O monumento, a praça e a personagem Maria Taquara

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Monumento Maria Taquara

Maria  Taquara é  uma  personagem  que  viveu  em  Cuiabá, na  primeira  metade  do  século  XX, e teve a sua escultura fixada no espaço da praça que concomitantemente recebeu o nome da protagonista na década de 1980. Procuramos mostrar o que  a personagem representa na memória coletiva da capital mato-grossense. A  Praça  Maria  Taquara  apresenta  mais  explicitamente  ao  estético  e  simbólico, pela identificação do monumento que nomeia o local, e o reconhecimento do valor deste pela população transeunte.  No entanto, representa uma memória na sua relação com  o centro  histórico  e  demais  pontos  de  referência  do  patrimônio  histórico  cultural  e arquitetônico da cidade.

 O uso intenso do lugar se dá de forma temporária como um ponto de passagem e ligação de pessoas, vindas de várias regiões, e o centro da cidade, no entanto esse objetivo leva ao local outros usos associados, como a instalação de locais pontos de comercialização de produtos que são do interesse dessas pessoas. A  Praça  Maria  Taquara  situa-se  em  meio  à  uma  série  de  outras  praças  nas  suas  proximidades, tendo a Praça Ipiranga na Avenida Tenente Coronel Duarte, com fluxo direto, a Praça Bispo Dom José um pouco mais afastada, mas também situada na “Prainha”. Pontualmente a praça se estabelece como um ponto de congruência entre a Avenida Tenente Coronel Duarte popularmente conhecida como “Prainha” e a Rua Clóvis Huguenei, sendo porta de acesso para edificações nas quais se abrigam pessoas que, à espera de meios de transporte público, ônibus, dali se distribuem para os demais espaços do Centro.  “ O monumento Maria Taquara faz parte do conjunto de patrimônio material e imaterial de  Cuiabá  e  remete  a  uma  identidade  cultural,  um  conjunto  dos  bens  culturais,  constituem  o  patrimônio  cultural  referente  às  identidades  coletivas  (Tomaz,  2010.  p.  7).  Le  Goff  (1996), considera a importância de valorizarmos todo material histórico como documento, independente do registro escrito, os indícios da cultura material (habitação, praça, objetos entre outros”

A escolha da personagem não foi isenta de intenções, dependeu de alguns valores e de percepções, […] O  início  da  década  de  1980  trouxe  a  produção  de  uma  “nova”  sensibilidade urbana, intimamente ligada a uma produção de identidades, o  que  confirma  o  forte  caráter      identitário  da  política  moderna.  Os  administradores  da  cultura  cuiabana  passaram  a  ser  influenciados  pelo  dispositivo  das  nacionalidades  e  do  discurso  nacional-popular  (Amedi, 2012, p.58 ).

Do mesmo modo que, as apropriações são múltiplas, ou seja, as interpretações dessa ou de outras imagens depende de um universo de questões, do lugar social, de quem observa e da formação cultural de cada grupo social.  Nesse contexto, autoridades politicas desenvolvem-se  uma  série  de  ações  voltadas  para  a  construção  de  museus  e  de  centros  de  memória.  Houve  também  a  proliferação  de  discursos  sobre  tombamentos  do centro  histórico,  valorização  da mulher,  do  negro,  do  índio e  de ícones  cuiabanos. 

Nesse  contexto  Maria  da  Conceição  (Maria  Taquara),  a  mulher  que  através  dos  modos  de  viver  e  ser  e  de  fazer  cultura,  adquiriu visibilidade. Portanto,  um  monumento  segundo  Le  Goff  (1996,  p.  547)  é  um  documento  e  a imagem de Maria Taquara é um fato histórico da cidade de Cuiabá, embora não se saiba a origem da personagem  e  nem  há  menção  de  quando  saiu  do  cenário  cuiabano,  apenas  indícios  que  o  sotaque de Maria era nordestino. O monumento foi criado pelo artista plástico Haroldo Tenuta (in memoriam) e restaurada em 2009.

