De olho no futuro, produtores rurais apostam em fábricas de insumos biológicos “on farm”

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De olho no futuro, produtores rurais de Mato Grosso têm apostado cada vez mais em uma produção sustentável, com técnicas de cultivo verde aliadas ao uso de insumos biológicos substituindo defensivos agrícolas químicos, os chamados “agrotóxicos”. Com essa substituição em grande parte da plantação, os produtores usam microorganismos da própria natureza, como bactérias e fungos inofensivas aos seres humanos, para combater pragas nas lavouras. O resultado tem sido uma economia em média de 50%, grãos mais saudáveis, uma maior produtividade e rentabilidade e um menor impacto no meio ambiente. Reprodução/Montagem Rodinei Crescêncio

Bactérias são multiplicadas para controlar pragas em fazenda em Cláudia (MT)

O produtor rural Denes Berticelli começou usar defensivos biológicos há oito anos em sua fazenda em Cláudia (a 566 km de Cuiabá), onde são produzidos milho, soja e arroz em uma área de 1.500 hectares. Os insumos são usados desde o início do processo, antes do plantio, até o controle de pragas.

“Existem algumas bactérias que liberam biocompostos que ajudam a aumentar o enraizamento, melhorar a sanidade e dar mais resistência à seca. Esses biocompostos são enterrados junto com o grão e, em alguns casos, produzem fungicidas que mantêm o solo em equilíbrio. Tudo isso é feito no tratamento antes de plantar. Após o plantio, são usados microorganismos para combater algumas pragas”, explica. Arquivo pessoal

Produtor tem sua própria fábrica On Farm para insumos biológicos em Cláudia

Um dos exemplos dado pelo produtor é a bactéria Bacillus subtilis, que combate a ferrugem e não deixa espaço para ela entrar no sistema, levando a redução do uso dos fungicidas até a metade. “Também reproduzimos uma bactéria que produz uma espécie de cristal. Esses cristais minúsculos são como pedaços de vidro, que ao ser ingeridos pelas lagartas machucam a traqueia e elas morrem. Ou seja, usamos o próprio meio ambiente para controlar essas pragas”, afirma. “ Também reproduzimos uma bactéria que produzem uma espécie de cristal. Esses cristais minúsculos são como pedaços de vidro, que ao ser ingeridos pelas lagartas machucam a traqueia e elas morrem” Exemplifica o produtor rural Denes Berticelli, ao falar de uma das técnicas de controle sustentável de pragas

Segundo Denes, ainda não é possível usar apenas os insumos biológicos na lavoura, devido ao clima, que em alguns períodos não está propício para a aplicação. No entanto, a redução do uso químico é muito expressiva, chegando facilmente a 50%.

“Em locais que eu teria dez lagartas por metro, considerado um ataque crítico, com o uso biológico tenho uma ou duas. Então, em vez de 1,5 litro, eu preciso usar 0,7 litro de defensivo agrícola químico. Hoje uso 70% de insumo biológico e 30% químico. Assim, não tenho um desequilíbrio violento dentro da lavoura. Não faço mais bateria de veneno para combater percevejo, por exemplo, faço a bateria de biológico. Se antes eram necessárias seis aplicações químicas, hoje são necessárias duas”, detalha.

“On farm”

Com seis aplicações, Denes afirma que tinha um grão com índice alto de picada de inseto e hoje esse índice é quase nulo, o que entrega um grão mais saudável, com mais proteína e mais peso, impactando na produtividade e no custo. Além do benefício ambiental e de qualidade do grão, o insumo biológico tem a vantagem econômica de poder ser reproduzida dentro da própria fazenda, a chamada “on farm”. Na propriedade de Berticelli, um biorreator transforma um litro de bactérias em mil litros.

