Não sabendo que era impossível

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Sonhei que estava no banco de trás da van escolar de minhas filhas usando o uniforme do Dom Expedito Lopes, o colégio que frequentei na educação infantil. Em corpo de adulta, eu me sabia criança. Vestia saia plissada cinza com camisa rosa, gola e manga cinzinhas da cor da saia, meião branco até o joelho e sapato Vulcabrás. Lara e Sofia de roupa normal – nunca precisaram usar uniforme – não estranhavam a inadequação de minha presença. Éramos amigas.

 

Na época que as meninas iam de vanzinha pra escola (tinham uns 6, 4 anos) minha irmã costumava contratar um animador de festa pros aniversários de meus sobrinhos que se chamava Lulão. O nome do motorista da van era Lula e já no primeiro dia, num medo infantil de soltar as crianças com aquele moço, mandei um “qualquer coisa, por favor, me liga, Lulão”. Lara e Sofia, que já o conheciam da escola, me olharam com cara de “que intimidade é essa, mulher?”.

 

Cometido o engano, chamei Lula de Lulão até as duas crescerem o suficiente pra fazer o trajeto andando. Dar o braço a torcer definitivamente não é um esporte que pratico com facilidade. Me fiz de mãe informal e tentei como pude fazer o apelido do motorista pegar entre as outras mães pra não sair de doida sozinha. Não pegou, claro.

 

Tenho pensado sobre isso e talvez esteja aí a razão do sonho. Observo a dificuldade que tenho de “voltar pra trás” desde a época do uniforme do Dom Expedito Lopes e isso é pra lá de péssimo. Taí uma coisinha que a gente faz o tempo todo: mudar de ideia. Hoje cedo escutava uma analisanda que anda às voltas com um desejo antigo que se avizinha. Ela quis, quis muito, o que lhe parecia quase impossível. E agora que está na esquina de conseguir o que quis, enfrenta o dilema de dizer pra si
que não quer mais. Um medo danado de perder o que, para ela, a define como quem é.

 

Uma outra analisanda, a primeira do dia de hoje, me contou rindo de mostrar todos os dentes de uma figurinha que recebeu no celular. Dizia assim: não sabendo que era impossível, foi lá e soube.

Me contava de um desejo cultivado e não realizado. Foi bonito vê-la brincar com a própria impossibilidade. É o que o sonho me convida a fazer com mais frequência. Não adianta insistir, Lulão nunca vai ser Lula. Estendo o convite a vocês também. E quem tiver essa figurinha, me manda, por favor?

 

Boa semana, queridos

Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

Coluna semanal atualizada às segundas-feiras

Link da Matéria – via Gazeta Digital

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