Levantamos alguns   questionamentos sem necessariamente dar soluções, pois se os grupos sociais forjam estratégias para legitimar memórias, que discussões políticas ocorreram para a escolha do nome da Praça e do monumento de Maria Taquara, representada na localidade em estudo?  Sublinhemos que a estátua representa um monumento, porém, até a década de 1970, uma escultura,  estátua  ou  um  monumento  por  si  só  não  era  considerado  um  documento  histórico.  Segundo  Le  Goff  (1996,  p.  545),   o  monumento  é  um  documento  e  não  representa  apenas  passado.

É também produto da sociedade que o fabricou,  de acordo com as relações de poder; dependeu de uma intenção proveniente das relações de poder. Acrescenta-se que na historiografia brasileira,  até a década de 1970,  inexistiam discussões que valorizassem temáticas sobre gênero. Foi a partir da década de 1980 que houve a revolução historiográfica no ensino da História e da Geografia,  cujos protagonistas como a mulher, negro, índios  entre  outros  até  então  não  eram  valorizadas.  Os  nomes  de  ruas,  praças,  Becos,  eram  atribuídos à história dos heróis masculinos, políticos.

O monumento Maria Taquara faz parte do conjunto de patrimônio material e imaterial de  Cuiabá  e  remete  a  uma  identidade  cultural,  um  conjunto  dos  bens  culturais,  constituem  o  patrimônio  cultural  referente  às  identidades  coletivas  (Tomaz,  2010.  p.  7).  Le  Goff  (1996), considera a importância de valorizarmos todo material histórico como documento, independente do registro escrito, os indícios da cultura material (habitação, praça, objetos entre outros). Para Le Goff (1996,p 5 ), a história não se faz somente com documentos, além disso não está pronto e acabado senão seria algo impensável, depende da habilidade do historiador para fabricar seu  mel na falta das flores habituais.

Foucault (1976) rompe com as dicotomias entre verdade/falso, para ele mais importante é perceber que  o efeito de verdade  está associado com poder. Maria  Taquara uns denominam-a de Maria da Gloria, outros Maria Conceição, o importante nesta abordagem é que  ela faz  parte  da  história  de  Cuiabá,  uma  cultura,   é  também resultado  de  práticas  de  uma  determinada  realidade  social,  que  são  construídas  e  materializadas  por  valores  assim como os discursos existentes na sociedade são produtos de verdades elaborados por grupos sociais.

 O referido monumento “Maria Taquara” é apropriado na memória coletiva, sob diversos  olhares  e  significados,  cada  grupo  social  fundamenta  um  acontecimento,  de  forma  diferenciada,  ou  seja,  a  memória  coletiva  reelabora  constantemente  os  fatos.  Segundo  Bergson (1999, p. 77) a memória, praticamente inseparável da percepção, intercala o passado no presente, reelabora o passado e o presente,  nas palavras de Mário Quintana, o passado está sempre presente.

A Praça Maria Taquara é o lugar do patrimônio, observou-se que as relações práticas de uso no fluxo local se inserem nas interfaces urbanas como espaço. A imagem de Maria Taquara remete a uma história, uma memória social construída na realidade social, mas, pode ser interpretada sob diversos olhares e há muito o que ser revelado. Sabemos que a pesquisa é espiralar, e as investigações sobre a praça e a referida protagonista não se encerram neste artigo. Algumas indagações ficam aqui para outros pesquisadores, que poderão enveredar nessa temática com novas indagações, novas propostas e, portanto, com outros olhares.

*Maria de lourdes Fanaia é profª historiadora, doutora pelo Programa de Pos graduação do ECCO-UFMT-docente da universidade de Cuiabá-UNIC

*Ana Graciela M. F da Fonseca Voltolini é doutora em Comunicação Social pela UMESP. Pós-doutorado ECCO –  Universidade Federal de MT (2017). Docente na Faculdade de Comunicação Social e da Pós-Graduação em Ensino da Universidade de Cuiabá – UNIC.e-mail: fonsecaanagraciela@gmail.com

*Fabiane Krolow é mestra no programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea/UFMT

Link da Matéria – via RD News

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