“O inoculante para soja, produto que contém uma mistura de bactérias fixadoras de nitrogênio, eu comprava 100 ml por R$ 4. Hoje multiplico em casa e gasto R$ 0,40 centavos, uma redução de 90% no custo. Uma dose de aplicação de 100 ml de Aura, suficiente para um hectare, custa R$ 70 hoje. Se eu comprar e replicar ele na fazenda, vai me custar R$ 10 por hectare”, exemplifica Berticelli.

As “mini-indústrias” de produção dos insumos têm se tornado mais comum nas fazendas mato-grossenses nos últimos anos. Com o aumento da demanda, empresas estão se especializando nos defensivos e nessa técnica de produção no local, como é o caso da On Farm Agrobiológicos, em Sinop (a 503 km da Capital). A empresa, que atende várias cidades do nortão, surgiu em 2019. Atualmente, trabalha com duas linhas de produtos: os bioinsumos prontos e a linha ”on farm”, em que ensinam a produção na propriedade. A empresa oferece toda a estrutura, espaço, biorreator, treinamentos, acompanhamento e análises laboratorial durante a safra.

“Surgimos da necessidade do produtor economizar e ser mais sustentável. E esse trabalho é possível para pequenos, médios ou grandes produtores, porque ensinamos também como organizar a logística dentro da fazenda. Há uma demanda de importação de produtos mais sustentáveis e uma maior preocupação com nossa responsabilidade ambiental. Esse é o futuro”, afirma Douglas Rodrigues, sócio proprietário da On Farm Agrobiológicos. “ Viemos substituindo alguns produtos químicos, inseticidas, e produzimos aqui na própria fazenda. Já conseguimos reduzir em quase 50% o uso dos produtos químicos. Quanto menos agrotóxico usarmos, melhor para o meio ambiente” Relata o produtor Osvaldo Luiz Rubin, que tem fazenda em Porto dos Gaúchos

Essas técnicas chegaram há cerca de oito anos na região, quando os produtores lutavam contra a lagarta helicoperva e não encontravam um meio de controlá-la. Ao ser descoberto que, na China e na França, esse controle já era feito de forma caseira, através dos cristais produzidos pela bactéria, a técnica começou a ser replicada em Mato Grosso. Com o sucesso, empresas começaram a investir de forma mais direcionada nos bioinsumos.

“É importante ressaltar que usamos bactérias inofensivas ao ser humano. Não é uma bactéria que vai me causar algum dano. As bactérias via solo têm sobrevida em temperaturas de 30°C. As que afetam nosso organismo ficam em 37°C. Por isso controlamos a temperatura na produção, para selecionar essas que são inofensivas”, afirma Denes.

Osvaldo Luiz Rubin Pasqualotto, dono da Fazenda Vô Ermes, em Porto dos Gaúchos (a 650 km de Cuiabá), é um exemplo de que a prática sustentável também é viável para grandes produções. Ele cultiva soja e milho em 30 mil hectares e também se adaptou a produção “on farm”, tendo sua pequena indústria dentro da propriedade.

“Viemos substituindo alguns produtos químicos, inseticidas, e produzimos aqui na própria fazenda. Já conseguimos reduzir em quase 50% o uso dos produtos químicos. Quanto menos agrotóxico usarmos, melhor para o meio ambiente. Nós compramos em menor escala e dentro da fábrica conseguimos multiplicar em quantidade suficiente para aplicar nas lavouras. É aquele mesmo princípio para fazer iogurte caseiro. A cepa vai se reproduzindo. Fica tudo dentro de um contêiner de inox, com controle de temperatura e umidade, um processo bem rígido”, relata. Arquivo pessoal

Fazenda que produz 30 mil hectares de soja e milho em Porto dos Gaúchos (MT) tem fábrica ‘on farm’

