadequação ao público-alvo de outros. Meu objetivo é fazer o leitor compreender que não há muita originalidade por parte da banca elaboradora quando ela “formula” os temas.

A prova está neste retrospecto:

Enem 2024: Desafios para a valorização da herança africana no Brasil

Enem 2024 PPL: Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro

Enem 2022: Desafios para a valorização de povos tradicionais no Brasil

Enem 2017: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Com base nesses últimos temas, fica claro que não precisa ser muito inteligente para deduzir qual será o próximo… “ Então, em 2025, se tudo continuar como está, teremos mais um Enem com “Os desafios para a valorização”. Aos espertinhos de plantão, aos “professores” que ensinam modelos prontos, tenho um recado: a maré está a seu favor! ”

Para entender melhor a dinâmica e o problema envolvido nisso, é preciso explicar algo muito importante quanto à avaliação da prova discursiva do Enem. Uma de suas competências, a número 2, avalia a capacidade do aluno em adicionar, ao longo do texto, repertórios argumentativos que estejam ligados ao tema ou a qualquer um de seus recortes, ou seja, será “considerada incompleta a abordagem que se limita a assuntos parcialmente relacionados à proposta”, segundo o MEC/Inep informou em um de seus documentos, disponíveis no site do Ministério.

Trocando em miúdos, o aluno precisa da chancela de um especialista no assunto ou de um conceito, de uma reportagem, de um filme, de um livro e essa referência deve estar ligada a qualquer um dos elementos da frase temática a fim de que haja defesa de tese. Se o candidato fizer isso com argumentos de autoridade legítimos (conhecemos a fonte de onde vem a referência), com pertinência (repertório relacionado a qualquer um dos elementos do tema) e produtividade (com contribuição para a defesa da tese), obterá nota máxima (200). Lembrando que “tema” não se restringe ao assunto central, mas a qualquer parte da frase. Então, em “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”, os repertórios argumentativos poderiam ilustrar o assunto geral “herança africana”, mas também os termos “desafios” e “valorização”.

Daí que chego à conclusão de que já sei o tema! Basta que o candidato vá acompanhado, em sua bagagem, de uma citação sobre “desafios” e “valorização” e ninguém desse mundo poderá lhe tirar nota. Desde que, claro, a grade de correção seja seguida, o que não ocorre com a frequência necessária.

Pois bem, leitores. Este é o MEC que exige que o candidato seja AUTORAL, original e propositivo – elementos que são cobrados rigorosamente na competência 3, a qual testa a seleção de ideias do produtor do texto. A partir desse detalhe, eu acredito que o MEC e, por consequência, o Inep deveriam entender que geram um grande paradoxo ao cobrar dos candidatos aquilo que nem mesmo seu corpo técnico consegue alcançar. Enfim, deveriam se envergonhar de tocar sempre na mesma tecla, sem buscar variar a matriz ideológica por trás de eixos já desgastados pelo uso.  

Então, em 2025, se tudo continuar como está, teremos mais um Enem com “Os desafios para a valorização”. Aos espertinhos de plantão, aos “professores” que ensinam modelos prontos, tenho um recado: a maré está a seu favor! Preparem seus descontextualizados repertórios coringas, apertem as canetas, mas não chorem o leite derramado depois. Aos alunos autorais, eu digo: sejam perseverantes na leitura e na produção textual autoral e, quem sabe um dia, o MEC fará o mesmo.

Suzana Germosgeschi Luz é professora de redação

Link da Matéria – via RD News

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