
Rodinei Crescêncio/Rdnews
“Não vamos pagar!” — foi a resposta que recebi do meu diretor na época, sobre uma ajuda de custo para um curso que eu gostaria de fazer. Esse “não” foi como aquele “se vira” que alguns de vocês veem nas redes sociais. Naquele momento, após quase três anos na empresa, ocupando o cargo de coordenadora de Treinamento e Desenvolvimento, eu carregava no coração alguns questionamentos dolorosos e um sentimento de injustiça.
— Eu sou a que procura e desenvolve todo mundo, mas e eu? Quem cuida de mim? Quem olha para as minhas necessidades de capacitação?
— Vão contratar o terceiro gerente de RH para a área que eu vou ter que treinar e ensinar, ninguém olha para mim, não me pagam curso, não aumentam meu salário. “ Ao acompanhar o dia a dia de várias empresas, quantos vejo na triste posição de esperança vitimizada: aquele para quem a vida foi dura e injusta, que se julga alguém diferenciado e especial, que segue em busca de alguém que o reconheça nesse lugar de distinção, mas, continuando a se sentir injustiçado, se deprime e se revolta”
Questionamentos como esses me assolavam e me colocaram em um círculo de lamentações mentais e uma postura passiva diante dos novos desafios da empresa.
Um dia, parada debaixo da escadas, sentada em um degrau, o fundador da empresa – afastado dos negócios, em processo de passagem da empresa aos filhos –, ao me ver naquela posição, fitou-me nos olhos e disse:
— Perca seu emprego por dizer a verdade, mas não se mantenha nele sendo fantoche nas mãos de ninguém.
Aquela frase me impactou de um jeito que nunca mais esqueci e reverberou por muitos anos. Naquele momento, algo se elucidou e avivou minha alma adormecida.
Quem é o responsável pela sua carreira?
Entendi que aquele movimento sistemático, do qual eu era contratada para cuidar – expandindo a consciência das pessoas, para que elas ocupassem posições de protagonismo na empresa e na vida, e que era meu grande papel por escolha –, estava soterrado em uma postura vitimizada da vida: “Que vida injusta, que empresa injusta, ninguém olha para mim!”
Aquele “se vira”, recebido por meio do “não vamos pagar!”, somado ao convite ao protagonismo feito pelo fundador da empresa ao me encontrar no degrau, foram meus melhores remédios, que me amadureceriam dali para frente, com o passar dos meses e dos anos. Aquele remédio, de gosto ruim e amargo, quando você o introduz no paladar, mas que, ao percorrer seu organismo, faz efeito e cura profundamente, foi o que ocorreu naquelas semanas, meses e anos seguintes.
Ao acompanhar o dia a dia de várias empresas, quantos vejo na triste posição de esperança vitimizada: aquele para quem a vida foi dura e injusta, que se julga alguém diferenciado e especial, que segue em busca de alguém que o reconheça nesse lugar de distinção, mas, continuando a se sentir injustiçado, se deprime e se revolta.
Eu entendo exatamente esse movimento, por ter vivido nesse lugar e por ver tantas pessoas nele. Sou grata aos meus ex-patrões daquela época, por sua postura firme e enérgica, que me situaram na realidade.
Naquele momento, tive a resposta nítida e clara na prática sobre a seguinte pergunta:
— Quem é o responsável pela sua carreira?
E podemos acrescentar aqui: pela sua vida, pela sua felicidade, pelo seu resultado?
A verdade nua e crua se revelou, e isso não anulava todos os meus méritos construídos até ali, os resultados que alcancei, o bem-querer dos meus chefes, pares e liderados. Eu pude perceber e entender verdadeiramente que esses sentimentos também estavam presentes. Mas, sobre a construção da minha identidade e dos meus resultados profissionais, ah… isso ninguém ia me dar. Eu era a responsável. Eu ia ter que colocar cada tijolo, cada peça de acabamento, naquele projeto que eu queria construir. Ninguém ia me dar aquilo por eu ser simplesmente uma pessoa legal, querida, esforçada e amável. Eu ia ter que buscar, eu ia ter que edificar.
Entendi naquele momento que não era mais a menina de seis aninhos que esperava papai trazer café na cama, a criança ferida que julgava mamãe por não ter sido boa o suficiente, aquela criança ferida que culpava os pais por não me darem, por não me atenderem como eu achava que deveriam. Eu não podia mais levar para o mundo essa cobrança, exigindo de outras pessoas, principalmente de figuras como o chefe, o marido, o amigo, que suprissem aquilo que me faltou, que papai não foi capaz de dar. Vítima!
Naquele “se vira”, entendi as regras do jogo, e aquilo me fez crescer e florescer no mundo. O processo de autoconhecimento para essa transição é de extrema importância, pois, como vemos nas empresas, na vida, adultos infantilizados, injustiçados, limitados em seu crescimento e prosperidade por não encararem a dura realidade de que não são mais crianças e de que o mundo não lhes deve nada, fracassados em várias searas da vida, seja na empresa onde trabalham, seja no casamento infeliz, seja nas amizades insuficientes, seja… seja… perdidos em uma infância que não lhes cabe mais. Emperrados, perdidos!
E o mais triste de tudo: nesses casos, o fator tempo é cruel. E quanto mais tempo levam para despertar, perdem a chance de reconhecer a joia da vida quando se assume a responsabilidade. Mas muitos, talvez, só na velhice, no discurso do “se eu tivesse feito…”. Outros muitos, nem isso.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora; fundadora da Grandy Psicologia Empresarial e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras

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