O produtor Mateus Goldoni, que tem fazenda em Água Boa (744 km da Capital), cultiva além de soja, gergelim e melancia e consegue usar técnicas sustentáveis e bionsumos também para essas culturas. “Para a melancia isso é muito importante, porque o cultivo precisa das abelhas, principal polinizadora da fruta, e por isso precisa de um equilíbrio ambiental. Hoje eu planto 50 hectares de melancia e sou dependente totalmente da polinização natural. Por isso, preciso usar na soja insumos que não agridam o meio ambiente e não prejudiquem as abelhas, que também são importantes para o gergelim”, esclarece. Arquivo pessoal/Montagem Rodinei Crescêncio

Produção de melancia em Água Boa (MT) faz o uso de insumos biológicos

Ele produz na fazenda um microgel do rúmem de boi, a partir de produto de fábrica biológica, e reproduz também a bactéria Bradyrhizobium, que atua como inoculante da soja. “Compramos as doses e dobramos, triplicamos a quantidade, agregando mais no mesmo custo e também deixando para as culturas posteriores”, relata.

Adepto ao plantio direto, que promove a baixa emissão de carbono, Galdoni ressalta outras técnicas sustentáveis usadas no cultivo que se aliam aos bioinsumos. “Planto girassol no entorno da roça para ser um atrativo para as abelhas, trabalho com aplicação de melaço de cana na melancia para a mesma função, já usei também a cama de frango, que é efetiva, e faço adubo orgânico”, detalha. Uma parte do manejo ainda é feito com produtos químicos, explica Mateus. No entanto, o produtor afirma que as aplicações conscientes reduzem os impactos.  

Plantio direto também é eficiente

O presidente da Associação de Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, pontua que o Brasil é o país que mais tem aumentado o uso insumos biológicos, como inseticidas, fungicidas e nematicidas.

“Há uma narrativa lá fora de que o agrotóxico faz o fazendeiro produzir mais e ganhar mais dinheiro. A verdade é que o agrotóxico, que eu prefiro chamar de defensivo agrícola, permite que a gente produza e que a produção não se perca. O uso de biológico evita o uso químico, mas ainda não dá para ser utilizado sozinho. Por exemplo: a mosca branca é uma praga que dá na soja e no feijão. Na soja, o uso biológico consegue reduzir ou evitar o uso de químico. Já no feijão é a larva adulta que transmite o vírus e não há tempo hábil de um biológico funcionar, ainda dependendo do químico”, explica. Annie Souza/Rdnews

O presidente da Associação de Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, em entrevista à jornalista Kethlyn Moraes

Lucas cita que, inclusive, já fez testes em suas lavouras com o uso exclusivo de biológico, e foi colhida uma produção dez vezes menor, o que ainda restringe a técnica 100% sustentável. No entanto, essas práticas devem continuar se desenvolvendo nos próximos anos e se aliando a outras já utilizadas.

“Um exemplo feito por Mato Grosso e que é feito em poucos lugares do mundo é o plantio direto, que é o não-revolvimento do solo. Fazemos duas safras por ano, conseguindo um sequestro de carbono maior, muitas vezes, que o próprio Cerrado.  Então a agroecologia já é feita, quando o produtor respeita as nascentes, quando preserva as áreas de conservação, faz o plantio direto evitando erosão e escorrimento de defensivos para os rios”, afirma.

Para o representante do setor, o produtor brasileiro ainda é visto como irresponsável ambientalmente em países estrangeiros, mas a prática mostra o contrário. “Os dados mostram que somos exemplo para o planeta. Mato Grosso, se fosse um país, seria o quarto maior produtor de soja do mundo. E utilizamos apenas 14% do território e 25% do território é área preservada dentro das propriedades rurais”, afirma.

Dessa forma, Lucas afirma que o maior desafio é abrir novos mercado e mostrar que o produtor brasileiro é de fato sustentável. “O Brasil é sustentável, o produtor mato-grossense é sustentável. E quando você olha os números lá de fora, e aos exemplos que temos aqui, nada se compara ao que o produtor brasileiro faz”, finaliza.Entre na comunidade de WhatsApp do Rdnews e receba notícias em tempo real . (CLIQUE AQUI )

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