O preço do ovo e a complexa teia da inflação

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Rodinei Crescêncio

Nos últimos meses, o brasileiro tem se deparado com um velho conhecido nas alturas: o ovo. Antes apontado como a proteína “alternativa” e mais acessível em tempos de carne bovina cara, o ovo passou a figurar como vilão no bolso do consumidor. Mas afinal, o que explica essa disparada nos preços? E por que nem tudo isso pode ser atribuído, de forma simplista, ao governo federal, como tem sido comum em algumas narrativas?

Para entender a escalada do preço do ovo, é preciso olhar para a cadeia produtiva do agronegócio, que vai muito além da prateleira do supermercado. Tudo começa com o custo de produção das granjas, diretamente influenciado pelo preço dos insumos básicos como milho e soja, que são a base da alimentação das aves poedeiras (as galinhas que produzem ovos). Esses grãos, por sua vez, são commodities negociadas internacionalmente, e estão sujeitos a variações cambiais e ao comportamento do mercado global. “ Em tempos de polarização, transformar o ovo em símbolo de disputa política apenas empobrece o debate. O desafio está em entender que a economia, assim como a vida, é feita de ciclos e de relações interdependentes”

Nos últimos anos, a cotação do milho e da soja tem subido em função de uma série de fatores, como secas severas em regiões produtoras, aumento das exportações e alta demanda global, especialmente da China. Além disso, o câmbio desvalorizado – resultado de uma conjuntura econômica que envolve política monetária, crise fiscal e instabilidades internacionais – encarece esses produtos no mercado interno, já que boa parte deles é exportada. Com insumos mais caros, os produtores de ovos acabam repassando parte desses custos para o preço final.

Outro ponto relevante é a sazonalidade. O período de calor extremo e estiagens impacta a produtividade das aves, que passam a botar menos ovos. Além disso, os custos de energia elétrica para manter a climatização das granjas e garantir o bem-estar animal também aumentam nesse cenário. A menor oferta e o custo operacional mais alto pressionam ainda mais os preços.

Há ainda questões estruturais relacionadas ao setor avícola, como o aumento no preço do transporte (em grande parte impulsionado pelo valor dos combustíveis, que seguem a dinâmica internacional do petróleo) e a recuperação econômica do setor de bares e restaurantes após a pandemia, que aumentou a demanda por ovos no mercado institucional.

Portanto, ao contrário do que parte do debate público tenta simplificar, os preços dos ovos – assim como de diversos alimentos – não são fruto direto e exclusivo das políticas de um governo em particular. São, na verdade, resultado de uma engrenagem complexa de fatores nacionais e globais, que se retroalimentam e fogem ao controle imediato de qualquer gestão pública.

Isso não significa, porém, que o Estado não tenha um papel importante em mitigar esses impactos, seja por meio de políticas agrícolas que incentivem a produção interna de grãos, ou pela adoção de medidas fiscais e cambiais que reduzam a volatilidade dos preços. Mas é fundamental olhar para a realidade com mais profundidade e menos paixões.

Em tempos de polarização, transformar o ovo em símbolo de disputa política apenas empobrece o debate. O desafio está em entender que a economia, assim como a vida, é feita de ciclos e de relações interdependentes. E o preço do ovo, em sua aparente simplicidade, é um espelho dessa complexa rede que liga o campo à mesa do brasileiro.

Escrito com Sara Nadur Ribeiro

Mauricio Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia

Link da Matéria – via RD News

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