
O presidente do MDB de Mato Grosso, Carlos Bezerra, que está deixando a vida pública após seis décadas, foi um dos perseguidos do golpe militar, que completa 61 anos neste 31 de março de 2025. Ao , o emedebista relata o início da militância no antigo PTB de Getúlio Vargas, a atuação no movimento estudantil, a recusa em capitular para a ditadura e a prisão de 90 dias, que abriu caminho para sua trajetória política como deputado estadual, prefeito de Rondonópolis, governador, senador e deputado federal.
Rodinei CrescêncioRdnews
Bezerra conta que despertou para a política em 1950, durante um comício do então presidente da República, Getúlio Vargas, na Praça da República, em Cuiabá. Desde então, militou no PTB sob os ideais do teórico do trabalhismo Alberto Pasqualini e, depois de conquistar uma cadeira de deputado estadual, dedicou-se a construir o MDB para combater a ditadura militar.
“Eu defini a minha vida pública, o caminho que eu ia seguir, em 1950. Eu tinha 8 anos de idade quando Getúlio Vargas veio aqui em Cuiabá fazer um comício. Eu fui à praça assistir ao comício e vi aquele delírio popular, gente desmaiando; uma mulher desmaiou em cima de mim. Naquela época, meu pai era da UDN, do Brigadeiro [Eduardo Gomes]. Saí da praça, cheguei em casa e falei com meu pai: ‘Eu não sou Brigadeiro mais, não. Eu sou Getúlio’. Aquele comício, aquele ato, me tocou muito”, conta Carlos Bezerra.
Com mais idade, Carlos Bezerra começou a militância no movimento estudantil, até que, em 1964, os militares depuseram o presidente da República, João Goulart, e deram início à ditadura, que acabou somente em 1985, com a redemocratização. Com isso, vieram a perseguição e a resistência, que lhe asseguraram sucessivos mandatos eletivos. “ Eu quase fui assassinado. Levei fuzil, metralhadora no peito várias vezes”
Quando o golpe militar se concretizou, Carlos Bezerra estava na mira do novo regime. Foi então que recusou a proposta de capitular para evitar a perseguição e a consequente prisão.
“Nós tínhamos um grupo aqui, que militava conosco na Mocidade Trabalhista [do PTB], no movimento estudantil. Um deles foi na minha casa, porque, naquela época, a conversa era que você seria deportado ou seria torturado e morto. A conversa que existia era essa. E um colega meu foi lá em casa; o pai dele era major da Polícia Militar, e disse: ‘Eu vim aqui porque o senhor vai ser preso, mas tem um jeito de evitar a prisão. Você faz o seguinte, faz o que eu fiz’. Pegou uma nota, mostrou, ele fazendo uma carta de apoio à ditadura. Eu respondi: ‘Simão, eu morro, mas não faço isso. O senhor me envergonha’. Ele ainda alertou: ‘Mas você vai ser preso’. Acabei a conversa falando: ‘Não tem importância, pode me matar, pode me fuzilar’”, completa.
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Após se recusar a apoiar a ditadura, Carlos Bezerra foi preso por 90 dias, sob acusação de ser subversivo e comunista. Enquanto estava na prisão, perdeu uma filha.
Segundo Bezerra, os militares permitiram que ele acompanhasse o enterro. No entanto, compareceu ao funeral sob escolta do Exército.
“A decepção política era muito grande, e eu terminei sendo preso. Perdi a minha primeira filha na cadeia, sem poder dar assistência a ela. Me permitiram apenas ir ao enterro escoltado. Depois que saí da cadeia da ditadura, fui ajudar a fundar o MDB. Eu sou fundador do MDB, um dos poucos que está vivo no Brasil. Ainda tem Pedro Simon, no Rio Grande do Sul, e mais alguns. Agora mesmo morreu, em Minas Gerais, o Newton Cardoso, que é fundador junto comigo, meu companheirão”, lembrou.
Depois da prisão, com a situação complicada em Cuiabá, Carlos Bezerra mudou-se para Rondonópolis, onde se estabeleceu como advogado. Já no MDB, por pressão do grupo político, lançou-se candidato a deputado estadual.
Os discursos de campanha, sempre críticos à ditadura militar, quase resultaram em uma segunda prisão. Desta vez, escapou pela influência do cunhado. “ E naquela época, eu não podia falar a verdade. Não existia liberdade nenhuma”
O então deputado Afro Stefanini gravou o discurso de campanha e levou ao SNI (Serviço Nacional de Informações) da ditadura militar. Uma ordem de prisão foi emitida em Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul.
Ocorre que o contínuo da Polícia Federal em Cuiabá era amigo da família e alertou um cunhado de Carlos Bezerra, que chegou a preparar uma operação para tirá-lo do país. No fim, o emedebista se apresentou às Forças Armadas e acabou liberado.
“Eu me apresentei, e meu cunhado negociou para que eu não fosse preso. Formaram um processo contra mim porque eu falei a verdade sobre a ditadura. E naquela época, eu não podia falar a verdade. Não existia liberdade nenhuma”, disse.
Depois de eleito deputado estadual, Carlos Bezerra conta que se dedicou a construir o MDB e a defender os trabalhadores rurais vítimas da violência no campo. Um dos seus parceiros de militância era o bispo Dom Pedro Casaldáliga, da Prelazia de São Félix do Araguaia, conhecido pela defesa dos camponeses, que faleceu em 2020.
“Trabalhei muito e não morri nessa época por acaso (…) Me associei a Dom Pedro Casaldáliga, que era o bispo de São Félix do Araguaia, numa linha para defender os trabalhadores. E, com isso, eu quase fui assassinado. Levei fuzil, metralhadora no peito várias vezes. Dizia: ‘Atira, atira’. Mas não atiravam, tinham medo de atirar, porque eu era deputado estadual. E, naquela época, você sabe, mataram padres da Igreja Católica, cometeram violências de todo tipo”, concluiu.
Atualmente, Carlos Bezerra preside o MDB de Mato Grosso há mais de 25 anos. Pretende deixar o cargo em junho e se retirar da vida pública.
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